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08 de outubro de 2026 - 17:12

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Autoridade monetária prepara medidas para promover condições mais sustentáveis no crédito

O Banco Central (BC) vai adotar medidas para dar condições mais sustentáveis de oferta de crédito aos tomadores, disse a autoridade monetária em ata da última reunião do Comitê de Estabilidade Financeira (Comef), divulgada nesta quarta-feira (2). O BC afirmou que o endividamento continua pressionando a condição financeira de famílias e empresas.

O colegiado avalia que as ações estão sendo preparadas considerando a elevada participação das modalidades de crédito mais onerosas na composição da dívida das pessoas físicas (PF). As medidas buscam mitigação dos riscos associados a essa dinâmica, de forma a fortalecer a sustentabilidade do crédito e a resiliência do sistema financeiro.

“Essas medidas visam promover o reconhecimento tempestivo dos riscos, o acúmulo gradual de capital e condições mais sustentáveis de oferta de crédito aos tomadores”, disse a ata.

O endividamento das famílias permanece em patamar historicamente alto, e o comprometimento de renda atingiu o maior nível da série histórica. O endividamento das famílias em relação à renda acumulada dos últimos doze meses foi de 49,75% em junho ante 48,82% do mesmo período de 2025, conforme dados do BC. O cálculo é feito com base na Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias (RNBF). A série histórica da estatística começou em 2005, e mede a disponibilidade de recursos da população brasileira com base nos ganhos financeiros com trabalho, ajudas do governo, rendas de aluguel, por exemplo.

O comprometimento de renda das famílias – relação percentual entre o valor médio estimado para o pagamento do serviço das dívidas das famílias e a RNDBF – subiu para 28,9% em junho depois de subir 0,4 ponto percentual (p.p.) ante junho e 1,7 p.p. em 1 ano.

“Esse quadro segue sendo influenciado pela participação relevante de modalidades de crédito mais onerosas na composição da dívida das famílias. Na visão do Comitê, o cenário requer cautela e diligência adicionais no mercado de crédito”, disse o BC.

Do lado das empresas, o BC disse que parte das corporações demonstra resiliência, mas observou-se redução no número de empresas com aumento do lucro líquido. A autoridade monetária também identificou um aumentou do número de pessoas jurídicas (PJ) com elevação da despesa financeira líquida.

“Níveis elevados de ativos problemáticos e de probabilidade de default seguem indicando que a materialização de risco no crédito às empresas e às famílias deve permanecer elevada”, disse.

Testes de estresse

Testes de estresse indicam que o Sistema Financeiro Nacional permanece resiliente, segundo a ata do Comef. A avaliação foi realizada mesmo com um impacto “mais severo” de uma quebra de confiança no regime fiscal.

Segundo a ata, o comitê segue atento à evolução dos cenários doméstico e internacional e preparado para atuar, de forma a minimizar eventual contaminação desproporcional sobre os preços dos ativos locais. “O Comitê segue entendendo que políticas macroeconômicas que aumentem a previsibilidade fiscal, que reduzam os prêmios de risco e a volatilidade dos ativos contribuem para a estabilidade financeira e, consequentemente, melhoram a capacidade de pagamento dos agentes”, disse o BC.

Para a autoridade monetária, os testes de estresse indicam que o sistema permanece resiliente e apresenta condições de absorver os impactos simulados nos testes de estresse. “O impacto mais severo continua sendo o observado no cenário de quebra de confiança no regime fiscal”, afirmou o BC.

Para o BC, os níveis de capitalização e de liquidez do SFN mantiveram-se superiores aos requerimentos prudenciais. Tanto o capital quanto os ativos líquidos permanecem suficientes para absorver potenciais perdas nos cenários estressados e cumprir a regulamentação vigente.

“Embora a rentabilidade tenha continuado pressionada pelo aumento das provisões, o impacto foi menos intenso do que no trimestre anterior. Ao mesmo tempo, a nova dinâmica de realização do ativo fiscal diferido demanda maior atenção à gestão de capital”, disse o BC.

