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Recuperadora de crédito vê alcance baixo no Desenrola

por: Afonso Bazolli
em: Cobrança
fonte: Valor Econômico
11 de maio de 2026 - 17:12

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Programa deve atingir menos de 1% das dívidas, diz MGC

A nova edição do Desenrola, lançada anteontem pelo governo, vai atingir menos de 1% das dívidas porque os critérios de renda até cinco salários mínimos e dois anos de atraso estão longe da realidade do endividamento do brasileiro, segundo Eduardo Martins, sócio-diretor da MGC Holding, dona da Crediativos, maior empresa independente (não vinculada a bancos) especializada na compra de direitos creditórios e na gestão de recuperação de créditos em atraso do país.

Além disso, diz ele, os bancos já se desfizeram de uma parcela significativa de suas carteiras inadimplentes “jovens”, por causa de normas contábeis que entraram em vigor no ano passado.

As normas do Banco Central obrigaram os bancos a provisionar recursos para perdas esperadas, em vez de somente perdas ocorridas, e levaram as instituições a vender suas carteiras “mais jovens”, vencidas há até dois anos, por serem as que mais pesavam no balanço, explica Martins. “Os bancos já vinham desde 2023 vendendo as carteiras recentes para companhias securitizadoras e fundos de direitos creditórios, os FIDCs, então hoje quase que não têm devedores com esse perfil”, comenta. “Paradoxalmente, quem comprou essas carteiras ficou de fora do programa”, critica.

De acordo com o executivo, o prazo médio das carteiras ofertadas à empresa no ano passado, que também incluem devedores não negativados, foi de 4.237 dias de atraso, sendo que em 2024 era de 1.267. Ele explica que o movimento de venda mais forte em 2023 e 2024 interferiu nesse prazo. “Até 2022, o prazo era de 4.000 dias, quando mudou a norma e os bancos venderam as carteiras jovens.”

Levantamento da Recovery, plataforma do Itaú de recuperação de crédito, mostrou que o movimento de venda de carteiras inadimplentes pelos bancos no ano passado atingiu R$ 34 bilhões, um crescimento de 21,4% frente aos R$ 28 bilhões de 2024, número já significativo. Essas carteiras reúnem créditos vencidos e a empresa que assume busca recuperar algum percentual do débito. Ainda conforme a Recovery, 43 empresas fizeram operações do tipo, incluindo bancos grandes e médios, de varejo, fintechs e cooperativas. Já o levantamento da MGC Holding mostra um número bem mais alto, de um saldo ofertado ao segmento de recuperação de crédito de R$ 53,8 bilhões em 2025 contra R$ 51,3 bilhões em 2024.

Martins cita estudo da Serasa Experian que mostra que mais de 60% das dívidas do público-alvo do programa estão em contas de consumo, serviços e varejo. Em março, 22% das dívidas renegociadas na instituição, que só considera quem já está negativado, estavam nas mãos de securitizadoras.

Bancos se desfizeram de carteiras ‘jovens’ por causa de nova norma contábil, aponta executivo da MGC Holding

A Crediativos usa como meio para gerir essas carteiras um FIDC de créditos antigos e um de novas dívidas, que agregam 35 milhões de devedores, frente ao total de 117 milhões estimados pelo Banco Central. Martins afirma que o desconto médio de 65% prometido pelo programa do governo é semelhante aos 68% em média oferecidos por empresas de renegociação de dívidas atualmente. O teto dessas empresas é 96%, afirma.

“O perfil que o governo selecionou representa menos de 1% da nossa carteira, que contempla praticamente todos os bancos, crediários e companhias de utilities [serviços essenciais, como luz e gás]”, comentou.

Levantamento da MGC Holding para o Valor revela que o volume de acordos caiu 6,9% no ano passado, apesar do aumento da inadimplência. A Crediativos fez 1 milhão de acordos em 2025, muitos também de endividados em casas de apostas digitais, as bets. “As famílias estão mais endividadas e cada vez com menos condição de liquidar os débitos”, avalia ele, que também vê influência do grande número de fraudes digitais, o que torna o devedor refratário a contatos para renegociação.

Martins conta que o valor médio de acordo de um devedor brasileiro hoje é de R$ 1.239 à vista ou em 12 meses, com parcelas médias de R$ 124. “Quando a gente compra uma já está normalizado que, de um devedor com R$ 50 mil a pagar, vou recuperar 12 parcelas de R$ 124.” Diante da perspectiva de corte mais lento de juros este ano no Brasil, ele vê mais um ano difícil. “A família endividada não consome e ainda cai no conto das bets”, conclui.

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