
Os três grandes bancos privados brasileiros com ações negociadas em Bolsa reduziram o ritmo da oferta de crédito e reforçaram o colchão contra calotes para preservar o lucro em 2025, ano marcado pela maior taxa básica de juros desde 2006. A postura deve ser mantida em 2026.
O que aconteceu
Lucro cresce apesar de crédito mais contido. Os três maiores grupos bancários do país com ações negociadas em Bolsa tiveram crescimento de ganhos no ano passado, que foi marcado pela maior taxa básica de juros desde 2006. Juntos, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander Brasil tiveram lucro líquido gerencial somado de R$ 87 bilhões, resultado 16,3% maior que em 2024.
Lucro líquido gerencial em 2025:
Itaú Unibanco: R$ 46,8 bilhões (+13,2% ante 2024)
Bradesco: R$ 24,6 bilhões (26,1% ante 2024)
Santander Brasil: R$ 15,6 bilhões (13,2% ante 2024)
Aumento do lucro aconteceu com desaceleração do crédito. O ano foi marcado pela decisão desses bancos de reduzir o ritmo de crescimento de empréstimos e financiamentos. Enquanto em 2024, essas operações avançaram entre 6,4% (Santander Brasil) e 15,5% (Itaú Unibanco), em 2025 o incremento ficou numa faixa de 3,7% (Santander Brasil) a 11% (Bradesco).
Carteira de crédito total em 2025
Itaú Unibanco: R$ 1,2 trilhão (+6,6% ante 2024)
Bradesco: R$ 1,1 trilhão (+11% ante 2024)
Santander Brasil: R$ 708,2 bilhões (+ 3,7% ante 2024)
Juros no maior patamar em uma década impactam setor. Essas políticas foram colocadas em ação como resposta ao aumento da taxa básica de juros Selic. A referência para operações de empréstimo e financiamento para pessoas e empresas, passou de 10,5% ao ano, em setembro de 2024, para 15% em julho de 2025, o maior patamar desde 2006. Isso encareceu as operações de crédito no país.
Nas operações de crédito livre, a taxa média de juros atingiu 47,2% ao ano em dezembro, e 40,7% no ano. Entre as pessoas físicas, as taxas médias subiram de 53% a 60%, segundo dados do Banco Central. Para as empresas, na média, a taxa do crédito aumentou de 21,7% a 25%.
Inadimplência piorou na margem. Com o crédito mais caro no mercado, mais pessoas e empresas passaram a atrasar os pagamentos, o que impactou o desempenho dos bancos. No mercado total brasileiro, segundo o Banco Central, o percentual de atrasos acima de 90 dias, subiu de 3% a 4,1% da carteira entre pessoas físicas.
Inadimplência média para atrasos acima de 90 dias:
Itaú Unibanco: 1,9% (foi de 2% em 2024)
Bradesco: 4,1% (foi de 4% em 2024)
Santander Brasil: 3,7% (foi de 3,2% em 2024)
Itaú Unibanco lucrou mais, com crédito mais cauteloso. O maior banco privado do país aumentou seu ganho em 13,2% para R$ 46,8 bilhões em 2025, adotando uma estratégia mais conservadora na concessão de empréstimos. A carteira cresceu 6,6%, para R$ 1,2 trilhão, um ritmo inferior à expansão de 15,5% apurada em 2024.
Inadimplência sob controle no Itaú. Com a estratégia mais conservadora, o banco conseguiu fechar 2025 com uma taxa média de inadimplência, considerando atrasos superiores a 90 dias, de 1,9%, ante 2% em 2024. Entre as pessoas físicas, os calotes de três meses também recuaram, de 3,8% a 3,6%.
Bradesco ampliou lucro com crédito menos contido. O segundo maior banco privado do país teve o crescimento de lucro mais forte entre os grandes do setor, com avanço 26,1% a R$ 24,6 bilhões. A carteira de crédito desacelerou também, mas menos que a freada do Itaú Unibanco, crescendo 11% ante 12% em 2024.
