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Companhias estão tomando empréstimo para pagar dívidas

por: Afonso Bazolli
em: Crédito
fonte: Valor Econômico
13 de janeiro de 2026 - 17:12

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Relatório do Cefeb-Fipe aponta que juro elevado por período prolongado deixa pouco espaço para investimento em estoque e máquinas

O impacto negativo das altas taxas de juros sobre o financiamento às empresas já é evidente e não há dúvidas de que os efeitos da política monetária são muito mais intensos que o sugerido pela expansão do crédito bancário e do mercado de capitais. A conclusão é de estudo do Centro de Estudos do Financiamento das Empresas Brasileiras da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Cefeb-Fipe), cujo objetivo foi mostrar que “as empresas não estão com mais dinheiro para investir em estoques e comprar máquinas”, segundo o economista Carlos Antonio Rocca, coordenador da entidade.

Pressionadas, as empresas estão tomando dívida para pagar dívidas. Joaquim Oliveira, sócio da área de mercado de capitais do Cescon Barrieu, afirma que foi claro em 2025 o aumento da captação de recursos para rolar despesas financeiras. Neste fim de ano, inclusive, cresceu no escritório o movimento de companhias que, temendo o ambiente eleitoral, anteciparam operações que fariam no próximo ano para garantir caixa ao longo de 2026. “Não foi para estoque, para investimento, não foi um aumento saudável do endividamento.”

De acordo com o advogado, uma redução da Selic não trará alívio importante e a tendência é que o cenário se mantenha em 2026, com melhora somente em 2027. “Mesmo que comecem a cair no início de 2026, os juros continuarão excepcionalmente elevados, num cenário de empresas muito esmagadas”, concorda Rocca. “Não dá para usar uma avaliação do saldo de crédito bancário para dizer que há mais dinheiro para as empresas aumentarem sua demanda. É preciso analisar com muito mais cuidado. Muitas vezes não estão tomando um real a mais, só estão aumentando a dívida.”

O estudo usou quatro indicadores. O mais representativo, diz Rocca, foi a forte queda do chamado impulso de crédito das empresas em 12 meses, de 0,25% do PIB em fevereiro para -0,01% em agosto. O indicador mede a aceleração ou a desaceleração de novos empréstimos e financiamentos, ou seja, não considera o volume obtido e sim sua variação. Um impulso positivo indica crescimento do fluxo financeiro, na prática, dinheiro novo para financiar, por exemplo, um investimento maior. Para o economista, o resultado negativo torna claro o impacto da política monetária restritiva sobre as companhias e sobre a demanda de estoques e outros investimentos.

“[O crédito] não foi para estoque, para investimento, não foi um aumento saudável do endividamento”

— Joaquim Oliveira

Outro indicador avaliado foi o fluxo financeiro das empresas ou captação líquida de recursos – ou seja, o resultado líquido entre novas operações de financiamento e amortizações, considerando juros e lançamento de perdas pelos bancos. Nesse caso, Rocca aponta “uma queda considerável em 2025, de 5,60% do PIB em dezembro de 2024 para 4,54% do PIB em agosto [deste ano]”.

Por fim, o “caso extremo” foi o da taxa anual de variação das novas concessões de crédito e emissões de dívida, que cai de 26,70% em janeiro deste ano para -4,76% em agosto, mas Rocca pondera que, embora a queda seja intensa no período, o indicador não incorpora o efeito de amortizações e resgates sobre o fluxo de caixa das empresas em suas operações de dívida financeira e, por isso, é menos representativo.

Esses indicadores, então, foram confrontados com a variação do saldo de crédito amplo (que abrange crédito bancário doméstico e operações de dívida no mercado de capitais), cujas taxas anuais em agosto de 2025 sobem 13,15%, crescimento ainda elevado para uma inflação da ordem de 5%. Rocca ressalta que o mercado de capitais respondeu, em agosto deste ano, por 47% do total das dívidas domésticas das empresas, segundo o boletim, extraído do Monitor do Financiamento às Empresas Brasileiras, do Cefeb.

“A média geral das empresas está com mais de 20% de custo de dívida”, diz o economista, que lembra do aumento na inadimplência de pessoas jurídicas neste ano. “Essas empresas não estão atrasando porque gostam. É um péssimo sinal para elas, que passam a ter dificuldade para rolar a dívida e precisam apresentar mais garantias para os bancos.”

Gustavo Stolagli, sócio das áreas de fusões e aquisições e reestruturação do escritório Veirano Advogados, diz que houve aumento na demanda para renegociação e reestruturação de dívida, assim como processos de recuperação judicial, o que, afirma, deve se intensificar em 2026, num cenário de deterioração. “Muitas empresas, que mantêm um endividamento elevado e custoso por muito tempo, passam naturalmente a ter dificuldades para pagar ou reduzir essa dívida, dado que a taxa de juros é muito alta. Com isso, acabam perdendo a capacidade de honrar seus compromissos e necessitam de auxílio por meio de processos de recuperação extrajudicial ou judicial”, afirma ele.

Entre as empresas pequenas e médias, que têm menor acesso ao mercado de crédito tradicional, Samir Hauache, coordenador da área de mercado de capitais do BVA – Barreto Veiga Advogados, lembra que os fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) despontaram com força. “Vimos uma alta demanda e a principal destinação era para renegociação e alongamento de dívidas”, afirma. Ele lembra que, ao enfrentar condições de financiamento mais restritivas, com custos mais altos para captação de recursos, as empresas vão buscar alternativas no mercado e precisam ser criativas. “Acredito que os FIDCs terão um papel ainda mais relevante no mercado de crédito”, diz.

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