
Autarquia deu ultimato a Vorcaro, mas só liquidou após tentar solução de mercado
O ex-banqueiro Daniel Bueno Vorcaro recebeu um ultimato do Banco Central (BC) em novembro de 2024 para corrigir os problemas patrimoniais e de liquidez do Banco Master num prazo de até seis meses, ainda na gestão de Roberto Campos Neto como presidente da instituição.
Esse termo de comparecimento colocava, pela primeira vez, Vorcaro diante da possibilidade concreta de liquidação do Master, embora em todo o período os esforços do Banco Central tenham sido para encontrar uma solução de mercado que minimizasse os prejuízos para o Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
É o que revelam fontes envolvidas no processo de supervisão do banco ouvidas pelo Valor, que ajudaram a reconstituir alguns dos dilemas e conflitos dentro do BC para resolver os problemas de um banco que, embora não fosse grande o suficiente para representar um risco sistêmico, assumiu uma importância incomum devido aos contatos de Vorcaro no mundo político.
O Banco Master está classificado, para fins de supervisão, como uma instituição financeira nível S3, numa escala com cinco níveis. Na prática, isso o enquadra como um banco médio, com ativos que representam entre 0,1% e 1% do Produto Interno Bruto (PIB), normalmente acompanhado pelos escalões mais baixos do Banco Central. O foco da diretoria colegiada do BC é principalmente o S1, os grandes bancos, cuja quebra poderia ter efeitos severos para a economia como um todo.
Campos Neto passou a dar uma atenção maior ao Master em 2023, ciente da crise de reputação do banco e diante de alertas feitos por banqueiros e por dirigentes do FGC. Sua estratégia tinha duas frentes. De um lado, diversificar o passivo do banco, ou seja, suas captações, que eram muito dependentes dos CDBs garantidos pelo FGC. De outro lado, assegurar que os ativos do banco fossem reais e, de fato, valessem o escrito no balanço.
Do lado das captações, a medida mais importante foi criar um limite, vinculado ao tamanho do patrimônio líquido, para as captações garantidas pelo FGC, que se concretizou na resolução nº 5.114 do Conselho Monetário Nacional (CMN).
Nessa regra, o Master foi o mais atingido, mas havia uma preocupação maior do Banco Central, na medida em que as captações seguradas pelo FGC haviam crescido de forma exponencial e representavam um risco moral para todo o sistema.
Segundo uma fonte que participou das discussões, a medida tinha que ser calibrada para conter os excessos do Master, que na época tinha uma captação de R$ 38 bilhões garantida pelo FGC, mas sem causar uma crise em cadeia num conjunto mais amplo de bancos que haviam captado, no total, cerca de R$ 850 bilhões.
No Congresso Nacional, já tinham sido feitas tentativas de aumentar a cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF, numa iniciativa do senador Ciro Nogueira (PP-PI). Campos Neto convenceu parlamentares de que a medida iria implodir o sistema – e acabou tendo que desistir de aprovar a lei de resolução bancária, onde uma emenda sobre o FGC havia sido inserida.
Outra frente foi olhar, no detalhe, onde o Master estava investindo o dinheiro captado. O banco tinha um balanço relativamente simples, concentrado em poucas linhas: sobretudo precatórios judiciais, participações em empresas, empréstimos corporativos e certificados de recebíveis imobiliários (CRIs).
A tarefa foi dividida em frentes de trabalho. O diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino, liderou o exame dos precatórios – uma das queixas apresentadas por banqueiros era que o Master lançava esses precatórios em balanço acima de seu valor de mercado.
Campos Neto buscou indicações, com ex-colegas do mundo privado, de especialistas no assunto e repassou a Aquino uma lista com três escritórios de advocacia. Um deles foi escolhido e fez um relatório que dizia que os valores em balanço representavam o valor justo.
Ainda assim, o Banco Central aprovou uma resolução que, na prática, limitava o crescimento do volume de precatórios no balanço do Banco Master, mas sem determinar que a instituição se desfizesse das operações.
Uma segunda linha de apuração foi examinar os CRIs, que têm uma estrutura mais complexa, com várias camadas. Sua compreensão era particularmente difícil porque uma boa parte eram “CRIs ocos” – ou seja, captações de recursos para empreendimentos que são feitos apenas posteriormente.
Campos Neto pediu ao ex-diretor de Fiscalização do BC Paulo Souza que se concentrasse nas operações de crédito corporativo. Uma das empresas que estavam em evidência na lista é a iFly, que, segundo publicado pelo Valor, teria participado de empréstimos simulados de R$ 449 milhões do Master. A empresa nega irregularidades e ter contratos em aberto com o Master.
Vorcaro foi chamado a assinar termo de comparecimento, que dava um prazo de seis meses para corrigir problemas
O Valor apurou que, na linha de investigação dos CRIs e dos empréstimos, o Banco Central chegou a identificar depósitos de empresas no fundo D Mais, da Reag, que uma comunicação feita pelo próprio BC ao Ministério Público em novembro de 2025 diz ter sido o passo inicial de uma cadeia de supostos desvios de recursos. O Master nega irregularidades nessas operações.