Taxa de calotes aumentou no Bradesco. Os atrasos com mais de 90 dia no segundo maior banco privado do país subiram de uma faixa 4% a 4,1%, com piora maior entre as pessoas físicas (5,1% a 5,4%).
Santander Brasil também eleva lucro com crédito menos aquecido. O terceiro maior banco privado no Brasil aumentou em 13,2% o lucro líquido gerencial em 2025, que atingiu R$ 15,6 bilhões. A carteira de crédito cresceu 6,4%.
Dados de atrasos no Santander pioram. A taxa de inadimplência, refletindo a piora média do mercado brasileiro, subiu 3,2% a 3,7% no geral. Entre as pessoas físicas, o indicador subiu de 4,3% para 4,6%.
Lucro impactado pelo colchão contra calotes. O ambiente de juros elevados e crédito mais conservador levou os grandes bancos a aumentarem a provisão para devedores duvidosos, uma reserva para cobrir perdas que os bancos têm quando o cliente não paga o crédito tomado.
Embora os juros elevados tenham sido fonte de pressão, o sistema financeiro conseguiu se beneficiar do mercado de trabalho relativamente sólido, o que ajudou a conter o impacto da inadimplência, em especial no varejo.
Bernardo Guttmann, analista da XP
Provisão para devedores duvidosos em 2025:
Itaú Unibanco: R$ 39 bilhões (+5% ante 2024)
Bradesco: R$ 38 bilhões (+5,5% ante 2024)
Santander Brasil: R$ 25,9 bilhões (+9,3% ante 2024)
Provisão contra calotes impacta lucro. Essas reservas que os bancos fazem para cobrir potenciais operações de crédito que não são pagas entram como despesas e, assim, reduzem o ganho final do balanço. Por isso, é um indicador que os bancos buscam controlar, por meio de políticas mais conservadoras de crédito.
Na Bolsa, mercado reagiu a balanços dos bancos. Os desempenhos das ações mais negociadas dos três maiores bancos privados brasileiros tiveram comportamentos diferentes, considerando as primeiras sessões após divulgação de resultados. Enquanto as ações preferenciais do Itaú Unibanco subiram 2%, os papéis do Santander Brasil caíram 2,7%, e os do Bradesco chegaram a recuar 3%.
Cenário para 2026
Ambiente será de queda dos juros. O mercado projeta que os juros vão cair ao longo deste ano, aposta que ganhou força depois que o Banco Central afirmou na Ata do Copom que vai começar a reduzir a taxa Selic a partir de março. Segundo o Boletim Focus, que reúne projeções de mais de cem especialistas do mercado financeiro, a taxa básica deve fechar o ano na casa de 12%.
Cautela segue prevalecendo. A expectativa de juros em queda, entretanto, não deve levar os bancos, ao menos de imediato, a afrouxar suas políticas de concessão de crédito. Os dois maiores bancos do país, por exemplo, planejam expansão do crédito neste ano em linha com 2025: o Itaú diz que pode ampliar sua carteira de 5,5% a 9,5%, enquanto o Bradesco mira aumento de 8,5% a 10,5%.
Setor projeta desaceleração do crédito neste ano. Pesquisa da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) com 20 bancos aponta que crédito deve crescer 8,2% neste ano. Esse cenário confirma desaceleração vista em 2025, quando o saldo das operações de crédito do Sistema Financeiro Nacional aumentou 10,2%, já menos que em 2024 (11,5%).
Para 2026, a expectativa é que a desaceleração gradual do crédito prossiga ao longo do ano, levando a um crescimento de 8,2%, com o movimento sendo liderado pela carteira direcionada a empresas.
Rubens Sardenberg, diretor de Economia, Regulação Prudencial e Riscos da Febraban
CADASTRE-SE no Blog Televendas & Cobrança e receba semanalmente por e-mail nosso Newsletter com os principais artigos, vagas, notícias do mercado, além de concorrer a prêmios mensais.