
Em Davos para o Fórum Econômico Mundial, Marcelo Noronha diz que banco vive bom momento e tem perspectiva positiva
À frente de um dos maiores bancos nacionais do país, Marcelo Noronha vê um cenário político polarizado para as próximas eleições de outubro no Brasil e um ambiente externo ainda altamente impactado pelas decisões do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tem trazido incertezas geopolíticas, dificultando traçar conjunturas mais previsíveis para os próximos meses.
Mais confortável na cadeira da presidência do Bradesco – desde que assumiu o posto em novembro de 2023, promoveu diversas mudanças estruturais no banco -, o executivo vê a instituição financeira em um bom momento, com ótimos resultados em 2025 e perspectivas positivas para este ano.
Geopolítica será tema dominante em Davos, conectado com economia e IA” Marcelo Noronha
O setor financeiro brasileiro está em alerta com os escândalos envolvendo o Banco Master, de Daniel Vorcaro, que teve na semana passada mais um desdobramento da Operação Compliance Zero.
Noronha não vê, contudo, um risco sistêmico para o setor financeiro e crê que a grande mácula recairá mesmo sobre os envolvidos na fraude. “Não queria comentar diretamente sobre [o tema]. Tem apurações do Banco Central e da Justiça em andamento… Eu falar seria uma especulação.”
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Em relação ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), Noronha disse que o setor está aguardando os desdobramentos das discussões sobre a recomposição do fundo, mas ainda falta aguardar a finalização dos estudos da entidade.
“Não vejo um risco sistêmico. Já tivemos outros momentos em que houve uma repercussão pior, a exemplo do Proer [ajuda financeira dada aos bancos nos anos 1990 para evitar um colapso]. Não vejo mácula para o sistema financeiro. Muito pelo contrário. O sistema tem mostrado resiliência.”
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Questionado sobre se o escândalo poderia ser usado politicamente durante as eleições de outubro, Noronha disse não saber se haverá impacto, mas reconhece que dependerá dos desdobramentos da operação.
Noronha vê as eleições de 2026 novamente marcadas pela polarização. Para ele, ainda não está muito claro se o nome do senador Flávio Bolsonaro (PL) vai se consolidar como o principal candidato de direita. Na Faria Lima, o candidato do principal corredor financeiro do país é o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). “Por enquanto, não vejo nomes consolidados. Temos de esperar mais um pouco.”
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O Bradesco, segundo Noronha, sempre participa de conversas com o mercado e potenciais candidatos para discutir cenários econômicos e também políticos, mas o banco não organiza esses eventos na instituição. O executivo disse que vai a esses encontros como convidado e, neste ano, não vai ser diferente.
Nesta semana, Noronha e executivos do Bradesco vão ter uma agenda intensa no Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês) em Davos, com potenciais investidores e clientes.
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Para o executivo, a grande discussão ficará por conta das questões geopolíticas. “Vai ser um tema dominante, obviamente. Embora vá se conectar com a economia e inteligência artificial também.”
Apesar dos impactos causados pelo tarifaço de Trump em diversos países, incluindo o Brasil, Noronha disse que está sendo pragmático ao analisar novos desdobramentos da política do presidente dos EUA para o Brasil. “Tem muita retórica e a gente vai ver [o desdobramento] com o tempo.”
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O executivo acredita que a volatilidade dos mercados deverá ser mais intensa no segundo semestre, em razão das eleições.
Por ora, ele vê um cenário positivo para emissões. Até novembro, o mercado totalizou R$ 630 bilhões, e a expectativa era encerrar o ano em R$ 700 bilhões. No exterior, a captação deverá recuar este ano, para algo entre US$ 20 bilhões e US$ 25 bilhões. Em 2024, foi em torno de US$ 36 bilhões.
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“No ano passado, a gente fez boas emissões aqui dentro. O mercado de capitais foi bem aquecido. Vejo os investidores internacionais olhando para a gente com oportunidade naturalmente e de arbitragem, não necessariamente em relação à moeda”, afirmou.
Segundo ele, o Brasil é um país atrativo, porque está descontado. “Tem o desafio da moeda, porque, quando você investe aqui, você não consegue fazer um hedge perfeito para dólar.”
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Ele pondera, contudo, que para determinados setores o Brasil é bem relevante do ponto de vista de investimento – por exemplo, em infraestrutura. “Então, algumas multinacionais têm feito investimentos importantes aqui. Tanto que os fundos incentivados tiveram uma forte captação no ano de 2025 e no ano de 2024 também.”
Noronha acredita na trajetória de redução da taxa de juros, que deverá cair até o fim do ano. “A segunda variável é o índice de volatilidade. Se o índice de volatilidade for muito alto, o mercado normalmente se retrai, certo? Agora, se o índice de volatilidade estiver controlado, a taxa de juros caindo, você tem um bom estímulo para isso, e boas empresas para fazer [captações].”
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De forma geral, ele avalia que há espaço para realização de oferta secundária de ações (“follow-on”) por algumas empresas – e vai depender da qualidade delas e do preço da emissão. Mas o lançamento inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) está mais distante. O mercado ainda não vislumbra uma janela firme para aberturas de capital no país.
Noronha vê um cenário mais positivo para empresas, com aumento de crédito para as companhias saudáveis. As empresas também estão reduzindo o endividamento. “Acho que a gente tem uma condição muito razoável de solvabilidade dessas empresas. Claro, certos setores sofrem mais, porque uma taxa de juros real como a que a gente tem, de mais de 10% hoje, pode ser um complicador.”
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Pelo lado das pessoas físicas, com a massa salarial crescendo e o nível de desemprego baixo, que pode ficar em 5,5% na sua estimativa, também não há “nenhum grande desvio”, disse. “Tem clusters que já estão inadimplentes, mas no conjunto eu não vejo um desvio de crescimento aqui que seja significativo.”
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