
Fundos fariam parte do esquema investigado, sendo quatro administrados pela Sefer
O bloqueio e sequestro de até R$ 5,775 bilhões em bens na segunda fase da Compliance Zero, autorizado na semana passada pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), está ligado a pelo menos seis fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs). Segundo decisão de Toffoli, à qual o Valor teve acesso, são citados o FIDC City, com o bloqueio de até R$ 302,586 milhões; o City 02, com até R$ 1,483 bilhão; o Alvarinho, com até R$ 24,225 milhões; e MN I, Jeitto e Maranta, para os quais não são mencionados valores.
O City 02 (antigo Jade) já tinha aparecido como um dos fundos usados pelo controlador do Master, Daniel Vorcaro, para comprar R$ 1,2 bilhão em notas comerciais de empresas vinculadas a sua irmã, Natália. Ele e o City tem entre seus cedentes as empresas Benefício Intelectual Administradora e Corretora de Seguros, Simetria Planos de Saúde, Hospital da Criança São José, Confiance Life Corretora de Seguros e Holding AF.
A Clínica Mais Médicos recebeu investimentos de R$ 361 milhões do City 02, mas funciona em uma estrutura muito pequena em Contagem (MG). Em sua decisão, Toffoli autoriza o bloqueio de bens da empresa e de seus “sócios, ex-sócios e diretores Valdenica Pantaleão, Lindolfo Luiz Coutinho da Silva e Ricardo Balciunas”.
As conexões desses FIDCs ajudam a esclarecer também os alvos de mandados de busca e apreensão na operação. Segundo manifestação da Procuradoria da República em São Paulo enviada no processo, todas as cedentes do City e City 02 apresentam vínculos diretos e indiretos com André Beraldo e Fernando Vieira, bem como com as empresas ABM Participações e Empreendimentos e a ABM Investimentos Imobiliários. Essas duas empresas, por sua vez, mantêm conexão com Henrique (pai), Natália (irmã) e Felipe Vorcaro (primo) de Daniel Vorcaro. Essa conexão ocorre também via outras empresas associadas a André e Fernando, a Três Vale Negócio Imobiliários e a Trancoso Eco Negócios Imobiliários.
Fundo City 02 já tinha aparecido em investigações e foi usado para fazer aportes em empresas ligadas a irmã de Vorcaro
Enquanto isso, Confiance, Simetria e Benefício Intelectual também são cedentes do FIDC MN I. Esse e o City, City 02 e Alvarinho têm em comum o fato de serem administrados pela Sefer (que antes se chamou também Foco e Índigo DTVM). Segundos os promotores, ela é controlada por Benjamim Botelho. Eles também foram, em algum momento, geridos pela WNT e Acura.
No caso do Alvarinho, a promotoria diz que ele tem como principal cedente a Bello Pactum Participações, cuja composição societária inclui Flávio Daniel Aguetoni e Luis Fernando de Almeida. “Flávio e Luis Fernando também mantêm vínculos societários com a Banvox DTVM, empresa associada a Maurício Quadrado”.
Já o FIDC Jeitto foi criado pela própria corretora do Master e é gerido pela Tercon. Ele serve de funding para a fintech Jeitto, na qual o banco de Vorcaro adquiriu uma participação minoritária em 2019. As partes estão em desentendimento desde o ano passado, quando a fintech deixou de pagar os créditos em atraso há mais de 90 dias detidos pelo fundo. Ela pediu um “waiver” dessa obrigação, argumentando que o FIDC é fiscalmente ineficiente e custou em torno de R$ 200 milhões nos últimos três anos em impostos e custos de funding adicionais (versus uma estrutura tradicional de mercado).
O waiver foi concedido, mas após seu término, a corretora do Master voltou a dizer que a Jeitto se encontrava inadimplente. “A administradora notificou extrajudicialmente a cedente em 21 de outubro de 2025, reiterando formalmente a necessidade de realização da recompra dos direitos creditórios em aberto, nos termos do disposto no regulamento do fundo, tendo a cedente, em 24 de outubro de 2025, respondido a referida notificação com uma contranotificação extrajudicial sem, contudo, regularizar a situação”.
Procurada, a Jeitto disse que mantém estrutura de funding ampla e diversificada, composta por diferentes veículos. “Nesse contexto, o FIDC administrado pela Master CCTVM era um desses veículos. É importante salientar que o Jeitto atuou como mero cedente, ou seja, apenas vendeu créditos para tal veículo, todos com o devido lastro. A fintech não figura ou figurou como administradora, gestora ou investidora do referido veículo e não é responsável por qualquer decisão de investimento do FIDC administrado pela Master CCTVM.”
No caso do fundo Maranta, a promotoria diz que 97% da sua carteira estão em cédulas de crédito bancário (CCBs) da Lormont Participações, do empresário Nelson Tanure, que somam R$ 73,3 milhões.
Procurada, a WNT disse que não exerce mais a gestão nem participa dos fundos mencionados desde o primeiro semestre de 2025. A Sefer afirmou aguardar o acesso à integra das investigações para se manifestar sobre o caso. “A decisão judicial tem caráter cautelar”. O Master não quis se pronunciar. A Acura afirmou que atuou por curto espaço de tempo como gestora de alguns dos fundos mencionados. “A decisão e responsabilidade pelos investimentos realizados foram exclusivamente da gestora anterior, conforme documentos públicos. Durante o período em que permaneceu como gestora dos fundos indicados, a Acura sempre atuou com diligência e envidou esforços na tentativa de recuperação de créditos vencidos. Por fim, afirma que não teve acesso aos autos e, por essa razão, não poderá se manifestar sob o ponto de vista jurídico da investigação.”
A reportagem também procurou as empresas citadas como cedentes dos FIDCs. A Simetria informou que todas as atividades desenvolvidas pela empresa são lícitas, regulares e amparadas pela legislação vigente. “No que se refere à investigação mencionada, a defesa ainda não teve acesso integral aos autos, razão pela qual não é possível, neste momento, apresentar qualquer manifestação específica”.
A defesa de Henrique e Natália Vorcaro reafirmou que o empresário não tem envolvimento em operações ilícitas ou irregulares. “Como nem o empresário nem sua defesa tiveram acesso aos respectivos autos citados nas reportagens, não é possível responder às questões solicitadas. É preciso destacar que o empresário está à disposição para esclarecer o que for necessário às autoridades.”
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