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Liquidação do Master marca 1º ano de BC sob Galípolo

por: Afonso Bazolli
em: Crédito
fonte: Valor Econômico
27 de janeiro de 2026 - 17:12

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Ciclo de alta da Selic para o maior nível em duas décadas e ataques cibernéticos ao sistema financeiro também foram desafios

A liquidação do Banco Master, a maior da história de uma instituição financeira no Brasil, marcou o primeiro ano de Gabriel Galípolo na presidência do Banco Central (BC). O assunto volta à tona hoje, quando a Polícia Federal (PF) vai ouvir o dono do Master, Daniel Vorcaro, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e o diretor de fiscalização do BC, Ailton de Aquino, por determinação do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Este foi também o primeiro ano em que um novo presidente assumiu a autoridade monetária desde que a autonomia operacional do BC virou lei. Desafios adicionais do período foram a elevação da Selic, a taxa básica de juros, para 15% ao ano, maior patamar em quase duas décadas, e ataques cibernéticos a atores do Sistema Financeiro Nacional (SFN). Para 2026, permanecem no horizonte a liquidação do Master, a decisão sobre quando iniciar os cortes da Selic e a segurança virtual do SFN.

Em 28 de março, o conselho do BRB aprovou a aquisição de 58% do capital total do Master. O banco de Vorcaro vinha de anos de crescimento acelerado, puxado pela captação com Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) que pagavam mais do que a média do mercado. Essa estratégia era apoiada na cobertura dos CDBs proporcionada pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), formado por recursos das instituições financeiras. Na prática, o Master dividia com outros bancos os riscos de suas operações.

O anúncio da compra da instituição pelo BRB, pertencente ao governo do Distrito Federal, causou estranheza e foi questionado por agentes do mercado e parlamentares distritais. O governo distrital afirmava que a operação fazia parte de uma estratégia para ampliar a atuação do BRB em âmbito nacional. Já Galípolo dizia desde o início que o regulador não avaliava a conveniência de uma operação, e sim a sua viabilidade econômica. Em setembro, o BC viria a rejeitar a compra e posteriormente, em novembro, liquidar o Master. A autoridade monetária alegou na ocasião “comprometimento significativo” da situação econômico-financeira da instituição, além de “graves violações às normas que regem” o SFN. Investigações apontam que o banco de Vorcaro “fabricou” R$ 12,2 bilhões em carteiras falsas de crédito que seriam repassadas ao BRB como forma de justificar a operação. Procurado, o BRB informou que segue operando normalmente e que contratou uma investigação independente para apurar fatos relacionados à operação envolvendo o Master.

Larissa Arruy, sócia do escritório Mattos Filho, afirma que o BC considera liquidações como uma medida de última instância. “Não é uma ciência exata entender qual é o momento preciso em que alternativas deixaram de estar disponíveis. Sempre vai ser possível olhar para trás e falar ‘poderia ter sido antes, poderia ter sido depois’. O olhar de cautela que eles têm para decretação dos regimes de liquidação é muito adequado”, diz.

No mesmo dia da liquidação, a PF deflagrou a Operação Compliance Zero e cumpriu cinco mandados de prisão preventiva, inclusive a de Vorcaro. O dono do Master foi preso quando se preparava para embarcar no aeroporto internacional de Guarulhos após o anúncio de que o banco seria comprado pela empresa Fictor, pouco conhecida no setor financeiro, e por um grupo de investidores estrangeiros. Liberado posteriormente por decisão da desembargadora Solange Salgado, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, ele passou a usar tornozeleira eletrônica.

O processo do Master não ocorreu sem questionamentos. Antes da rejeição da venda ao BRB, lideranças de partidos do Centrão chegaram a assinar um pedido de urgência de um projeto de lei que permitiria que o Congresso removesse diretores do BC por motivos de “interesse nacional”. A iniciativa não foi levada à frente e a operação foi rejeitada na mesma semana.