Na época, porém, os fiscais do Banco Central não foram capazes de desvendar a cadeia de investimentos e reinvestimentos em fundos da Reag. Uma das fontes diz que, embora haja previsão legal e convênio com a Comissão de Valores Imobiliários (CVM) para ter acesso aos dados, a troca de informações não é muito fluida.
Campos Neto tinha um bom relacionamento com o então presidente da CVM, João Pedro Nascimento, mas a falta de estrutura dos dois lados atrapalhava, com apenas 70 funcionários no xerife do mercado de capitais. Os técnicos do Banco Central se queixavam de que as informações fornecidas chegavam cheias de lacunas, e os técnicos da CVM diziam que o volume de informações solicitado era excessivo.
Mas o fato é que, apenas bem mais tarde, o BC conseguiu mapear supostos desvios de R$ 11,5 bilhões nesses empréstimos, que ocorreram entre julho de 2023 e julho de 2024. O Valor teve acesso a uma lista de 36 empresas comunicadas ao MP e, com base em documentos públicos, constatou que muitas são ligadas entre si e não tinham porte para obter empréstimos tão altos.
Uma semana depois da liquidação do Banco Master, em 18 de novembro de 2025, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, determinou a abertura de uma investigação independente pela corregedoria da instituição para entender por que a fiscalização não foi capaz de identificar mais rápido as supostas fraudes e o que pode ser melhorado nos procedimentos.
Mas, pelo menos do lado do passivo, as medidas para limitar o aumento desenfreado das captações garantidas pelo FGC funcionaram. Na virada de 2023 para 2024, o Master passou a ter dificuldades para rolar os CDBs, em parte também porque o banco já sofria uma crise de reputação que começava a chegar aos clientes de varejo.
Vorcaro foi chamado para as primeiras medidas de ajuste, e fiscais do BC foram destacados para acompanhar pessoalmente as operações no Master na sede do banco. No começo de 2024, o ex-banqueiro assinou com o BC um plano para a recuperação de seus níveis de liquidez.
Essa foi uma das duas vezes em que Vorcaro se reuniu com Campos Neto. O presidente do BC disse que o banco deveria aumentar as captações de investidores institucionais, com prazo mais longo, condizente com o perfil de longo prazo de seus ativos.
Vorcaro respondeu que “missão dada é missão cumprida”, e o termo de comparecimento previa a captação de R$ 15 bilhões de investidores institucionais. Até meados do segundo semestre de 2024, porém, o banco havia levantado apenas R$ 2 bilhões.
Já nessa época, a jornalista Malu Gaspar, de “O Globo”, havia relatado pressões para a captação junto à Caixa Econômica Federal. Depois da liquidação do Master, passaram a ser apuradas suspeitas de irregularidades nas captações feitas junto a fundos de pensão ligados ao setor público
No exame do balanço, o BC não conseguiu pegar as supostas fraudes, mas a fiscalização, no segundo semestre de 2024, chegou a um diagnóstico de que parte dos ativos lançados no balanço eram problemáticos e que havia uma insuficiência de capital.
Nos empréstimos supostamente simulados – muitos deles com anos de carência e destinados a empresas sem estrutura ou capital – o Banco Master afirmava que os valores ficavam depositados em fundos usados como garantia. As apurações do BC revelaram que esses fundos não eram líquidos – mas apenas posteriormente, em 2025, descobriu que os recursos eram desviados.
Foi a partir desse diagnóstico que, em novembro de 2024, Vorcaro foi chamado a assinar um termo de comparecimento no Banco Central, que dava um prazo de seis meses para os problemas serem corrigidos. Nesse período, o Master já começava a falhar no recolhimento dos depósitos compulsórios no BC.
Esse termo de comparecimento foi, na prática, um ultimato até abril de 2025 para que os controladores reforçassem o capital do banco ou ajustassem o tamanho do balanço, vendendo ativos, além de equacionar os problemas de liquidez. Vorcaro mencionou, já naquele momento, que negociava aportes com fundos árabes – tratativas que depois se revelaram ilusórias. O leque de alternativas incluía também a possibilidade de vender o banco total ou parcialmente.
BC não conseguiu pegar as supostas fraudes, mas a fiscalização chegou a um diagnóstico de que parte dos ativos eram problemáticos
O Valor questionou fontes que estavam envolvidas no processo se, nessa altura, não seria o caso de o Banco Central ter decretado a liquidação extrajudicial do Master. Uma das respostas mais comuns é que a supervisão deve observar a sequência correta e os prazos, com o caminho todo documentado, para evitar que os procedimentos sejam questionados na Justiça – o que pode gerar indenizações bilionárias e responsabilização pessoal.
Campos Neto tem dito a interlocutores que, na época, a diretoria de Fiscalização do Banco Central, a quem caberia a iniciativa, não sugeriu a liquidação – e nem seria o caso. Não havia, então, conhecimento das fraudes, que são uma das hipóteses para liquidar. E as boas práticas internacionais recomendam que o Banco Central busque, primeiro, uma solução de mercado.
