
Lucros ainda devem, na média, subir no 2º trimestre, mas qualidade dos ativos é o grande ponto de atenção; El Niño pode afetar o agro
A temporada de balanços dos grandes bancos de varejo no segundo trimestre deve trazer um tom mais cauteloso. Em meio a várias incertezas nos cenários doméstico e externo, há um movimento generalizado de piora na inadimplência. Além disso, os potenciais impactos de um El Niño histórico devem pressionar ainda mais o agronegócio, que já sofre com índices de calotes recordes. Por outro lado, o programa de renegociação de dívidas Desenrola 2.0 deve trazer impactos positivos bastante limitados – com exceção do Nubank, onde o efeito pode ser um pouco maior.
Itaú Unibanco, Bradesco, Banco do Brasil (BB), Santander e Nubank devem registrar lucro consolidado de R$ 31,7 bilhões entre abril e junho, segundo a soma da média de estimativas de nove casas consultadas pelo Valor. Se confirmado, o resultado representará uma alta de 2,6% em relação ao primeiro trimestre e de 11,2% na comparação com o mesmo período de 2025.
No segundo trimestre de 2026, além do BB, que já vinha pressionando a média do setor nos últimos períodos, o Santander deve apresentar queda no lucro. A filial brasileira do banco espanhol inicia a temporada de balanços nesta quarta-feira, antes da abertura dos mercados. Será a primeira divulgação sob o comando de Gilson Finkelsztain, que assumiu como CEO no início deste mês, em substituição a Mario Leão.

Por um lado, diminuíram um pouco os temores em torno das tarifas dos Estados Unidos e dos impactos macroeconômicos da guerra no Irã. Entretanto, os casos de grandes empresas em dificuldades ainda podem elevar as provisões dos bancos e, com a Selic elevada, não há sinais de alívio no curto prazo para a inadimplência. Na parte de novas concessões de crédito, mudanças no consignado privado podem tirar fôlego do produto em um contexto em que o consignado INSS já caiu muito nos últimos meses.
“Esperamos resultados sólidos de Itaú Unibanco e Bradesco, enquanto o Nubank deve registrar um impulso pontual decorrente do programa Desenrola. Em contrapartida, projetamos um desempenho sequencial mais fraco para Santander Brasil e Banco do Brasil, sendo que este último pode revisar seu guidance em razão da deterioração da qualidade dos ativos”, avaliam os analistas do Citi.
No caso do BB, a principal pressão continua vindo da qualidade da carteira de crédito, especialmente do agronegócio. A expectativa é de lucro de R$ 3,6 bilhões no segundo trimestre, alta de 4,3% em relação ao trimestre anterior e queda de 5,4% na comparação anual. “Esperamos mais um trimestre fraco para o Banco do Brasil, à medida que a qualidade dos ativos continua se deteriorando e pressionando o custo de risco, apesar do sólido desempenho da margem financeira, sustentado pelo ambiente de juros ainda elevados”, diz o Citi.
Para o Bank of America (BofA), as despesas do BB com provisões devem superar suas expectativas por conta da deterioração da carteira de agronegócio e pelos produtores terem esperado a Medida Provisória (MP) 1.376 de renegociação de dívidas, publicada pelo governo em julho. “O crescimento da carteira de crédito deve permanecer em um dígito baixo, pressionado pela fraca originação de crédito rural e pela desaceleração do crédito ao consumidor.”
O BB deve ganhar algum fôlego com a MP 1.376. Ainda assim, os efeitos da medida não devem aparecer de imediato nos resultados. O próprio banco reconheceu que ainda não é possível estimar os impactos da MP, embora avalie que a medida “poderá contribuir para o reequilíbrio do fluxo de caixa e a regularização financeira dos produtores rurais”. Em relatório recente, o Santander CIB aponta que o “super El Niño” pode afetar diversos setores, inclusive o crédito rural. “A questão já não é mais se os investidores devem monitorar o El Niño, mas onde seus impactos têm maior probabilidade de se materializar”, diz, citando o BB entre as principais empresas a serem afetadas.
