
Índices de capitalização estavam um pouco apertados, mas instituição pode estar se preparando para crescer mais rapidamente, se houver condições macroeconômicas para isso
Analistas de “sell-side’ ainda tentam entender se o aumento de capital de R$ 10 bilhões anunciado na quarta-feira (29) pelo Bradesco é por necessidade — dado que seus índices de capitalização estavam um pouco apertados — ou se o banco da Cidade de Deus está aproveitando uma janela de oportunidade para estar preparado para crescer mais rapidamente, se houver condições macroeconômicas para isso.
Em relatório, os analistas do Citi apontam três possibilidades para a operação anunciada pelo Bradesco. A primeira é que o banco esteja agindo de forma oportunística, a partir de uma posição de força, tirando partido de um mercado receptivo para aumentar a flexibilidade de capital e acelerar os investimentos. A segunda alternativa é que a gestão pode estar tentando reforçar o capital à medida que o ciclo de crédito continua a se deteriorar e as provisões permanecem elevadas. E a terceira é que o aumento de capital pode acelerar a utilização de ativos fiscais deferidos (DTA), impulsionado pela capacidade de acelerar o crescimento dos ativos ponderados pelo risco.
“Acreditamos que a transação poderia ser vista como um exercício proativo de otimização do balanço, e não como uma resposta ao estresse imediato”, diz o Citi, referindo-se ao primeiro cenário, mais otimista. Entretanto, no segundo cenário, mais pessimista, o Bradesco poderia estar aproveitando as condições favoráveis do mercado para reforçar o capital antes que surja um ambiente potencialmente mais desafiador. “Segundo esta interpretação, o banco pode ter a optado por reforçar a sua posição de capital agora, antes da provável volatilidade relacionada com as eleições e antes que os investidores se tornem possivelmente menos receptivos.”
Para o J.P. Morgan, a operação anunciada pelo Bradesco traz dois benefícios principais. O primeiro é que o aumento de capital por meio da recapitalização de dividendos permite que não se perca o benefício fiscal dos juros sobre o capital próprio (JCP). O segundo é que leva a um maior valor patrimonial tangível, o que permite uma maior contabilização da margem financeira e, consequentemente, a utilização de DTAs.
“O Bradesco possui um grande estoque de DTAs, de aproximadamente R$ 120 bilhões, e em um país como o Brasil — onde as taxas de juros ultrapassam 14% — ter um valor patrimonial tangível maior é importante e pode representar uma vantagem competitiva. Como descrevemos detalhadamente em nosso exercício teórico realizado no início deste ano, mais capital tangível possibilita uma maior utilização de DTAs, o que, por sua vez, gera um valor patrimonial tangível maior.”
Ainda assim, eles admitem que investidores mais pessimistas podem argumentar que o Bradesco fez isso porque precisa de mais capital. “Não acreditamos que o capital regulatório seja o problema aqui. O Bradesco já possui um índice CET1 pro forma de 12,7% após a reestruturação da área de saúde, superior ao da maioria dos seus pares.”
Para o BTG Pactual, o anúncio surpreendeu, mas pode ser um passo positivo. “Acreditamos que as reações [do mercado] podem ser mistas, já que o fato de o banco estar levantando capital sugere que ele provavelmente precisava disso, o que estava longe do consenso. [...] Essa mudança de postura, com foco na geração de capital tangível e aceleração do consumo de DTAs, é inegociável, especialmente em um ambiente de juros mais altos por mais tempo.”
De forma geral, os analistas não esperam grandes surpresas negativas no balanço do Bradesco do segundo trimestre, embora o setor como um todo viva um aumento de piora na inadimplência e nas provisões de crédito. O banco vem trabalhando para entregar o centro do “guidance” neste ano e também não são previstas operações de compra ou venda de ativos.
Outro fator que ajuda a explicar o aumento de capital é o desempenho da ação do Bradesco. O papel acumula queda de 14,7% nos últimos seis meses e o banco tem um valor de mercado atualmente de R$ 190,6 bilhões. Isso porque em fevereiro o grupo anunciou a segregação das operações de saúde, criando a BradSaúde. Elas estavam contabilizadas no balanço a cerca de R$ 14 bilhões e, com o IPO reverso, foram para a bolsa valendo quase R$ 45 bilhões. Ainda assim, o valor do Bradesco caiu para o patamar atual, vindo de algo perto de R$ 210 bilhões em fevereiro.
“A ação do Bradesco está muito depreciada, abaixo da média histórica. Se os acionistas acreditam que ela está longe do seu valor justo, se acreditam no banco, faz sentido comprar”, comenta um observador.
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