
Autoridades apuram se prestadora de serviços teria facilitado transações envolvendo organizações criminosas
A Polícia Federal (PF) deflagrou nesta quarta-feira (25) a Operação Cliente Fantasma. O objetivo é investigar a atuação de uma instituição financeira suspeita de facilitar a lavagem de dinheiro, incluindo o trânsito de valores relacionados a organizações criminosas.
Ao todo, foram cumpridos três mandados de busca e apreensão, expedidos pela Justiça Federal, nos municípios de São Paulo e de Barueri (SP). A PF não diz qual é a instituição, mas pelas imagens divulgadas é possível identificar o escritório da BMP.
A BMP MoneyPlus atua no segmento de crédito e como provedora de Banking as a Service (BaaS). A companhia iniciou as atividades em 1999, com o Credicarro.com.br, plataforma de financiamento de veículos. Tornou-se instituição financeira autorizada pelo Banco Central (BC) em 2009, com licença de sociedade de crédito ao microempreendedor e à empresa de pequeno porte (microfinanceira). Posteriormente, obteve também autorização para operar como sociedade de crédito direto (SCD).
Com o tempo, porém, o crédito perdeu participação no faturamento da BMP para o BaaS, que é um modelo de negócios em que instituições financeiras autorizadas oferecem sua infraestrutura para que outras empresas ofereçam serviços financeiros.
Segundo a BMP informou ao Valor no ano passado, 80% da receita já vinha desta frente, na qual se apresenta como líder, à frente de nomes como QI Tech, Topázio, Dock e Stark Bank.
Carlos Eduardo Benitez, fundador e CEO da BMP, é ex-jogador profissional de basquete e chegou a ser campeão paulista e brasileiro nas décadas de 1980 e 1990. Hoje, ainda é fã do esporte. Foram pelas imagens de seu escritório divulgadas pela PF que o identificou a empresa.
Em entrevista ao Valor em 2022, Benitez afirmou que o ponto de inflexão da BMP ocorreu em 2016, quando a instituição passou a ofertar crédito aos vendedores do Mercado Livre. Após o acordo com a varejista, a BMP passou a ser procurada por outras fintechs e varejistas.
Outra alavanca para o crescimento foi o Peac Maquininhas, programa do governo federal voltado a microempreendedores durante a pandemia de covid-19 para facilitar empréstimos usando vendas futuras de cartão de crédito como garantia. Segundo Benitez, foi desse negócio que a empresa começou a ganhar atenção do mercado financeiro.
A BMP esteve nos holofotes da mídia em julho do ano passado, quando foi afetada pelo ataque hacker contra a C&M. Os criminosos acessaram a rede da provedora de serviços de tecnologia da informação (PSTI), que conectava instituições financeiras ao Pix, e desviaram recursos mantidos pelas instituições junto ao BC em contas reserva. O prejuízo estimado supera R$ 1 bilhão, sendo a maior parte da BMP, que teve R$ 541 milhões desviados.
Sobre a investigação da PF, a BMP disse que está colaborando integralmente com as autoridades e prestando todos os esclarecimentos necessários, “fornecendo informações sobre as operações antigas de ex-clientes que foram objeto de apuração”. A empresa reforça que segue com a operação de todos os seus produtos normalmente, “e está prestando todos os esclarecimentos necessários para o célere andamento das investigações”.
Segundo a PF, as apurações indicam que a instituição permitia movimentações sem a identificação adequada de seus usuários. Com isso, mantinha clientes “invisíveis” aos órgãos de controle, dificultando o rastreamento financeiro, a execução de bloqueios judiciais e a repressão a atividades ilícitas.
Também foram identificadas omissões sistemáticas de comunicações obrigatórias ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), prática que contribuía diretamente para a ocultação da origem dos recursos movimentados.
A PF diz que os investigados poderão responder por crimes contra o sistema financeiro, omissão de informações e lavagem de capitais. “As investigações seguem em andamento para identificar todos os envolvidos e para dimensionar o volume total das fraudes.”
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