
Após conversões de dívida e alta em vendas, rede varejista fechou o ano de 2025 com alavancagem de 0,4 vez o Ebitda
Às vésperas da divulgação do balanço, a Casas Bahia teve uma surpresa desagradável. A recuperação extrajudicial do Grupo Pão de Açúcar jogou água num pagamento de cerca de R$ 170 milhões que deveria cair na conta da empresa na quarta-feira (11). O montante é referente a uma arbitragem que a Casas Bahia venceu.
“A ordem de pagamento estava prevista para o dia 11”, diz Renato Franklin, CEO da Casas Bahia, ao Pipeline. “A empresa quer receber o que tem direito, mas essa é uma agenda jurídica.”
Apesar do contratempo, ele está aliviado com os números da companhia diante de uma série de nocautes corporativos por conta de alavancagem – a Casas Bahia já teve sua porção de turbulência e quer virar a página. “Várias empresas no Brasil estão precisando ajustar sua estrutura de capital porque não dá para ter uma alavancagem alta nesse cenário macro. É um conforto para os nossos credores e para a administração poder focar agora no operacional, muda muito a agenda”, diz o CEO.
No segundo semestre do ano passado, a companhia fez dois processos de conversão de dívida em “equity” (ação) com os credores. A previsão era levar a alavancagem já menor do terceiro trimestre, de 1,9 vez Ebitda, para 0,9 vez ao fim de dezembro. “Com o melhor desempenho operacional, um período que as vendas foram fortes, fechamos com alavancagem de 0,4 vez”, diz Franklin. “São nove trimestres consecutivos de melhora de margens e do fluxo de caixa livre.”
No quarto trimestre, em comparação ao mesmo período de 2024, a receita líquida subiu 6,1%, com aumento de 0,7 ponto em margem bruta, para 31,5%, e o Ebitda ajustado cresceu 29%, para R$ 826 milhões. No resultado líquido, no entanto, a linha segue vermelha. A companhia fez uma provisão para o imposto de renda diferido, que resultou em prejuízo líquido de R$ 1,5 bilhão e cujo efeito é contábil e não recorrente, destaca Franklin. O desempenho operacional, sem esse efeito, levou ao prejuízo de R$ 79 milhões, ante perda de R$ 452 milhões um ano antes.
A alta nas vendas no quarto trimestre pegou a companhia desprevenida em logística. Uma parceria com o Mercado Livre e outras ações ajudaram a aumentar as vendas em 20% no e-commerce, o que acabou alongando prazos de entrega e até fazendo a empresa recorrer aos Correios, como mostrou o Valor. Segundo o executivo, isso foi normalizado.
Agora, com a conclusão do ciclo de ajuste da estrutura de capital, a empresa vai voltar a olhar para maior geração de valor e remuneração de capital, mas sem dar “guidance” (estimativa). “Não estamos partindo para um ciclo de crescimento, por enquanto, porque seremos conservadores, mas vamos focar na melhora de margens. Queremos chegar a dois dígitos de margem Ebitda e reduzir ainda mais a despesa financeira”, afirma.
Um dos caminhos que a companhia vislumbra para isso, principalmente a partir do segundo semestre, é um esforço maior no crediário. Nas grandes lojas, a penetração é de 26%. No e-commerce, era de apenas 2% e saltou para 8%, em dois anos. “Queremos dar um outro salto nesta mesma proporção, mostrando que o crediário digital é ainda mais simples”, afirma.
Além de alavancar a venda de seguros serviços, que chega a uma penetração de 80% no crediário, a modalidade tem margem maior. A taxa interna de retorno no crediário é superior a 40%, enquanto em outras modalidades, como Pix, fica entre 10% e 15%, compara.
O executivo vai encarar sua primeira Copa na Casas Bahia, que historicamente é o evento ponto alto de vendas do carro-chefe da varejista, que são as TVs. A projeção é otimista, considerando a entrada de novos “players” nesse fornecimento, como chineses e coreanos, com planos agressivos de vendas.
Mas Franklin pondera que o cenário de consumo, de forma geral, tende a seguir desafiador no país. “O consumidor quer comprar, mas já se endividou muito e a aprovação de crédito não pode seguir o mesmo ritmo”, diz o CEO. Isso só reforça a aposta no e-commerce, onde normalmente o rating de crédito é melhor por uma mudança no perfil do tomador, mas sem euforia na concessão.
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