
Pedido reúne oito empresas e mais de cinco mil credores, a maioria investidores pessoa física que compraram debêntures privadas; grupo atribui a crise à inadimplência
O Grupo Euro17 entrou com pedido de recuperação judicial na 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. O processo, obtido com exclusividade pelo NeoFeed, reúne oito empresas do grupo controlado por Ik Cavalcanti Albuquerque, entre elas a Euro Securitizadora e a Prime Euro Securitizadora, emissoras dos títulos. O passivo declarado é de R$ 1,72 bilhão, distribuído entre 5.034 credores.
No pedido, as empresas solicitam que a recuperação seja processada em consolidação substancial, com uma lista única de credores e um plano único para as oito companhias. E que todas as execuções, penhoras e arrestos movidos contra elas sejam suspensos por 180 dias.
Pedem ainda que os valores já bloqueados por credores em ações individuais sejam transferidos para uma conta vinculada à recuperação, além da proibição de despejos por aluguéis atrasados e de cortes de serviços essenciais.
Com sede na Faria Lima, centro financeiro de São Paulo, o negócio começou em 2017, com a própria Euro Securitizadora, que fazia desconto de duplicatas e concedia capital de giro a empresas. Depois da pandemia, segundo a petição, o grupo mudou o foco para o crédito pessoal às classes C e D, com uma plataforma de concessão 100% digital.
Em nove anos, afirma ter atendido mais de 1,5 milhão de clientes e intermediado mais de R$ 2 bilhões, em cerca de 500 mil contratos. Os empréstimos tinham taxa média de 18% ao mês e eram recebidos ao longo de 12 a 18 meses.
A expansão da carteira de crédito do grupo foi financiada “em sua quase totalidade” pela venda de debêntures privadas da Euro Securitizadora e da Prime Euro Securitizadora a cerca de 4 mil investidores pessoa física, ainda de acordo com o documento.
São R$ 1,28 bilhão em principal, distribuídos em 9.393 contratos, com remuneração média entre 1,62% e 1,66% ao mês e prazos de 12 a 48 meses. Em 73% do estoque, juros e principal só eram pagos de uma vez, no vencimento.
As debêntures eram privadas e vendidas diretamente a pessoas físicas por uma estrutura comercial própria, com gerentes contratados como pessoa jurídica. Os títulos eram subordinados e sem garantia real, sem agente fiduciário independente e sem FIDC para separar a carteira de crédito do balanço da securitizadora, como o NeoFeed revelou em agosto. Desde então, juízes passaram a determinar bloqueios de ativos ao identificar sinais de desestruturação patrimonial.
As captações de debêntures cresceram a uma média de 67% ao ano entre 2021 e 2025 e chegaram a R$ 500 milhões só no ano passado. Neste ano, a média mensal de novas captações caiu de R$ 41,7 milhões em 2025 para R$ 25,3 milhões no primeiro semestre e chegou a R$ 15,3 milhões em junho, o pior resultado desde 2023.
Do outro lado, há R$ 1,46 bilhão em debêntures a vencer, entre principal e rendimentos. Desse total, R$ 1,07 bilhão vence entre julho de 2026 e dezembro de 2027, o que dá cerca de R$ 74 milhões por mês só no segundo semestre deste ano.
Com todo o dinheiro novo destinado à fila de resgates, a concessão de crédito, principal fonte de receita do grupo, ficou “inviabilizada, na prática”. A empresa estima uma saída líquida de caixa de R$ 30 milhões a R$ 40 milhões por mês.
O grupo atribui a crise a dois fatores. O primeiro foi a alta da inadimplência da carteira de crédito pessoal, que, segundo a petição, levou cerca de 12 meses para ser normalizada e reduziu a margem disponível para pagar os debenturistas. O segundo, descrito como “de natureza exógena”, foi a crise do Banco Master.
De acordo com as empresas, o episódio abalou a confiança de toda a base de investidores. A parcela de debenturistas que pedia o resgate no vencimento, historicamente de 30% a 35%, chegou a 60% a 65% em alguns momentos. Para o grupo, a crise é “eminentemente financeira”, provocada pelo descasamento entre os prazos da captação e os da carteira, e não pela inviabilidade do negócio.
A crise contrasta com a imagem que o grupo cultivava até pouco tempo atrás. Segundo ex-funcionários ouvidos pelo NeoFeed, a Euro17 não parecia economizar esforços nem dinheiro para transmitir a imagem de uma instituição financeira em plena expansão.
Do luxo à RJ
Uma das apostas mais vistosas foi a loja-conceito na Avenida Faria Lima, equipada com um painel de LED importado da China que teria custado cerca de R$ 200 mil. O investimento parecia pouco coerente com o perfil dos clientes, que eram de menor poder aquisitivo, apontou um desses colaboradores. Neste mês, a proprietária do imóvel, que a petição aponta como sede do grupo, cobrou R$ 56.627,72 de aluguel vencido, além do IPTU, e ameaçou retomar o espaço.
O discurso também destoava dos números. Em agosto, quando o NeoFeed revelou os atrasos, a Euro afirmou em nota que mantinha “suas atividades em curso normal” e que a reestruturação planejada priorizava os investidores, “que serão os primeiros comunicados quanto aos próximos passos”. Dois dias depois, em comunicado a investidores, reconheceu dificuldade operacional.
O auge dessa fase foi a confraternização de fim de ano de 2025. A Euro17 escolheu o então Allianz Parque, estádio do Palmeiras hoje rebatizado de Nubank Parque, para reunir seus colaboradores. A festa teve buffet, bebidas e atrações musicais, entre elas a escola de samba Rosas de Ouro e os grupos Turma do Pagode e Pixote.
Segundo ex-funcionários, o CEO da Euro17 Crédito, Marcelo Jubayr Carvalho da Silva, chegou a subir ao palco para cantar com uma das bandas. Poucos meses depois, a mesma companhia começaria a negar pedidos de menos de R$ 1 mil para pequenas ações internas, como a distribuição de chaveiros e garrafas.
Caminhos na Justiça
Por trás das portas, nem as próprias empresas demonstram clareza sobre as próprias contas. No primeiro pedido, segundo a decisão da juíza, o grupo alegou precisar de proteção judicial antecipada para “concluir auditoria contábil-financeira, reconciliar informações e estruturar adequadamente” a recuperação. A magistrada negou o pedido justamente porque, na mesma petição, o grupo afirmava já ter apresentado todos os documentos exigidos pela lei.
Na emenda, para justificar a consolidação substancial, os advogados afirmam que as oito empresas operam com fluxo financeiro unificado, “em que os caixas se confundem cotidianamente”, o que tornaria “impossível segregar contabilmente” a titularidade dos ativos sem “excessivo dispêndio de recursos e tempo”.
O próprio passivo de R$ 1,72 bilhão é apresentado como estimativa preliminar, “sujeito a retificação”, e o grupo não tem certidão negativa de débitos fiscais. Diz que negocia o parcelamento com o Fisco.
O caminho até aqui foi percorrido longe dos olhos dos credores. O grupo entrou na Justiça em 2 de outubro, ainda sem o pedido formal de recuperação, com uma ação cautelar que pedia a suspensão imediata de todas as cobranças por 60 dias e que o processo corresse em segredo de justiça.
Em 13 de outubro, a juíza Isadora Botti Beraldo Moro negou as duas coisas. Afirmou que a medida não pode ser usada “simplesmente como período de proteção patrimonial prévio à recuperação judicial” e que a publicidade é a regra nesse tipo de processo. Três dias depois, o grupo formalizou o pedido de recuperação.
Os credores, porém, só souberam da ação quase três semanas após a entrada, por meio de uma certidão de distribuição emitida em 21 de outubro, segundo petição apresentada nesta quinta-feira por Felipe Gosuen da Silveira, que representa 45 debenturistas no processo. “Cada dia de sigilo é um dia subtraído do exercício de direitos que a lei lhes assegura”, escreveu o advogado.
A advogada empresarial Mariana Zonenschein acrescenta que o pedido, sozinho, não blinda o grupo. “A Justiça negou a proteção antecipada pedida antes da recuperação, e o grupo voltou a pedi-la junto com o pedido principal, sem decisão até agora. Enquanto isso, cobranças e bloqueios continuam”, afirma.
Se a Justiça aceitar o pedido, as execuções ficam suspensas por 180 dias, prorrogáveis uma vez, um administrador judicial passa a fiscalizar a operação e a empresa tem 60 dias para apresentar o plano. Os investidores, por sua vez, terão 15 dias a partir da publicação do edital com a lista de credores para conferir se seus créditos constam e pelos valores corretos.
“Se se confirmar um quadro de operação residual, sem quadro de pessoal, a falência se torna o desfecho mais provável”, diz Zonenschein.
Procurados pelo NeoFeed, a Euro17 e o escritório F.Soares Advocacia Empresarial, que representa o grupo no processo, não responderam até o fechamento desta reportagem.
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