Por sua vez, o Santander Brasil também deve apresentar um desempenho mais fraco no segundo trimestre. A expectativa média é de lucro de R$ 3,7 bilhões, o que representa queda de 3,1% em relação ao trimestre anterior e alta de 0,3% na comparação anual. O recuo deve refletir, principalmente, o nível ainda elevado de provisões. Desta vez, a matriz espanhola divulgou os resultados do grupo uma semana antes. O padrão contábil é diferente e, assim, os números não são exatamente comparáveis, mas dão uma noção do desempenho. Por esse balanço, a unidade brasileira teve lucro de € 551 milhões, o que equivale a cerca de R$ 3,2 bilhões.
Para Pedro Gonzaga, analista-chefe de renda variável da Mantaro Capital, Finkelsztain pode querer chegar “limpando a cozinha”, ou seja, fazendo todos os ajustes que julgar necessário e, assim, apresentando um resultado ruim antes do início da sua gestão, o que cria uma base de comparação mais fácil lá na frente. “Tipicamente, quando há uma troca de gestão, existe um incentivo para fazer essa limpeza. De qualquer forma, o Santander já vem dando sinais negativos de qualidade dos ativos”, comenta.
Analistas veem desempenho mais positivo de Itaú e Bradesco, enquanto Nubank pode ser beneficiado pelo Desenrola
Na outra ponta, o Bradesco deve ser o destaque positivo do trimestre. A expectativa, na média das casas consultadas pelo Valor, é de lucro de R$ 7 bilhões, alta de 2,5% em relação ao trimestre anterior e de 15,1% na comparação anual.
A XP projeta crescimento das receitas, continuidade da expansão da carteira de crédito em linhas com garantia e qualidade dos ativos estável. “As receitas devem ser o principal destaque do trimestre. A margem financeira com clientes deve ser beneficiada pelo crescimento saudável dos volumes, enquanto a margem financeira líquida deve permanecer estável. Além disso, o desempenho da operação de seguros deve continuar em linha com o guidance.” As despesas operacionais, por sua vez, devem permanecer sob controle.
Para o Itaú, o segundo trimestre não deve trazer surpresas. A expectativa é de mais um resultado recorde, com crescimento nas comparações trimestral e anual. Na média das projeções, o banco deve registrar lucro de R$ 12,6 bilhões, alta de 2,3% em relação ao trimestre anterior e de 9,2% na comparação anual.
“Os resultados do Itaú vêm sendo consistentes e relativamente previsíveis, e acreditamos que essa característica deve se manter no segundo trimestre”, afirmaram os analistas do UBS BB.
A casa projeta alguma pressão sobre as receitas com tarifas, em razão da atividade mais fraca no mercado de capitais, embora já observe uma melhora sequencial moderada. A expectativa é de crescimento moderado da carteira de crédito, com manutenção da qualidade dos ativos. “Isso porque o banco reduziu significativamente sua exposição aos segmentos de maior risco nos últimos anos, o que deve ajudar a conter os efeitos mesmo em um cenário de deterioração mais ampla da qualidade dos ativos no Brasil.”
Já o Nubank, que anunciou neste mês a aquisição do Banco Porto Real para obter uma licença bancária no Brasil, pode ter o seu resultado moderadamente beneficiado pelo Desenrola 2.0. A expectativa, na média das casas consultadas pelo Valor, é de lucro de US$ 964,5 milhões (cerca de R$ 4,88 bilhões), alta de 10,7% em relação ao trimestre anterior e de 51,4% na comparação anual.
O Goldman Sachs afirma que o “forte crescimento” da carteira de crédito do Nubank no segundo trimestre, puxada principalmente por cartões de crédito, e a “normalização do custo de risco” devem impulsionar os lucros. “O custo de risco deve recuar na comparação trimestral, refletindo fatores sazonais e a manutenção de uma qualidade de ativos ainda saudável, o que implica um crescimento das provisões inferior ao crescimento das receitas.”
A dúvida do mercado é sobre como a qualidade da carteira ficará após o fim do Desenrola. “Não é algo que deve afetar muito o lucro do Nubank, mas pode impactar em provisões e na inadimplência. O programa é voltado para baixa renda e dívidas sem garantia, o que casa muito com a base do Nubank”, aponta Gonzaga, ressaltando que isso pode tornar mais difícil de analisar o balanço do banco, em função desses efeitos extraordinários.
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