
Famílias com dívidas junto ao sistema financeiro chegam a 49,7%, sem considerar o crédito contraído fora das instituições bancárias
O endividamento e o comprometimento de renda das famílias brasileiras para o seu serviço dispararam e se aproximam ou já estão nas máximas históricas, alerta a edição de março do Boletim Macro, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre). Os pesquisadores ressaltam que o movimento ocorre a despeito de um momento bastante positivo para a dinâmica da renda das famílias, que segue crescendo firme.
No início do ano, o endividamento total das famílias bateu 49,7% com o sistema financeiro, perto da máxima histórica registrada na série do Banco Central, de 2022 (49,9%). Já o comprometimento de renda – a proporção entre o valor médio estimado para o pagamento do serviço das dívidas e a renda média nacional disponível bruta das famílias – subiu a 29,3%, na máxima da série histórica. Excluindo o financiamento imobiliário, esses números caem a 25,3% e 27,1%, respectivamente.
Os números do BC não contabilizam o chamado crédito não financeiro – contas como boletos de lojas – nem o pagamento ou dívidas com outras faturas do dia a dia, como água, luz, educação e saúde.
Coordenadora do boletim, Silvia Matos chama atenção para a piora do quadro na comparação com o ciclo 2003-2014, outro momento de forte expansão no crédito às famílias. No final daquele período, que antecedeu a forte crise econômica de 2015-2017, o endividamento total das famílias chegou a 38,2%, e o comprometimento da renda, em 22,9% comprometimento total. Descontando o financiamento imobiliário, estes números chegaram a 25,3% e 21,2%.
“Há trabalhos acadêmicos, inclusive um publicado pelo Banco Central para o caso brasileiro em 2020, mostrando que os indivíduos que se endividaram mais intensamente no período pré-recessão foram também os que mais cortaram o consumo durante a crise. Ou seja, este é um fator que retarda o processo de recuperação da economia”, alerta Matos.
O trabalho do BC também mostrou que a queda do consumo se mostrou mais intensa em famílias de menor renda e que utilizaram modalidades de crédito mais caras e com prazos mais curtos. Ele mostrou ainda que os bancos públicos tiveram papel relevante no crescimento do endividamento, em especial entre 2011 e 2014 e para servidores públicos, que aproveitaram na época a emergência do crédito consignado.
Outro recorde recente alcançado foi o de indivíduos inadimplentes em despesas não financeiras. De acordo com a Serasa Experian, são 81,3 milhões de CPFs negativados no país. Mas a dívida com o sistema financeiro é só 44% do total da dívida dos negativados. “Ou seja, outros 53% da dívida não está nas estatísticas do BC, mas com outros agentes”, ressalta Katherine Hennings, pesquisadora do Ibre e analista da consultoria BRCG.
Em tese, o nível de endividamento não é um problema, ressalva a economista. Mais importante é a sua composição: créditos de longo prazo e/ou com garantia, como o imobiliário e o rural, têm taxas juros mais baixas. A questão é que endividamento e inadimplência, embora tenham crescido em todas as faixas de renda, ficaram mais intensos justamente nas faixas de menor renda e também nas modalidades mais caras, como o cheque especial.
Dados compilados do Sistema de Informações de Créditos do BC mostram que a população que recebe dois salários mínimos – que corresponde a 70% dos ocupados e 18,4% da carteira de crédito total – tem a taxa de inadimplência mais elevada – 8,4% na média de 2025 – e alta concentração nas modalidades de crédito emergenciais (38,6%). Já as famílias mais ricas, que recebem acima de dez salários mínimos e respondem por 37% da carteira de crédito, também mostram piora do endividamento: 4% no total, 8,9% no cheque especial, 6,2% crédito pessoal não consignado e 5,6% no rotativo.
“Endividamento nas famílias mais ricas preocupa também, mas sua capacidade de administração é maior”
— Katherine Hennings
“O endividamento nas famílias mais ricas preocupa também, mas a sua capacidade de administração é maior”, pondera Katherine, ressaltando que a maior parte das dívidas tomadas na pessoa física nessa faixa de renda corresponde ao crédito rural – categoria cujo o crédito “está com o Banco do Brasil e o governo, que têm interesse muito grande em seguir financiando essa categoria”.
O alto grau de endividamento e comprometimento da renda das famílias é preocupante no atual momento da economia, diz o chefe de pesquisa macroeconômica do BTG Pactual, Samuel Pessôa. “Quando comparamos com o ciclo anterior, encerrado em 2014, duas coisas preocupam muito: o fato de que o atual ciclo ocorreu sem elevação de produtividade, ao contrário do primeiro, e o fato de que o mercado de trabalho está em situação espetacular e o endividamento também”, diz. “Sabemos que a amplitude do ciclo econômico é maior – crescimento e a contração são mais intensos – em exportadores de commodities como o Brasil. Isso significa que, pelo menos do ponto de vista do endividamento, a economia está mais exposta agora que da outra vez.”
Após quatro anos de crescimento na casa de ou acima de 3%, o Brasil encerrou 2025 com crescimento de 2,2% e deve continuar desacelerando em 2026. A mediana da pesquisa Focus, do BC, aponta avanço de 1,84% este ano – o Ibre projeta avanço de 1,7%. Apesar disto, o primeiro trimestre mostra sinais mistos – típicos de momentos de crescimento mais moderado. O Indicador de Atividade Econômica (IAE-FGV) aponta alta de 0,4% no mês em janeiro, o os economistas esperam crescimento de 0,9% no primeiro trimestre, na esteira de uma recuperação pontual da indústria (1,1%), especialmente da extrativa (3,2%) e uma resiliência dos serviços (0,7%).
Pessôa ressalta que a expansão do crédito às famílias tem razões conjunturais e estruturais. Em relação ao segundo, ele destaca as mudanças tecnológicas que permitiram o surgimento das fintechs, aprofundamento da bancarização das famílias e maior competição no setor, promovendo queda do spread bancário. Do outro lado, estão políticas de incentivo ao crédito do governo como a ampliação do Minha Casa Minha Vida, o crédito para reformas residenciais e o Desenrola.
Para a coordenadora do boletim, é preocupante que o governo atue nessa segunda perna. “Induzir famílias, especialmente as mais pobres, a se endividar, não faz parte de boas políticas públicas. Além disso, reduz a própria a potência da política monetária, que precisa ficar mais alta por mais tempo”. diz.
Ela pondera que, até pouco tempo atrás, o mercado trabalhava com uma perspectiva de alívio da Selic maior, mas este cenário ficou para trás e agora o entendimento é que o cenário externo vá demandar ao BC que parece mais cedo no ciclo de cortes para combater os efeitos secundários do petróleo nos preços. Com isso, a perspectiva é que os números de endividamento piorem ainda mais adiante.
“Na minha avaliação, o mercado já estava contando com um orçamento muito alto de cortes da Selic antes da guerra no Irã. Eu esperava algo entre 1,5 e 2,0 pontos percentuais”, diz o pesquisador do Ibre e ex-diretor do BC, José Júlio Senna. “É difícil precisar o quanto, mas hoje, acredito que o orçamento é menor ainda. Fica cada vez mais claro que o choque sobre preços de energia vai ser duradouro em razão dos estragos severos na estrutura dos países da região. Muitos ponderam que o mundo atualmente é menos dependente do petróleo. Pode ser, mas ainda continua bastante dependente.”
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