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Crédito e dívidas devem ditar ritmo de desaceleração

por: Afonso Bazolli
em: Crédito
fonte: Valor Econômico
26 de outubro de 2026 - 17:12

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Ata do Copom destacou que “a evolução do mercado de crédito bancário com recursos livres é consistente com um quadro de desaceleração do crescimento”

O ritmo de desaceleração da economia dependerá em boa parte da redução da oferta de crédito; se os consumidores com dívidas em atraso quitarão ou não suas dívidas; e dos estímulos fiscais e parafiscais do governo. No primeiro caso, o crédito restrito é um freio em geral nas atividades econômicas; no segundo, há contenção do consumo das famílias, responsável por dois terços da demanda na composição do PIB e, no terceiro, eles mantêm as atividades econômicas à tona, mesmo com uma política monetária muito restritiva.

Com destaque na ata, o Copom diz que “a evolução do mercado de crédito bancário com recursos livres é consistente com um quadro de desaceleração do crescimento”. Há, no entanto, ainda um bom caminho em direção a uma contenção geral de crédito, que até agora ocorreu a conta-gotas. Dados do Boletim Macrofiscal da Secretaria de Política Econômica apontam que o fluxo de crédito (variação do saldo em doze meses sobre o PIB nominal) foi de 4,8% do PIB em julho de 2026, nível superior à média de 1,7% no período imediatamente anterior à pandemia. Segundo a SPE, porém, o impulso de crédito é negativo em 0,5 ponto percentual há 11 meses.

Segundo o Copom, houve redução nas categorias de longo prazo, enquanto os créditos com recursos direcionados “mantiveram trajetória de expansão para pessoas físicas, na linha do crédito imobiliário, e para empresas, sustentados pelas operações com fundos garantidores”. Esses fundos estão sendo mais usados pelo governo em época eleitoral para ampliar empréstimos e impedir que a economia perca muito fôlego às vésperas da troca de comando no Planalto.

O crescimento do endividamento de pessoas físicas é moderado se comparado a outros períodos, do ponto de vista da Fazenda. Quando se exclui o financiamento imobiliário, com inadimplência muito baixa (1,3%), o endividamento passou de 27,6% para 30,8%. “A ampliação estrutural do endividamento das famílias corresponde, em sua quase totalidade, a crédito habitacional”, segundo a SPE. “A carteira das famílias alongou-se e passou a contar com maior proporção de operações com garantia ao longo do período”. O problema são as 5 modalidades de crédito com taxas maiores que 100% ao ano, como as do rotativo do cartão (436,3%) e crédito pessoal não consignado sem garantias (130,1%), que compõem 10,8% do estoque de empréstimos com recursos livres para pessoas físicas, de R$ 500,4 bilhões. Há dessa forma, “um núcleo reduzido de crédito caro concentrando o encargo sobre a renda”.

É aí que os juros altos causam os maiores estragos, pelas dívidas já contraídas e não, segundo a SPE, por um aumento exagerado do endividamento. A inadimplência de pessoas físicas foi de 7,8% no crédito livre, com aumento de 0,9 ponto percentual em doze meses. O número parece comedido, mas abrange 84 milhões de pessoas em agosto, com R$ 348 bilhões de débitos em aberto, de acordo com a Serasa Experian.

O primeiro Desenrola, em que o governo dava garantias para renegociação de dívidas pelos bancos, envolveu R$ 53 bilhões de débitos em atraso de 15 milhões de pessoas, que caíram para R$ 25,5 bilhões. Encerrado há dois anos, foi incapaz de reduzir o número de pessoas que não conseguiam quitar seus compromissos. O Desenrola 2.0 renegociou R$ 28,37 bilhões, mas mesmo antes de encerrado, 3 em cada 10 operações já não estavam sendo pagas em dia, ou R$ 1,25 bilhão de R$ 3,3 bilhões renegociados (O Globo, 18-9).

Em modo eleitoral, o governo quer um novo programa, desta vez para eliminar dívidas antigas, limpando o nome dos devedores, comprando-as com grandes deságios (90% a 95%) das instituições financeiras. Apesar de lançado como perda nos balanços, a dívida não paga do consumidor continua existindo. Como praticamente metade das dívidas tem prazos superiores a 180 dias (risco H), a operação envolveria a grosso modo R$ 250 bilhões em débitos, que, com deságio máximo de 95%, significariam desembolso de R$ 14 bilhões.

Não se sabe como o governo seria ressarcido nem se o programa será lançado. É um péssimo sinal com risco moral duplo. Um, de que o governo no final salvará consumidores de seu descontrole financeiro, como já fez com as edições do Desenrola, e, depois, que assegurará a compra de créditos podres das instituições financeiras, desincentivando a expansão responsável do crédito. O resultado final é queda menor ou estabilização da capacidade de consumo das famílias e desaceleração menor.

Seria mais correto e barato fazer um ajuste fiscal que propiciasse uma queda rápida dos juros muito altos que o governo, o maior credor, paga, com endividamento elevado e crescente. O impulso fiscal, quanto a variação do gasto federal, ponderada pelos multiplicadores, adicionou ou subtraiu do crescimento em relação a um cenário em que o gasto apenas acompanhasse o PIB na definição da SPE, será de 0,8% do PIB em 2026 em um PIB de 2%, que seria de 1,2% em sua ausência. Poupados, esses recursos cumpririam com folga mesmo o teto da meta fiscal, de 0,5% do PIB.

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