“O olhar de cautela do BC para decretar uma liquidação é muito adequado”

— Larissa Arruy

Em entrevista ao Valor em dezembro, o diretor de organização do sistema financeiro e de resolução do BC, Renato Gomes, disse que as decisões relacionadas ao Master foram técnicas. Segundo ele, havia “graves irregularidades” e “indícios de ilícitos”, e se chegou ao entendimento de que uma saída de mercado – a compra do Master por outro banco – não era mais factível.

A discussão não terminou com a liquidação. O STF e o Tribunal de Contas da União (TCU) estão conduzindo processos sobre o caso e questionaram o BC sobre as ações tomadas. Em ambos os casos, especialistas consideraram essas iniciativas incomuns, diante da autonomia operacional do BC e do fato de elas colocarem o fiscalizador na mesma condição dos fiscalizados.

As investigações subiram para o Supremo depois de uma citação ao deputado João Carlos Bacelar (PL-BA). O parlamentar, que não é formalmente investigado, disse ao Valor que foi consultado por Vorcaro sobre um empreendimento imobiliário e que sua menção não tem qualquer relação com as apurações sobre o banco.

Relator no caso no STF, Toffoli colocou as investigações sob sigilo e determinou que a PF ouvisse dirigentes da autoridade monetária. Questionado sobre o assunto, Galípolo respondeu que o BC tinha todo o processo documentado e que ele, em especial, estava à disposição para prestar “todo tipo de suporte e apoio”.

Já o ministro do TCU Jhonatan de Jesus pediu informações ao BC, afirmando que a decisão pela liquidação do Master pode ter sido “precipitada”. Também disse que vislumbrava a possibilidade de adotar medida cautelar suspendendo os efeitos da liquidação. Após essa decisão, associações como a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e a Associação Brasileira de Bancos (ABBC) divulgaram notas reforçando a confiança no regulador.

O jornal O Globo revelou, na semana do Natal, que o ministro do STF Alexandre de Moraes procurou Galípolo ao longo do ano para falar sobre a venda do Master para o BRB. A informação foi negada por Moraes, que disse que as reuniões haviam sido apenas sobre a Lei Magnitsky, aplicada contra o ministro pelo governo dos EUA. Já o BC confirmou reuniões com o ministro “para tratar dos efeitos da aplicação da Lei Magnitsky”.

Nesta terça-feira, o assunto volta aos holofotes com os depoimentos de Vorcaro, Costa e Aquino à PF. A oitiva foi determinada por Toffoli ontem, após o anúncio, na semana passada, de que haveria hoje uma acareação com a participação dos três. A Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu a suspensão da acareação, mas o ministro decidiu manter a diligência. Ontem, Toffoli determinou que a PF colhesse os depoimentos antes da acareação.

Em paralelo, a liquidação do Master segue em andamento por um agente privado, a quem cabe organizar o pagamento de obrigações da instituição, por exemplo.

Enquanto áreas do BC se debruçavam ao longo do ano sobre o tema, o Comitê de Política Monetária (Copom) continuou o ciclo de elevação da Selic, que entre julho de 2024 e junho deste ano passou de 10,25% para 15%, sempre em termos anuais. É o maior patamar desde maio de 2016, quando a Selic estava em 15,25%. O segundo semestre serviu para o colegiado avaliar se esse nível era suficiente para levar a inflação à meta. No fim, a avaliação do Copom foi que a estratégia de manter juros altos por “período bastante prolongado” era adequada.

A economista-chefe do Banco Inter, Rafaela Vitória, afirma que a queda da inflação ao longo do ano foi fruto da combinação de um cenário internacional mais benigno, com câmbio mais favorável, e da política monetária restritiva. A economista lembra que Galípolo assumiu o cargo com um “peso grande nas costas” porque o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) era um duro crítico de Roberto Campos Neto, que comandava o BC até então e era próximo do ex-presidente Jair Bolsonaro. Galípolo, por sua vez, é próximo de Lula. Mas antes mesmo de assumir a presidência do BC, quando ocupava a diretoria de política monetária da instituição, já tinha afirmado que a autoridade elevaria a Selic em dois pontos percentuais nas duas primeiras reuniões do Copom em 2025.

