
Lei alterou aproveitamento fiscal de perdas acumuladas por bancos; em meio a outras mudanças e ao ambiente de juros altos, mercado tem se mostrado menos ativo nas operações massificadas
As vendas de carteiras de créditos inadimplentes dos quatro maiores bancos do país, Santander, Itaú, Bradesco e Banco do Brasil (BB), caíram 64,6% no primeiro semestre de 2026, para R$ 4,1 bilhões, ante R$ 11,6 bilhões no mesmo período do ano passado, segundo levantamento feito pelo Valor a partir dos balanços e relatórios gerenciais das instituições.
A retração coincide com uma nova etapa da Lei 14.467, que entrou em vigor em janeiro e alterou o aproveitamento fiscal de perdas acumuladas pelos bancos. Somada às mudanças contábeis e tributárias iniciadas em 2025, aos juros elevados e à deterioração das perspectivas de recuperação dos créditos, a nova realidade tem reduzido os incentivos para a venda de carteiras com grandes descontos. O resultado é um mercado menos ativo nas chamadas operações massificadas, as volumosas carteiras de pessoas físicas, e mais voltado à negociação de dívidas individuais de empresas e a estruturas sofisticadas de recuperação.
A Caixa Econômica Federal, terceira maior instituição financeira do país em ativos, não divulga separadamente, nas demonstrações financeiras semestrais examinadas pelo Valor, o volume de carteiras de créditos já baixados para prejuízo vendidas a terceiros.
“No caso do mercado massificado, houve um pé no freio realmente muito forte no mercado comprador como um todo”, afirma Eduardo Martins, sócio-diretor da MGC Holding, dona da Crediativos e maior empresa independente (não vinculada a bancos) especializada na compra de direitos creditórios e na gestão de recuperação de créditos em atraso do país.
A retração, porém, não foi uniforme. O Santander, que havia vendido R$ 6,54 bilhões em carteiras baixadas a prejuízo no primeiro semestre de 2025, negociou apenas R$ 128,7 milhões no mesmo período deste ano, queda de 98%. No Bradesco, o volume passou de R$ 605,6 milhões para R$ 24,7 milhões, recuo de 95,9%. No BB, as cessões diminuíram 79,1%, de R$ 2,67 bilhões para R$ 558,8 milhões.
O Itaú seguiu na direção contrária. As vendas de carteiras em prejuízo aumentaram 88,8%, de R$ 1,8 bilhão para R$ 3,4 bilhões. Com isso, o banco passou a responder pela maior parte das cessões realizadas pelas quatro instituições no primeiro semestre de 2026.
Os valores representam o montante dos créditos já baixados a prejuízo que foram transferidos pelos bancos, e não o dinheiro recebido nas operações. São dívidas que as instituições já reconheceram como perdas, mas que ainda podem gerar alguma recuperação, seja por cobrança própria, seja pela venda a investidores.
Na avaliação de Martins, a piora das perspectivas de recuperação das dívidas está relacionada ao endividamento das famílias, ao comprometimento da renda e à expectativa de novos programas de renegociação, como o Desenrola 2.0.
Julio Queiroz, sócio da área de soluções de estrutura de capital do Veirano Advogados, afirma que a demanda por carteiras inadimplentes continua elevada, mas, com a dificuldade de conciliar preços, as negociações de créditos problemáticos e outras operações de situações especiais têm demorado mais neste ano.
Com a retração, a MGC, que, segundo Martins, destinava tradicionalmente cerca de 80% do capital à compra de carteiras massificadas e 20% à aquisição de créditos individuais, neste ano passou a direcionar 50% para cada segmento. A holding desenvolveu também outra frente de atuação neste ano: a cobrança de carteiras de terceiros.
Martins identifica ainda um terceiro movimento: o desenvolvimento de estruturas mais sofisticadas, em que bancos e investidores compartilham parte dos riscos e dos resultados futuros da recuperação. Em vez de vender uma carteira e transferir integralmente o risco ao comprador, os bancos participam de estruturas de securitização, inclusive por meio de fundos de direitos creditórios (FIDCs).
As mudanças nas regras tributárias e contábeis também contribuíram para reduzir as vendas de carteiras inadimplentes. Desde 2025, a Lei 14.467 permite aos bancos deduzir determinadas perdas para fins fiscais sem precisar vender as dívidas, diminuindo uma das vantagens da cessão. Ao mesmo tempo, novas regras de provisionamento alteraram a contabilização das perdas. Segundo Queiroz, com isso, os bancos passaram a considerar mais o preço oferecido pelos compradores e a possibilidade de recuperar os créditos por conta própria.
“O primeiro semestre foi mais devagar do que a gente imaginou. Mas o segundo vai ser bastante acelerado”
— Ricardo Marin
As mudanças, no entanto, não produzem efeitos idênticos em todos os bancos. A capacidade de gerar lucros tributáveis, o estoque de perdas acumuladas, o perfil dos créditos e a estratégia de cobrança de cada um influenciam a decisão.
Roberto Vianna, do Vieira Rezende Advogados, destaca que as instituições adotam estratégias distintas. No caso do Itaú, que controla a Recovery, uma das principais empresas de aquisição e recuperação de créditos inadimplentes do país, as operações seguem uma lógica mais oportunística e estratégica, e não necessariamente a necessidade de se desfazer de ativos.
Ele acredita que uma eventual queda dos juros poderá melhorar os preços oferecidos pelos compradores, compensando parte da redução dos benefícios tributários e ajudando o mercado a encontrar um novo equilíbrio.
Os próprios balanços mostram que o valor recebido varia bastante. No Bradesco, as vendas de R$ 24,7 milhões em créditos baixados a prejuízo renderam R$ 10,4 milhões no primeiro semestre, o equivalente a 42,2% do valor negociado. No BB, os R$ 558,8 milhões em carteiras cedidas proporcionaram recuperação de R$ 258 milhões, ou 46,2%. Vale lembrar que a idade das dívidas, as garantias, a possibilidade de cobrança e a composição das carteiras podem alterar significativamente o valor.
No BV, o valor recebido pela venda de carteiras correspondeu a apenas 3% do valor presente no primeiro semestre, de acordo com o balanço do banco. A instituição recebeu R$ 33,7 milhões por créditos avaliados em R$ 1,12 bilhão. Em todo o ano de 2025, essa proporção havia sido de 9,9%, com R$ 106,7 milhões recebidos por carteiras de R$ 1,08 bilhão.
O BV atribuiu a queda principalmente à mudança no perfil dos créditos negociados, com maior concentração de dívidas em atraso há mais tempo e menor expectativa de recuperação, embora afirme que os juros também influenciam os preços oferecidos pelos compradores. O banco afirmou que não alterou sua estratégia de recuperação, que combina cobrança, renegociação, recuperação de garantias e venda de créditos. No segundo semestre, informa que já fechou duas operações de cessão de carteiras e continuará avaliando novas transações de forma seletiva.
Os advogados Roberto Panucci e Diogo Nebias, do escritório Panucci, Severo e Nebias, veem um amadurecimento, “dos dois lados da mesa”. Segundo cálculo dos dois, Bradesco, Itaú, Santander e BB venderam, juntos, R$ 22,4 bilhões em carteiras em 2023, R$ 25,5 bilhões em 2024 e R$ 28,3 bilhões em 2025. O volume de 2025 foi o maior dos três anos e criou uma base elevada de comparação.
No Bradesco, a recuperação própria de créditos já baixados a prejuízo aumentou 27% no primeiro semestre deste ano, de R$ 2,72 bilhões para R$ 3,45 bilhões, segundo o levantamento de Panucci e Nebias a partir das demonstrações financeiras do banco.
Em resposta ao Valor, o BB atribuiu a redução das vendas à estratégia de manter uma carteira de crédito com melhores garantias e intensificar a recuperação das dívidas por meios próprios, incluindo renegociações, execução de garantias e processos judiciais.
Segundo o BB, a recuperação de perdas chegou a quase R$ 2 bilhões no segundo trimestre, alta de 51,4% em relação ao primeiro. A instituição informou ainda que R$ 15,5 bilhões em créditos foram encaminhados à cobrança judicial no primeiro semestre.
O Itaú afirmou que utiliza a cessão de carteiras, inclusive as já baixadas a prejuízo, como ferramenta de gestão de ativos e recuperação de crédito. Segundo o banco, as operações são realizadas sem coobrigação, e os volumes variam conforme as condições de mercado e as características de cada portfólio, sem seguir uma trajetória linear.
Já o Bradesco informou que segue com sua estratégia de recuperação de crédito e que eventuais vendas de carteiras são analisadas sob a ótica do custo de oportunidade. O Santander não respondeu ao pedido de comentários do Valor.
Apesar da desaceleração no primeiro semestre, a expectativa é de recuperação na segunda metade do ano. Ricardo Marin, sócio de soluções de M&A da Deloitte, acredita que o volume de cessões poderá alcançar os R$ 52,3 bilhões projetados em pesquisa realizada pela consultoria no início do ano, o que representaria um crescimento de 73% sobre os R$ 30,2 bilhões negociados em 2025 pelos participantes do levantamento. “O primeiro semestre foi mais devagar do que a gente imaginou que seria. Mas o segundo semestre vai ser bastante acelerado”, afirma. Segundo ele, algumas instituições passaram a negociar carteiras menores e mais selecionadas, levando em consideração os efeitos contábeis e fiscais de cada operação.
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