Para a autoridade monetária, as provisões no SFN mantiveram-se compatíveis com as estimativas de perdas esperadas. O BC enfatiza que, em termos individuais, há instituições financeiras com provisões inferiores às estimadas pelo BC, mas o nível de capitalização é suficiente para absorver eventuais ajustes na grande maioria dos casos.

Segundo a ata, o crédito bancário seguiu desacelerando. No segmento de pessoas físicas (PF), o crescimento do crédito arrefeceu nas modalidades de maior risco, mas não o suficiente para reduzir a participação dessas modalidades no comprometimento de renda das famílias. O crescimento do crédito às empresas também arrefeceu, sobretudo na carteira de micro, pequenas e médias empresas. O mercado de capitais também desacelerou, mas segue crescendo em ritmo superior ao do crédito bancário.

Condições financeiras globais

O cenário global prospectivo ainda apresenta alguns riscos latentes, disse o BC na ata do Comef. A autoridade monetária avalia que, depois da materialização de riscos geopolíticos, da reprecificação e da recuperação de algumas classes de ativos financeiros globais, as incertezas permanecem.

Os riscos decorrem sobretudo dos eventos geopolíticos, do reposicionamento das políticas econômicas, das perspectivas de retorno dos investimentos em inteligência artificial e dos seus impactos sobre os ritmos de crescimento da atividade e da inflação.”Somam-se a essas incertezas aquelas relacionadas aos níveis de equilíbrio das taxas de juros no longo prazo, à sustentabilidade fiscal de economias centrais e à valorização dos ativos de risco”, disse o BC.

De acordo com a autoridade monetária, o sistema financeiro internacional tem demonstrado resiliência diante da sobreposição de choques globais e do acúmulo de seus efeitos. As condições financeiras globais tornaram-se marginalmente mais restritivas desde de a reunião anterior do Comef. “A aceleração de investimentos associados à digitalização e à inteligência artificial, as alterações no ambiente de políticas econômicas e a continuidade do conflito no Oriente Médio têm levado a revisões nas expectativas de inflação e nas trajetórias fiscal e monetária”, disse a ata.

Para o colegiado, a elevação das taxas de juros de longo prazo e as flutuações acentuadas das moedas de algumas economias avançadas aumentam a “probabilidade de materialização de eventos adversos”.

Persistem as incertezas e os riscos de uma interação entre os efeitos do atual choque de oferta e as vulnerabilidades financeiras preexistentes. “O cenário ainda requer atenção”, alertou.

O BC avalia que a liquidez global permanece elevada e tem contribuído para uma dinâmica positiva dos ativos e do apetite ao risco, inclusive em economias emergentes.

“Nos Estados Unidos, a inadimplência permanece elevada em diversas modalidades de crédito. Naquela jurisdição, o segmento de crédito privado continua crescendo, em associação com a aceleração dos investimentos no setor de tecnologia, ao mesmo tempo que se ampliam os riscos relacionados a essa expansão”, disse o BC.

Na China, BC disse observar desaceleração do crédito bancário e menor rentabilidade dos bancos, em linha com a menor demanda por crédito em um ambiente de moderação da atividade econômica doméstica, enquanto os indicadores de adequação de capital sugerem resiliência.

A maioria das jurisdições manteve inalterados seus respectivos buffers contracíclicos de capital, enquanto quatro jurisdições os elevaram. O Comef decidiu que, dadas as condições atuais e as expectativas quanto ao cenário econômico, o ACCPBrasil continuará em 0%.

“Entre as 58 jurisdições avaliadas, 45 mantêm o buffer contracíclico ativado e 28 fazem referência à adoção do buffer neutro positivo, sistemática que prevê a manutenção de um nível mínimo de capital adicional contracíclico mesmo em períodos sem acúmulo significativo de riscos financeiros”, escreveu a ata.

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