Jan
28

Transparência ganha mais peso no crédito privado

por: Afonso Bazolli
em: Crédito
fonte: Valor Econômico
27 de janeiro de 2026 - 17:11

Transparencia-ganha-mais-peso-no-credito-privado-televendas-cobranca-1

Capital mais caro e menor tolerância a risco reforçam o papel da governança no acesso a financiamentos e investimentos

Em um cenário de juros elevados e maior seletividade no mercado de crédito privado, a governança corporativa e a transparência das informações financeiras ganham peso nas análises de risco. Empresas com estruturas menos maduras tendem a enfrentar mais restrições e custos mais altos para acessar financiamento, enquanto previsibilidade e qualidade na divulgação de dados são aspectos cada vez mais relevantes para concessão de empréstimos e investimentos.

Gabriela El Jaick, sócia e head de research de crédito da JGP, diz que a governança exige muita atenção em qualquer crivo de análise de crédito. “A falha grave de governança é quase um risco que não se consegue precificar, porque há uma exposição a inúmeras possibilidades sem nenhuma previsão.”

Nos últimos 12 meses, as companhias com estruturas de governança menos maduras sentiram muito mais o impacto dessa lacuna. Na prática, essas empresas enfrentaram mais desafios para acessar crédito, melhores preços e prazos mais longos. Para El Jaick, o mercado tem valorizado ainda mais a transparência como as empresas divulgam seus resultados. “A forma como a empresa reporta os seus números diz muito. Isso vale também para as de médio e pequeno porte”, afirma.

Empresas com governança frágil pagam mais caro, ou simplesmente não conseguem financiamento, diz Juliana Tomaz, gestora de crédito da AMW, que é a asset management da Warren. No âmbito das empresas de médio porte, quando o tema é financiamento, a governança corporativa tem um peso ainda maior no custo da dívida. “A governança é um conjunto de práticas que garante transparência, confiabilidade da informação, responsabilidade e previsibilidade, pilares essenciais para reduzir a assimetria de informação e, consequentemente, a percepção de risco do credor”, ressalta.

Especialista em operações de crédito para empresas de capital fechado – como CCBs e Notas Comerciais -, Bruno Di Giacomo, CEO da Nero Capital, defende que a transparência pode suprir a ausência de estruturas rígidas de governança. Para ele, o mais importante é a clareza na comunicação entre a empresa e o credor. “A transparência é o motor mais forte para que empresas com baixa governança possam atingir melhores condições de mercado. Enquanto a empresa não atinge a governança, porque é um processo que leva tempo e não é uma discussão fácil na maioria dos casos, ela consegue bons voos dando transparência.”

Uma das estratégias da Nero para atingir a transparência necessária está relacionada ao open finance, sistema financeiro aberto. Giacomo diz que, quando a empresa concorda em dar visibilidade aos dados transacionados no dia a dia da conta corporativa, o open finance se torna um veículo transformacional. Outro caminho usado na Nero é identificar quem exerce a função de administrador e procurador nas empresas, analisando o processo de subestabelecimento de procurações.

Sob o ponto de vista do investidor, Nathalia Maestrelo, sócia da consultoria Auddas, reforça a importância da previsibilidade e do acesso aos mecanismos de controle. “O investidor sabe que uma média empresa não terá estrutura de companhia aberta, mas espera ver separação patrimonial, números confiáveis e regras básicas de controle. Isso já muda a percepção de risco e abre as conversas para financiamento”, diz.

Para Amanda Visentini, sócia de M&A e societário do VBSO Advogados, informações disponíveis e confiáveis estão diretamente relacionadas à capacidade das empresas em entregar dados de forma estruturada. “Isso inclui, por exemplo, formalizações contratuais adequadas, registros internos minimamente organizados, demonstrações financeiras tempestivas, métricas consistentes, aderência a padrões contábeis e conciliação adequada entre dados operacionais e financeiros”, afirma.

Ezequiel Wilbert, sócio- fundador da Safegold, considera ser muito comum entre as médias empresas, no momento de pleitear crédito, a apresentação de números que não conversam entre si, inconsistências no histórico, projeções sem premissas e rotinas financeiras orientadas a urgências. A consequência disso é a disparada da percepção de risco e maior restrição a financiamentos.

Wilbert destaca o agronegócio como um setor que avança na transparência. Segundo a advogada Amanda Guazzelli, fundadora da Governança Agro, as empresas que aceleraram essa agenda quebraram o estigma de alto risco. “Conselhos consultivos e disciplina de dados transformam a volatilidade em parâmetros mensuráveis, reduzindo o prêmio de risco e liberando capital em escala”, diz.

Em 2026, as empresas com faturamento anual bruto abaixo de R$ 500 milhões terão mais uma opção de financiamento no mercado de capitais, com a entrada em vigor do Regime de Facilitação do Acesso a Capital e de Incentivo a listagens. Conhecido como “Fácil”, o novo regime deve valer a partir de 16 de março. Renan Valverde Granja, sócio da área de banking & finance do FAS Advogados in cooperation with CMS, diz que a governança corporativa será central no Regime Fácil, que é uma iniciativa da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

“Ao reduzir exigências regulatórias e custos, a CVM exige também que as próprias empresas tenham responsabilidade de provar transparência, solidez e previsibilidade ao mercado. Como o regime simplifica o processo de acesso a capital para companhias de menor porte, a confiança passa a depender diretamente da qualidade das informações auditadas, da disciplina financeira e da robustez dos controles internos”, afirma Granja.

Na análise de Katherine Kardos, head da área de crédito da Tivio Capital, o caminho para as empresas de menor porte acessarem crédito com melhores condições passa pela profissionalização. Esse movimento abrange a contratação de auditorias periódicas e a segregação das despesas pessoais dos acionistas. “Também é importante trazer para o conselho pessoas com experiência no mercado financeiro, porque elas ajudam a construir uma base sólida para captar recursos com taxas mais baixas no futuro”, ressalta.

CADASTRE-SE no Blog Televendas & Cobrança e receba semanalmente por e-mail nosso Newsletter com os principais artigos, vagas, notícias do mercado, além de concorrer a prêmios mensais.

» Conheça os colaboradores que fazem o Blog Televendas e Cobrança.

Gostou deste artigo? Compartilhe!

Escreva um comentário:

[fechar]
Receba as nossas novidades por e-mail: