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Há desaceleração no crédito no Brasil?

por: Afonso Bazolli
em: Crédito
fonte: Folha de São Paulo
26 de outubro de 2026 - 17:12

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O Peac é o mais novo retrato da esquizofrenia reinante na política macroeconômica brasileira

Enquanto o Banco Central joga água fria, o governo joga querosene no fogo

A ata do Copom divulgada nessa terça-feira (22) fala sobre uma desaceleração no mercado de crédito bancário, mas nota que “os créditos com recursos direcionados mantiveram trajetória de expansão para pessoas físicas, na linha do crédito imobiliário, e para empresas, sustentados pelas operações com fundos garantidores”.

Em outras palavras, os juros altos estão reduzindo o crédito, mas esse efeito é contrabalanceado pelo aumento do crédito direcionado, que depende do governo, não do BC.

O final desse parágrafo menciona um elemento pouco falado, as “operações com fundos garantidores”. O que é isso?

O Peac —Programa Emergencial de Acesso a Crédito— foi criado durante a pandemia, em junho de 2020. Tinha o objetivo de possibilitar o acesso ao crédito a empresas pequenas e médias.

O Peac funciona assim: o banco empresta dinheiro para a empresa com seus próprios recursos, mas uma parcela do risco de inadimplência é coberta pelo Fundo Garantidor para Investimentos (FGI), que é administrado pelo BNDES. Assim, o banco fica menos exposto ao risco e pode conceder crédito a empresas que talvez não o conseguissem sem essa garantia.

Como diz o nome, o Peac era um programa emergencial, criado para mitigar os efeitos da pandemia na economia.

A pandemia já acabou faz tempo.

E o Peac?

Para surpresa de ninguém, o Peac continua firme e forte.

Depois de algumas medidas provisórias e leis, esse programa passou a ter prazo de vigência indeterminado. Era provisório, virou permanente. Hoje atende empresas com faturamento anual de até R$ 300 milhões.

Assim, o crédito direcionado para pessoas jurídicas tem bombado. No início do ano, uma nota do BC mostrava um crescimento no crédito direcionado em 12 meses de 18,5%! E continua crescendo.

O Relatório do Banco Central de junho de 2026 mostra que a inadimplência na modalidade “outros créditos direcionados”, que inclui operações do Peac, está no ponto mais alto da série. Fácil concluir que na ausência das garantias várias dessas empresas não teriam crédito.

Eis a esquizofrenia da política macroeconômica vigente no Brasil.

Juros mais altos e aperto no crédito esfriam a economia, mas reduzem pressões inflacionárias; juros mais baixos e crédito mais solto aquecem a economia, mas pressionam a inflação. Em alguns momentos, o governo e o BC devem buscar aquecer; em outros, é apropriado esfriar.

No Brasil, não funciona assim. O Banco Central joga água fria enquanto o governo joga querosene no fogo.

A discussão por vezes parece supor que o crédito sob controle indireto do BC afeta inflação e PIB, mas os estímulos do governo ao crédito só afetam o PIB. Isso está errado. Ambos afetam inflação e PIB.

Dada a proximidade da eleição, esse não é o momento de discutir seriamente políticas públicas. A partir de novembro, vamos precisar falar sobre o Peac e o crédito direcionado.

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