
Conhecida pelas pesquisas eleitorais, a companhia recorre à IA para apoiar clientes na tomada de decisões estratégicas de negócios
A Quaest, empresa que se tornou uma das referências no país em pesquisas eleitorais e de opinião pública e está completando dez anos, quer ampliar sua atuação em outro tipo de negócio.
Desde 2022, a empresa fundada pelo cientista político Felipe Nunes vem produzindo pesquisas e análises para ajudar empresas privadas a avaliar a efetividade de suas abordagens e a receptividade de produtos e serviços.
Nunes e os sócios apostam em fazer a Quaest crescer mais nesse segmento de pesquisa para empresas e marcas, com ajuda da inteligência artificial (IA). Eles falam também em dar um passo além: consolidar-se como um “hub” de inteligência para apoiar decisões e estratégias empresariais.
Os planos que marcam a primeira década da Quaest incluem ainda outra novidade. Depois de ter dito “não” a propostas de investidores interessados em se tornarem seus sócios, Nunes disse que essa ideia poderá, finalmente, se concretizar em 2027.
“Faz parte do meu plano para o ano que vem a gente ter um ‘spin-off’ [nova empresa] da Quaest só para tecnologia”, disse Nunes em entrevista ao Valor sobre os rumos da empresa nos próximos anos.
Em 2026, a Quaest passou a ter uma diretoria exclusiva dedicada a produtos, inovação e tecnologia. É comandada pelo cientista de dados Jonatas Varella. A ideia é que essa diretoria ganhe nova vida no formato de um “spin-off” dentro de uma holding da Quaest. Com isso, disse Nunes, a área de pesquisa passaria a ter inteligência de um lado e produtos e tecnologia de outro.
“Para que essa operação escale com mais velocidade, a gente deve buscar recursos, a gente deve buscar um parceiro”, afirmou Nunes.
Segundo ele, três propostas anteriores feitas por interessados em se tornar sócios não vingaram porque, de alguma forma, tirariam parte de sua independência na condução da Quaest.
A empresa tem cinco sócios. Nunes detém cerca de 90%. Renata Salvo, diretora de projetos e casada com Nunes, é uma das sócias. Os dois estão juntos no negócio desde o início. Guilherme Russo, diretor de inteligência, o cientista político Fernando Meireles e Jonatas Varela são os outros sócios.
Criada em Belo Horizonte, a Quaest tem hoje quase 300 funcionários na capital mineira, em Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Rio, Cuiabá, Brasília, Salvador, João Pessoa, Recife, Fortaleza e Manaus.
Em 2021, veio uma virada na empresa, quando passou a publicar pesquisas nacionais. Foi quando a Genial Investimentos firmou uma parceria para uma produção periódica de pesquisas. As eleições de 2022 foram o primeiro grande teste de Nunes, e suas pesquisas entraram no rol das tidas como referência no processo eleitoral.
Naquele ano, novos clientes passaram a procurá-lo. “Em 2022, as empresas nacionais começam a me enxergar e foi quando a gente começou a se transformar de um instituto de pesquisa para uma casa de inteligência”, disse.
É como Nunes gosta de definir a Quaest. Ele disse que sua empresa não é um instituto de pesquisa tradicional, não é nem uma empresa só de consultoria, não é uma agência de comunicação, tampouco uma gestora de crise. “É uma casa de inteligência que conecta tudo isso.”
“Eu fui percebendo que as marcas passaram a demandar um conhecimento sobre o Brasil que não era simplesmente do comportamento de marketing, de consumo tradicional”, afirmou Nunes. “Elas passaram a querer entender como é que as decisões, produtos, cores, escolhas, slogans, como é que tudo isso ressoava nesse país polarizado e radicalizado.”
Uma de suas missões, disse, é orientar campanhas, narrativas, posicionamentos das empresas, e ajudá-las a evitar “cascas de banana” na relação com consumidores.
“Em muito pouco tempo, a gente, que era um instituto que fazia só pesquisa eleitoral, se tornou essa casa que cuida das marcas brasileiras.” Empresas do varejo, de telefonia, de cosméticos, construtoras, bancos e siderurgia estão entre as que já são atendidas.
A Quaest continua também muito atuante na sua área de origem: pesquisas políticas. Nestas eleições, vai se dedicar a um contrato que firmou com a Globo e seguirá fazendo também pesquisas para o mercado financeiro.
Mas as pesquisas para empresas continuarão ganhando destaque. “Ao celebrar esses dez anos, a gente está olhando para a ampliação dessa oferta de soluções para ajudar empresas a compreenderem cada vez mais este país que está muito complexo.”
A companhia criou recentemente uma área dedicada ao desenvolvimento de soluções de IA. E tem usado o que batizou de Laboratório Sintético para testar, de forma muito mais rápida do que antes, a reação dos consumidores a posicionamentos das empresas ou a novos produtos, novas marcas.
Funciona assim: um grupo de consumidores é chamado a emitir opiniões sobre determinado produto que está para ser lançado. Suas opiniões são captadas numa pesquisa qualitativa. Essa primeira rodada com humanos serve de treino para agentes de IA registrarem as reações de cada participante. Nas rodadas seguintes, os agentes de IA são quem reage aos ajustes feitos no produto. É o feedback dos robôs que vai orientando as novas pesquisas qualitativas.
“Eu não preciso mais fazer 80 grupos de qualitativa. Eu posso ter oito e, a partir desses oito, eu consigo treinar os agentes que me ajudam a entender o que vem depois”, disse Nunes. De tempos em tempos, esse modelo híbrido precisa ser atualizado porque as opiniões dos humanos que treinaram a IA começam a mudar. “Então a gente faz uma nova rodada e atualiza os agentes.” Entre os atrativos desse modelo, estão custos mais baixos e prazos muito menores.
“Se metade desta última década foi focada em construir credibilidade nacional por meio de pesquisas na área política, e se nestes últimos três anos o foco foi deixar de ser um instituto de pesquisa e passar a ser apresentado como uma casa de inteligência, para os próximos anos a ideia é que a gente possa consolidar nossa atuação no mercado privado, porque ainda tem muito espaço para crescimento”, disse Nunes.
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