
“O ciclo de consumo se tornou muito mais curto”, diz Kauê Lopes dos Santos, que lançou “Parcelado: Dinâmicas de consumo na periferia”
O crédito para pagamento em prestações, hoje oferecido de forma maciça pelo sistema financeiro no país para uma ampla parcela da população, mudou os padrões de consumo da periferia de São Paulo. O fenômeno provavelmente também deve ter ocorrido nos bairros mais pobres em outras grandes cidades do país. Com a maior facilidade de financiamento, muitos moradores dessas regiões passaram a conviver com o endividamento crônico, usando cartões de crédito e outras formas de empréstimo a prazo para comprar bens como celulares, computadores e aparelhos de televisão.
Anteriormente, os padrões de compra de produtos de maior valor eram outros. As famílias juntavam dinheiro, às vezes durante longos períodos, até por anos, para ter o dinheiro suficiente para bancar um determinado bem, num processo conhecido como entesouramento. Também era comum se recorrer a agiotas.
Com a oferta abundante de crédito via parcelamento, os bens desejados se tornaram alcançáveis no curto prazo. “O ciclo de consumo se tornou muito mais curto”, diz o geógrafo Kauê Lopes dos Santos, que lançou recentemente o livro “Parcelado: Dinâmicas de consumo na periferia” (Fósforo). O total de crédito concedido para pessoas físicas com recursos livres praticamente dobrou de janeiro de 2016 para março deste ano, segundo relatório da Febraban a partir de dados do Banco Central.
Professor da Unicamp e pesquisador visitante na London School of Economics and Political Science (LSE) entre 2019 e 2023, Santos manteve contato durante anos com moradores no Jardim Helena, Brasilândia e Jardim Ângela. Pelo levantamento feito pela Rede Nossa São Paulo, que reúne 45 indicadores econômicos e sociais, tanto Brasilândia como Jardim Ângela estão entre os dez bairros mais pobres da cidade.
Nessas regiões, o acesso ao crédito criou uma situação incomum, em que os moradores passaram a ter acesso a produtos mais caros e sofisticados enquanto convivem com deficiências graves, como a falta de saneamento e de opções de lazer. As críticas mais comuns e mais severas foram feitas exatamente sobre esses dois aspectos da vida nas cidades.
Era comum a fala dos entrevistados de que, sim, a moradia tinha abastecimento de água, mas só num determinado período do dia, em geral fora dos horários de pico no consumo, como fim da tarde e noite. Em um trecho do livro, Santos relata a conversa com uma moradora: “Tudo aqui foi comprado parcelado”, disse Maria do Carmo, uma das entrevistadas, que se orgulha de sua TV de 43 polegadas, apesar de viver em uma casa que apresenta marcas de umidade e rachaduras.
Foi exatamente esse contraste entre bairros com infraestrutura precária e moradores com produtos de alta tecnologia que levou Santos a pesquisar o impacto dessa mudança na forma de consumo para as famílias. No livro, ele se baseou nos depoimentos de 150 famílias, a maioria formada por negros.
O tema do endividamento das famílias ganhou ainda mais relevância neste ano com o programa do governo federal para tentar reduzir as dívidas da população, já que as estatísticas mostram que o panorama é preocupante. De acordo com dados do Banco Central divulgados no dia 27 de abril, o endividamento das famílias está nos maiores níveis já registrados: chegou a 49,9% em fevereiro, praticamente se igualando ao pico histórico da série, atingido em julho de 2022. Outro indicador, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), mostra que 80,4% das famílias brasileiras estão endividadas, o maior nível da série histórica.
No dia 1 de maio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirmou as regras para o Desenrola 2, como a permissão para o uso do FGTS para renegociar dívidas. Quem aderir ao programa de combate ao endividamento ficará bloqueado de fazer apostas em sites esportivos por um ano, uma medida para tentar conter esse tipo de gastos, que subiram muito recentemente.
Para enfrentar o problema do endividamento crônico e a necessidade de pagar as prestações, segundo o livro, moradores têm recorrido a opções de trabalho informal, os “bicos” para complementar a renda de forma que o tempo para o descanso e o lazer fica ainda mais escasso. “A gente não trabalha mais só para viver, a gente trabalha para não afundar”, comenta Solange, moradora da Brasilândia que acumula três turnos de trabalho para ter condições de quitar os boletos.
No Jardim Helena, 85% das residências tinham lavadora de roupas e 67%, computador em 2019, conforme levantamento publicado em um trabalho de Santos e João Sette Whitaker Ferreira, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, em 2021, no Boletim de Pesquisa Latino-Americana. O título do paper resume de forma clara as constatações dos pesquisadores: “Compre hoje, pague amanhã: oferta de crédito formal e consumo doméstico de bens elétricos e eletrônicos na periferia urbana de São Paulo”.
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