Esse é um princípio seguido pelo Banco Central. “Quando uma instituição financeira apresenta grave comprometimento do seu patrimônio ou dificuldade de honrar seus compromissos, o BC pode determinar aos seus controladores que aportem os recursos necessários, transfiram o controle, reorganizem a sociedade ou adotem medidas de recuperação”, diz o BC na sua página na internet, num texto didático sobre medidas de resolução de problemas bancários. “Essas ações são também conhecidas como solução de mercado.”
Quando deixou o cargo, em dezembro de 2024, Campos Neto se reuniu com Galípolo para discutir o caso do Master. Pediu desculpas por repassar o problema para ele, mas disse que o processo estava encaminhado para ter um desfecho em abril, conforme previsto no termo de comparecimento – para o bem ou para o mal.
O problema tomou novo rumo quando o BRB anunciou a compra do Banco Master, em 28 de março de 2025. O anúncio – feito dias antes de expirar o prazo do termo de comparecimento – abriu dentro do Banco Central um processo de análise para conferir se a solução de mercado se sustentava e poderia evitar a quebra do Master.
Nos bastidores, a análise desse pleito chegou a um ponto crítico em julho de 2025, quando o Banco Central comunicou ao Ministério Público a venda de R$ 12,2 bilhões em créditos inexistentes do Banco Master para o BRB.
O diretor de Organização do Sistema Financeiro e Resolução, Renato Gomes, defendia a liquidação do banco. Sua equipe já havia examinado, desde o ano anterior, pedidos de aumentos de capital feitos pelo Master e pelo BRB em que os recursos provinham dos mesmos fundos de investimento, sem uma comprovação clara da origem dos recursos.
Por suas posições, Gomes passou a ser atacado com denúncias fabricadas nas redes sociais e com um projeto de lei no Congresso, do Centrão, que autorizava a remoção de diretores do BC. Nos bastidores, Galípolo agiu para barrar essa iniciativa.
Já Aquino, nessas discussões, defendia que fossem esgotadas as alternativas para uma solução de mercado para o Master. O Banco Central, nesse processo, seguiu com um segundo trilho que poderia levar à liquidação. Em 8 de abril de 2025, tinha feito Vorcaro assinar um novo termo de comparecimento, em que ele se comprometia a recompor a liquidez e a fazer aportes de capital. A venda de bens pessoais do ex-banqueiro levou a um aporte de R$ 954 milhões no banco.
Por que o Banco Central esperou até novembro para fazer a liquidação do Master? Uma fonte que teve envolvimento direto no processo diz que havia duas visões de mundo opostas nas discussões sobre o tema. A cultura da supervisão do Banco Central é fazer todos os esforços para evitar a liquidação de uma instituição financeira. Já Gomes é da opinião de que, às vezes, bancos podem quebrar, e isso é saudável para a resiliência do sistema.
Apesar das sua discordância, Gomes, durante o processo de discussão interna, manteve consideração à posição técnica de Aquino – reconhecendo que, dentro da cultura da fiscalização, havia uma visão diferente sobre como lidar com o assunto.
O voto que deu origem à resolução nº 5.114 do CMN, que conteve o excesso de alavancagem do Master com CDBs garantidos pelo FGC, é conjunto entre Aquino e Gomes. As fraudes nas compras de carteira do BRB foram detectadas pela fiscalização, na área de Aquino, assim como o exame do balanço que levou ao termo de comparecimento de Vorcaro em novembro de 2024.
Nos bastidores, havia outro foco de desentendimentos, entre Galípolo e Souza, em torno do exame dos balanços do Master. Souza é um funcionário de carreira do BC com 28 anos de experiência, que já foi diretor de Fiscalização da instituição, e a corregedoria da instituição, por ora, não encontrou nenhum problema na sua conduta.
Com a iniciativa, Galípolo quer descobrir o que deu errado no caso e, assim, evitar que outro banco quebre da mesma forma que o Master. Também é uma forma de dar uma satisfação à opinião pública. Para ele, o processo cria traumas entre os servidores do BC, mas ao final vai fortalecer a instituição.
Já há pelo menos uma proposta em cogitação: fazer um rodízio, de tempos em tempos, dos auditores que cuidam de cada instituição financeira.
O sistema atual, com técnicos dedicados a cada uma delas, tem a vantagem do aprendizado — com a experiência, entendem melhor as operações de cada banco e são capazes de desvendar problemas mais cedo.
Mas a troca de fiscais tem vantagens – uma delas é o olhar diferente, que acha o problema que a visão viciada não é capaz de identificar, de forma semelhante à de quem lê um texto várias vezes e não acha mais os erros de escrita.
O que se aprende em uma instituição financeira também ajuda a desvendar problemas em outras. Aquino disse, em dezembro, em depoimento na Polícia Federal (PF), que os créditos inexistentes do Master são muito semelhantes aos identificados em outro escândalo, do Cruzeiro do Sul. Técnicas de auditoria semelhantes foram empregadas em ambos os casos.
CADASTRE-SE no Blog Televendas & Cobrança e receba semanalmente por e-mail nosso Newsletter com os principais artigos, vagas, notícias do mercado, além de concorrer a prêmios mensais.