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Bradesco vê inadimplência sob pressão, mas se diz tranquilo

por: Afonso Bazolli
em: Cobrança
fonte: Valor Econômico
03 de setembro de 2026 - 17:12

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Instituição financeira reduziu exposição a clientes de baixa renda e está concentrando operações em linhas com garantia

O Bradesco sinalizou que há uma pressão sobre a inadimplência no mercado de crédito como um todo, mas o presidente do banco, Marcelo Noronha, disse que a instituição financeira não está fazendo nenhuma “loucura” no crédito e não está preocupado com um risco de aumento nos atrasos de sua própria carteira.

O banco divulgou as demonstrações financeiras do segundo trimestre com lucro recorde e rentabilidade melhorando. Ainda assim, analistas mostraram preocupação com a qualidade dos ativos à frente, em meio a um cenário macroeconômico mais incerto.

Noronha afirmou que o banco está crescendo em linhas com garantia e reduzindo exposição em modalidades sem proteção. “Onde é que a gente cresce na pessoa física? Cresce em consignado. A gente não está fazendo loucura. A gente está reduzindo crédito pessoal e fazendo colateralizado”, disse. O executivo participou de entrevista a jornalistas e teleconferência com analistas.

O CEO do Bradesco disse ver um “ciclo ainda difícil” no agronegócio. “A gente tem um mercado um pouco pior, mas é um mercado em que a gente acredita muito. A gente vê muita chance de recuperação, de crescimento.”

Segundo ele, a inadimplência está mais pressionada no crédito rural, incluindo o Banco John Deere, do qual o Bradesco comprou uma fatia de 50% no início do ano passado. Apesar disso, Noronha afirmou que o banco tem uma sazonalidade característica e que não atua financiando o produto rural em si, mas a venda de máquinas, que por sua vez servem como garantia. “Dentro do rural, especialmente dentro do John Deere, continua pressionando, mas comparado com o mercado anda muito bem”, disse.

Em relação ao fenômeno climático El Niño, outro fator que pode afetar o agronegócio, a aposta do Bradesco aposta é na diversificação e no resseguro. “O impacto na área de seguros a gente crê que vai ser plenamente dentro da nossa expectativa”, afirmou Ney Dias, CEO da Bradesco Seguros. “A gente não espera um aumento sensível de sinistralidade.”

Outro ponto de atenção em inadimplência, segundo Noronha, são as linhas de crédito com garantia do Fundo de Garantia de Operações (FGO) e do Fundo Garantidor para Investimentos (FGI). Como as modalidades cobertas por esse fundos têm carência, pode haver impacto na inadimplência quando esse período termina. Ainda assim, disse Noronha, o banco está “tranquilo” porque ele é restituído, mesmo que leve algum tempo. Nesse sentido, o fim do prazo de carência dos programas afeta o índice de inadimplência, mas não pressiona as provisões na mesma magnitude. “Gera um pouquinho de pressão na inadimplência, mas vamos pagar com ‘topline’ [receita] e com a cura das operações”, afirmou.

O executivo ressaltou diversas vezes que o Bradesco tem grande disciplina na alocação de capital e que trabalha sempre olhando o retorno ajustado ao risco (RAR) de cada operação. Na carteira de pessoa física, por exemplo, quando se trata de uma linha de crédito sem garantia, o banco tem focado em clientes de maior renda e perfil de risco mais baixo. “Estamos desacelerando em cartão de crédito em todos segmentos, mas ainda assim crescendo mais em alta renda”, disse. “Nosso apetite por clientes de menor renda é muito menor do que foi no passado.”

“A gente está crescendo há dez trimestres seguidos, entregamos o que prometeu em termos de ‘step by step’”

— André Carvalho

A inadimplência na carteira de crédito do Bradesco subiu para 4,3%, ante 4,2% em março e 4,1% em junho do ano anterior. A taxa de calotes de pessoa física chegou a 5,5%, ante 5,4% e 5,1%. No caso de grandes empresas, o indicador ficou em 0,2%, estável em relação a março e abaixo dos 0,4% de 12 meses antes. Em micro, pequenas e médias empresas, atingiu 4,4%, de 4% e 4,3%, respectivamente.

O diretor de relações com investidores do Bradesco, André Carvalho, afirmou que o banco já renegociou R$ 2,7 bilhões pelo programa Desenrola. “Em termos de renegociações, [somos o] segundo maior banco renegociando. Isso aqui tem impacto positivo [em inadimplência]? Tem, mas é bem pequenininho.”

Carvalho destacou que o resultado de abril a junho marcou o décimo trimestre seguido de crescimento no lucro. O resultado líquido recorrente do Bradesco somou R$ 7,050 bilhões no segundo trimestre, nível recorde, com alta 16,2% ante igual período do ano passado.

“A gente está crescendo há dez trimestres seguidos, entregamos o que a gente prometeu em termos de ‘step by step’ [passo a passo]”, afirmou. “Crescimento de lucro todo trimestre, e a gente mantém esse compromisso daqui para a frente: de continuar aumentando o lucro em todos os trimestres.”

O vice-presidente financeiro, Cassiano Scarpelli, destacou que o Bradesco tem “tração”, não só na força comercial, como Noronha já vinha afirmando, mas também na disciplina de custos, no engajamento dos funcionários no plano de transformação e na melhora de indicadores operacionais, incluindo a rentabilidade (ROE). “Chegamos a 16,2% de ROE, que era pensado para o quarto trimestre deste ano e entregamos no segundo. E quando fizemos nosso plano de transformação, há 30 meses, o cenário que havia para 2026 era completamente diferente. Estamos entregando o plano em um país mais hostil do ponto de vista macro, com guerra [no exterior], taxa de juros diferente”, disse. “O Bradesco é tração 4×4.”

Para analistas, o Bradesco mostrou resultados sólidos, mas há desafios à frente, sobretudo na qualidade dos ativos, incluindo no agronegócio e em micro, pequenas e médias empresas. Segundo a XP, embora o baco tenha dado as explicações sobre o John Deere e os programas FGI/FGO, a pressão sobre os indicadores de qualidade de crédito deve persistir nos próximos trimestres, pois a normalização dessas carteiras apoiadas pelo governo deve se estender até o fim do ano. “Além disso, o atual cenário macroeconômico continua desafiador para pessoas físicas e PMEs [pequenas empresas], segmentos nos quais o Bradesco possui exposição relevante.”

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