
Por: Danylo Martins
Cartão de crédito, cheque especial, financiamento imobiliário e de automóveis. São esses os principais vilões das famílias de alta renda. Sim, os endinheirados também têm dívidas. O aumento na oferta de crédito e o acesso a limites maiores para financiar bens, como imóvel, carros, barcos e aeronaves são fatores que estimulam o endividamento na camada mais alta da pirâmide financeira no Brasil. De acordo com a Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), feita pela Confederação Nacional do Comércio de Bens e Serviços (CNC) com 18 mil consumidores, o percentual de famílias endividadas com renda acima de dez salários mínimos ficou em 53,4%, acima dos 51,1% do mesmo ano passado.
Mas o que leva o rico a contrair dívidas? Para Fabiano Calil, especialista em gestão de riquezas e psicanalista, o grande vilão é a própria pessoa. “Não conheço ninguém de alta renda que tenha esse controle”, diz. Não colocar um freio no impulso e no desejo de ter cada vez mais traz problemas para as famílias de alta renda. “Quem é mais rico acha que precisa comprar um carro para todos os filhos”, diz Vera Rita de Mello Ferreira, professora da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi) e consultora de psicologia econômica.

Segundo Vera Rita, o medo de perder, conhecido na área de psicologia econômica como aversão à perda, faz com que a pessoa corra mais riscos do que ela poderia. “Estar endividado está muito ligado com a perda de identidade. A maneira como a pessoa vai enfrentar isso é difícil. Enquanto ela consegue empurrar com a barriga, ela empurra”, afirma. Segundo os especialistas, a manutenção do status de riqueza é um dos pontos que provoca o endividamento entre os abastados, tornando-os, em muitos casos, inadimplentes.
Lidar com as dívidas é algo trabalhoso emocionalmente para todas as classes sociais. No caso dos ricos, fazer parte de uma determinada faixa de renda dificulta ainda mais esse relacionamento com os débitos. “Quando a pessoa tem muito dinheiro, ela não quer acabar com os sinais exteriores de riqueza. Por exemplo, a pessoa se recusa a mudar de um apartamento mais caro de manter para outro mais barato”, diz a professora. Isso se reflete em certa dose de otimismo e autoconfiança, que produzem a sensação de que as dívidas serão resolvidas de qualquer jeito.
De acordo com Marianne Hanson, economista responsável pela pesquisa da CNC, diferentemente das famílias de menor renda, que têm nos carnês um dos principais focos de endividamento, os endinheirados optam por financiamentos mais longos para comprar carros e imóveis. “Isso faz com que eles se comprometam por mais tempo com essas dívidas”, diz. O consultor financeiro Augusto Saboia engrossa a opinião de que, quanto maior a renda, maior a possibilidade de buscar itens mais caros. “A pessoa recebeu um aumento, uma promoção, e já vai comprar um carro. E também acaba buscando um apartamento com alto custo de manutenção. O grande problema é que está construindo um padrão de vida acima do que ela pode”, diz.
Na visão de Saboia, os brasileiros têm hábitos financeiros bem diferentes em relação aos americanos. “O americano corta a grama da própria casa e o brasileiro acaba contratando serviços. Na cabeça do brasileiro, antes ele era um cidadão comum, agora é um cidadão comum com dinheiro. Ele não sabe quais as responsabilidades da riqueza”, ressalta. Achar que o capital financeiro é infinito faz com que as pessoas gastem sem perceber. “Está entrando menos dinheiro com os negócios da empresa, mas a pessoa continua gastando”, diz a professora Vera Rita.
Outro fator que leva ao endividamento nas famílias de alta renda é a chamada remuneração variável, como bônus, stock options e participação nos lucros da empresa. “Renda variável significa despesa variável, o que gera maior consumo de bens. No terceiro ano, a renda fixa passa a não ser mais suficiente. Aí entra a procura por crédito, o que faz com que a pessoa comece a se enforcar”, destaca Calil. A evidência de que a remuneração extra foi recebida por meses consecutivos provoca a falsa sensação de continuidade.
Apesar do maior endividamento, a inadimplência no universo das famílias de alta renda mantém-se baixa. A explicação está no tipo de crédito tomado, como o financiamento de imóveis ou veículos. “São modalidades com risco menor e prazos mais longos”, diz Marianne, da CNC. A última pesquisa da Boa Vista Serviços, administradora do Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC), mostra que a inadimplência atinge somente 2% das 1.116 pessoas ouvidas. “Notamos que a ocorrência é muito baixa e isso vem acontecendo nos últimos dois anos para pessoas com renda acima de dez salários mínimos”, diz Fernando Cosenza, diretor de inovação e sustentabilidade. Já na faixa de renda de até três salários mínimos, o percentual de inadimplentes chega a quase 60%.
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