
Com juros altos e crescimento de linhas mais caras, famílias veem parcela destinada a pagamento de dívidas aumentar
Em meio a preocupações no governo federal sobre o endividamento da população — sobretudo em ano eleitoral — o comprometimento de renda das famílias brasileiras voltou ao maior patamar da série histórica, chegando a 29,3% em janeiro. Os números foram divulgados nesta segunda-feira (30) pelo Banco Central (BC) A última vez em que o indicador registrou esse nível foi em outubro do ano passado.
O índice considera o valor médio estimado para pagamento do principal e dos juros da dívida no mês comparado com a estimativa de renda mensal. A série histórica mostra trajetória de elevação desde o início de 2024, quando estava em 26,2%.
Entre janeiro de 2025 e o mesmo mês de 2026, o indicador subiu de 27,7% para 29,3%. No Relatório de Política Monetária (RPM) divulgado na semana passada, o BC destacou o crescimento do endividamento e do comprometimento de renda das famílias no ano passado, atribuindo o movimento em parte ao novo modelo de crédito consignado para o trabalhador do setor privado e a uma maior demanda por crédito emergencial.
O BC também publicou qual seria em janeiro o comprometimento de renda das famílias excluindo o financiamento imobiliário, uma modalidade com taxas mais baixas e menor inadimplência. Nesse recorte, o comprometimento chegou a 27,1%, mesmo nível de outubro de 2025 e também o maior patamar da série iniciada em março de 2011.
Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian, diz que houve crescimento do saldo de crédito bancário, entre 2024 e meados do ano passado, em um ambiente de taxa de juros elevada. Atualmente, a Selic está em 14,75% ao ano. A economista não vê sinais de melhora no curto prazo.
“Temos à frente um quadro de desaceleração da atividade, que exige bastante cautela. Esse processo de desaceleração pode impactar o mercado de trabalho, com outro impacto na renda das famílias, que não diz respeito apenas ao encarecimento e ao comprometimento da renda com dívida, mas à própria dinâmica da renda familiar”, diz.
A alta do comprometimento da renda é similar ao movimento de que se vê no endividamento das famílias. Nesse caso, o indicador ficou estável em janeiro, mas perto do pico da série histórica. O endividamento é calculado a partir do saldo das dívidas das famílias e leva em conta a renda acumulada em 12 meses.
Considerando o financiamento imobiliário, o endividamento ficou em 49,7% em janeiro, mesmo percentual de dezembro e novembro. Em janeiro do ano passado, o endividamento estava em 48,6%. O maior patamar da série histórica foi registrado em julho de 2022, quando chegou a 49,9%.
O endividamento sem considerar o financiamento imobiliário ficou em 31,3% em janeiro, crescimento de 0,1 ponto percentual em relação ao mês anterior. Na comparação com o início de 2025, a alta do indicador foi de 0,7 ponto percentual.
A composição do crédito, considerando quais linhas são mais tomadas, também tem impacto na média de juros cobrados das pessoas físicas. A taxa chegou a 33% em fevereiro, o maior patamar da série histórica em conjunto com o registrado em outubro de 2016, conforme divulgado pelo Banco Central.
Os dados mostram que a alta nos juros médios foi motivada pela composição da variação do crédito. No mês passado, as modalidades com taxas mais altas, como o cartão de crédito rotativo, registraram alta nos juros cobrados. A taxa média de juros estava em 29,7% ao ano em janeiro.
“Quando esse efeito saldo é mais relevante, significa que aquelas modalidades que têm taxa de juros mais elevadas cresceram a participação no total das operações de crédito no mês e como tem taxa mais elevada, elas aumentam a taxa”, afirma o chefe do departamento de estatísticas do BC, Fernando Rocha, em entrevista a jornalistas para comentar os números.
As estatísticas indicam que o crédito livre e o crédito bancário para pessoas físicas, dois segmentos afetados por modalidades mais caras de crédito, cresceram mais do que a média. A taxa média de juros em crédito livre subiu de 47,8% para 48,6% ao ano, enquanto o crédito para pessoas físicas passou de 37,9% para 38,3% ao ano.
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