“Foi uma boa condução da política monetária ao longo do ano. Reforçou a credibilidade que existe hoje na entidade do Banco Central independente”, diz Vitória. Entre abril e novembro, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado em 12 meses recuou de 5,53% para 4,46% – dentro, portanto, da meta a ser cumprida pelo BC, de 3% com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

Já o tema dos ataques cibernéticos apareceu logo no início do segundo semestre. O primeiro deles foi registrado contra a C&M Software. Essa prestadora de serviços de tecnologia da informação (PSTI) conectava instituições aos sistemas do BC e possibilitava, por exemplo, a oferta de Pix, principalmente de instituições menores. O segundo viria no fim de agosto, contra outra PSTI, a Sinqia.

Na semana seguinte, o BC anunciaria medidas de reforço da segurança voltadas para PSTIs. Procurada, a C&M Software (CMSW) afirmou que operava em conformidade com as normas da época e está concluindo “de forma estruturada e progressiva” as adequações às novas regras. Já a Sinqia apontou que mantém processos rigorosos de segurança e que estão sendo implementadas revisões adicionas e proteções em camadas com foco na prevenção a fraudes.

Segundo o secretário-executivo do BC, Rogério Lucca, em sessão no Senado, entre julho e agosto houve oito incidentes cibernéticos com “subtração de algo em torno de R$ 1,5 bilhão” das instituições. Lucca ressaltou que os sistemas do BC nunca foram invadidos e que nenhum cliente bancário foi prejudicado, já que os recursos afetados eram das próprias empresas.

O último trimestre do ano também ficou marcado por um aperto na regulação pela autoridade monetária. O BC elevou o capital mínimo exigido para instituições do sistema financeiro e ainda apresentou regras para mercados que não eram regulados, como o de criptoativos e de Banking as a Service (BaaS). Essas mudanças já constavam na agenda do BC, mas foram aceleradas.

Nessa discussão sobre o “pêndulo” regulatório que varia entre competição e segurança, Bruno Balduccini, sócio do Pinheiro Neto Advogados, lembra que no início da década passada o BC tomou medidas para fomentar a competição. Agora, com as medidas deste ano, a barreira foi elevada, dando mais atenção à segurança e menos à competição. Segundo o advogado, 2026 será de ajuste do mercado aos novos regramentos.

“Tem gente que perguntou: ‘Você acha que o Banco Central errou no passado?’ Em hipótese alguma. Eles acertaram em cheio. Era uma regra agressiva, com baixa barreira de entrada. Só que, com a criação da competição, mudança de tecnologia, os hackers começaram a aproveitar os buracos que existem com as novas tecnologias. Agora o Banco Central vai fechar esses buracos”, diz o advogado.

Enquanto acompanha a evolução do mercado às novas regras, o BC ainda deverá tomar a decisão sobre o início do ciclo de cortes da Selic. Parte das apostas se deslocou para março, enquanto uma fração minoritária do mercado ainda vê possibilidade de corte em janeiro. A primeira reunião do Copom no ano terá apenas sete membros, pois os mandatos dos diretores Diogo Guillen, de política econômica, e Gomes acabaram, e o governo federal ainda não indicou os sucessores.

Professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV EPGE) e ex-diretor do BC, Sergio Werlang afirma que o ciclo de redução de juros pode ser impactado pelo ciclo eleitoral. Caso o BC inicie a redução e o real se desvalorize por receio do mercado em relação à política fiscal de um novo governo Lula, o BC não vai conseguir cortar muito os juros, diz. Esse cenário, de acordo com ele, poderia aumentar as expectativas de inflação.

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