
Anunciado em agosto de 2023, projeto do real digital foi encerrado por inconsistências técnicas e problemas de privacidade na plataforma
O Drex, projeto piloto do real digital do Banco Central (BC), tinha um orçamento aprovado de R$ 2 milhões, mas consumiu pouco mais de R$ 650 mil até dezembro passado. Os dados, obtidos pelo Valor via Lei de Acesso à Informação (LAI), mostram que a iniciativa consumiu apenas uma fração do orçamento previsto – e muito menos do que se especulava no mercado. Para comparar com outro projeto digital recente desenvolvido pelo BC, o Pix custou aos cofres públicos em torno de R$ 15 milhões e manutenção anual entre R$ 40 e R$ 50 milhões.
O valor efetivamente gasto no Drex contrasta com a percepção disseminada fora do ambiente técnico. Com a decisão do BC de descontinuar o projeto, circularam leituras de que o projeto teria “morrido na praia” após consumir grande volume de recursos públicos. A própria ideia do real digital chegou a ser associada, em redes sociais, a um suposto mecanismo de controle estatal de finanças dos cidadãos.
Segundo os dados enviados pelo BC, o Drex foi estruturado em dois projetos corporativos. O primeiro, “Moeda digital do Banco Central do Brasil”, iniciado em abril de 2023, teve orçamento total aprovado de R$ 1,8 milhão. Até dezembro, a execução orçamentária somava R$ 552,7 mil, cerca de 30% do total.
O segundo, “Selic Digital”, no qual foram realizados testes com títulos “tokenizados” e transações financeiras por meio de contratos inteligentes, teve início em julho de 2023, com orçamento aprovado de R$ 242,9 mil e execução de R$ 96,2 mil, aproximadamente 40% dos recursos.
Projeto do real digital foi descontinuado em meio a entraves sobre privacidade de dados e arquitetura tecnológica
Segundo o BC, ambos são financiados pelo Orçamento Geral da União e acompanhados de forma global, sem segregação por fases ou tipos de despesa.
O projeto inovador, que compõe a Agenda BC#, a mesma que abriga iniciativas como Pix e open finance, acabou sendo descontinuado em seu formato original, em meio a entraves referentes à privacidade de informações e à arquitetura tecnológica.
Nenhuma fatia do orçamento teria sido direcionada ao licenciamento da tecnologia utilizada no projeto, segundo fontes ouvidas pela reportagem. A plataforma escolhida, a Hyperledger Besu, é um sistema gratuito, de código aberto. A documentação e os arquivos de configuração para participação no Drex, inclusive, estão disponíveis publicamente no GitHub.
A decisão do BC de descontinuar o Drex na plataforma DLT não surpreendeu quem acompanhava o projeto de perto. Uma característica inerente a esse tipo de tecnologia – ser pública – evidenciou um problema de privacidade, exigido em toda transação financeira, que já vinha sendo apontado há mais de um ano por especialistas no tema.
DLT é a sigla em inglês para tecnologia de registro distribuído – um tipo de base de dados compartilhada entre diferentes participantes de uma rede, conceito que sustenta sistemas como blockchain, a base para o desenvolvimento de criptoativos e “tokenização” de ativos reais.
Além do orçamento público, o Drex contou desde o início com a participação direta da iniciativa privada. Segundo os editais do projeto, os custos do piloto seriam repartidos com empresas e instituições financeiras interessadas em desenvolver e testar casos de uso na plataforma.
Para a primeira fase, mais de 100 instituições de diferentes segmentos se candidataram, segundo informações disponibilizadas no site do BC. Ao final, 16 participantes foram selecionados, individualmente ou organizados em consórcios. Entraram na iniciativa todos os grandes bancos brasileiros, além de fintechs, empresas de tecnologia e fornecedoras de infraestrutura do ecossistema de criptoativos.
Conforme apurado pela reportagem, o montante global investido no Drex não será conhecido, devido à ausência de informações consolidadas do lado privado. Metade dos consórcios respondeu aos questionamentos sobre sua participação nas fases 1 e 2. Entre eles, apenas um abriu números, sob condição de sigilo, também da ordem de poucos milhões de reais, investidos em desenvolvimento, infraestrutura e conectividade, o que dá uma ideia de quanto deve ter sido gasto pelos demais consórcios.
Os outros grupos relataram dedicação de equipes, alocação de recursos tecnológicos e desenvolvimento de soluções próprias, mas sem apresentar cifras. Os recursos financiaram desde a montagem da infraestrutura básica e testes de segurança até o desenvolvimento de casos de uso mais complexos, como crédito colateralizado, tokenização de ativos, operações imobiliárias e registro de veículos.
Com o encerramento do projeto original do Drex, a discussão passou a envolver não apenas quanto custou o piloto, mas também o que ficou da experiência.
Apesar da descontinuidade da plataforma, todos os consórcios que responderam à reportagem avaliaram de forma positiva sua participação. Por ora, no entanto, não há consenso sobre a presença de todos os participantes na Fase 3 do Drex, na qual será utilizada uma tecnologia mais simples, com foco em garantias de crédito.
Em comum, as avaliações indicam que, mais do que um produto final, o Drex funcionou como um grande laboratório institucional. Com orçamento público relativamente enxuto e custos privados diluídos entre diferentes participantes, o projeto permitiu testar tecnologias, mapear gargalos, aprofundar o debate sobre privacidade e criar uma base de conhecimento que tende a ser reaproveitada tanto pelo regulador quanto pelo mercado.
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