
Novo modelo eletrônico, liderado pelo Banco Central, cria infraestrutura nacional de registro e interoperabilidade, amplia a concorrência entre financiadores e pode reduzir de forma estrutural o custo do crédito para empresas
A duplicata escritural avança como uma das mudanças mais estruturais do mercado de crédito corporativo brasileiro nas últimas décadas. Mais do que uma simples digitalização de um título tradicional, o novo modelo representa a criação de uma infraestrutura nacional de registro, interoperabilidade e concorrência, com potencial de destravar trilhões de reais em crédito, reduzir assimetrias de informação e pressionar o custo financeiro para baixo.
Segundo estimativas divulgadas pelo Banco Central do Brasil, o universo potencial de duplicatas no País ultrapassa R$ 11 trilhões por ano, envolvendo algo entre 2 e 3 milhões de empresas. Apesar desse volume expressivo, apenas uma fração desse montante é hoje efetivamente utilizada em operações de crédito, como antecipação de recebíveis, desconto de duplicatas e capital de giro. O gargalo histórico sempre esteve na falta de padronização, transparência e segurança jurídica do título físico.
É nesse contexto que a duplicata escritural surge como peça-chave da agenda de modernização financeira conduzida pelo Banco Central, alinhada a outras iniciativas como o Pix, o Open Finance e a digitalização de garantias.
No modelo tradicional, a duplicata física circula entre empresas, bancos e investidores com alto grau de fricção operacional. Processos manuais, risco de duplicidade, fraudes documentais e dificuldade de verificação do lastro sempre limitaram a escala do instrumento.
Com a duplicata escritural, o título deixa de existir em papel e passa a ser registrado eletronicamente em entidades autorizadas, as registradoras. Esse registro passa a concentrar informações essenciais como valor, vencimento, emissor, sacado, manifestações de aceite ou recusa e eventuais negociações com instituições financeiras.
Na prática, isso cria um livro único do recebível, acessível aos participantes autorizados do sistema, reduzindo drasticamente riscos operacionais e jurídicos.
Impactos diretos para fornecedores
Para os fornecedores, que são os emissores da nota fiscal e detentores do crédito, o principal impacto está na necessidade de integração tecnológica. As informações que antes ficavam restritas aos sistemas internos passam a precisar de consistência absoluta com o que é registrado nas registradoras.
Qualquer divergência entre valor, vencimento ou condições comerciais pode resultar em recusa da duplicata pelo sacado, prejudicando sua antecipação junto a bancos ou fundos. O efeito prático é direto sobre o capital de giro.
“Com a duplicata escritural, erros que antes eram resolvidos bilateralmente passam a ter impacto sistêmico. Isso exige das empresas uma gestão muito mais rigorosa dos dados”, explica Roberta Ferraz, diretora de novos negócios da Monkey.
Segundo a executiva, o processo também altera a cultura operacional das áreas financeiras. “Não se trata apenas de registrar um título. Estamos falando de governança de dados, integração de sistemas e padronização de processos. Quem não investir nisso pode enfrentar dificuldades para acessar crédito em condições competitivas.”
Além disso, o fornecedor passa a conviver com um novo ator no processo: a registradora, que se torna parte estrutural da cadeia de contas a receber.
Do lado do sacado, a transformação também é profunda. As empresas precisarão manifestar aceite ou recusa das duplicatas registradas contra si e acompanhar todo o ciclo de vida desses títulos, incluindo eventuais antecipações feitas por seus fornecedores junto a terceiros.
Esse controle passa a ser crítico para evitar pagamentos indevidos, atrasos ou conflitos de informação. Em companhias com grande base de fornecedores, o volume de dados tende a crescer de forma exponencial.
“Para o sacado, a duplicata escritural representa mais transparência, mas também mais responsabilidade. A manifestação tempestiva passa a ser determinante para evitar disputas e impactos reputacionais”, afirma Roberta.
Para bancos e financiadores, a duplicata escritural altera a lógica competitiva do crédito corporativo. Se, por um lado, há novos custos de integração e interoperabilidade entre registradoras, por outro, o mercado se torna mais transparente e acessível.
Com os recebíveis visíveis no sistema, a concorrência aumenta. Instituições que antes tinham relações quase exclusivas com determinados clientes passam a disputar operações com outros players, inclusive fintechs e fundos.
Na visão do mercado, isso tende a gerar redução de inadimplência, melhor precificação de risco e compressão das taxas cobradas das empresas.
“A grande mudança é que o crédito deixa de ser concentrado na relação histórica entre empresa e banco. Com o recebível registrado e validado, diferentes financiadores podem competir pelo mesmo ativo, o que tende a pressionar taxas e ampliar liquidez”, avalia a diretora da Monkey.
A resposta tecnológica da Monkey
Diante dessa nova arquitetura, a Monkey vem desenvolvendo um ecossistema de soluções para atuar como hub de integração entre empresas, instituições financeiras e registradoras.
A companhia já concluiu a integração com as três principais registradoras do país e está desenvolvendo plataformas específicas para cada elo da cadeia: contas a receber, contas a pagar e instituições financeiras.
No caso dos fornecedores, a proposta é centralizar a escrituração e a gestão das duplicatas em um único ambiente, com visibilidade sobre manifestações, aprovações, recusas e acesso a múltiplos financiadores. Para os sacados, a solução permitirá controlar tudo o que foi emitido contra a empresa, identificar antecipações e organizar a liquidação dos títulos. Já para os bancos, a plataforma oferece gestão de portfólio, oportunidades de crédito e registro das operações de forma interoperável.
“As empresas não querem apenas cumprir uma exigência regulatória. Elas querem transformar a duplicata escritural em vantagem competitiva, com mais previsibilidade de caixa e acesso ampliado a funding”, diz Roberta.
A experiência da Monkey no Chile é um diferencial estratégico nesse momento de transição, além de mostrar a importância de programas de Risco Sacado com esse novo modelo. No mercado chileno, onde o registro eletrônico de faturas já é realidade há anos, a Monkey participou da estruturação e operação de soluções que conectam empresas e financiadores em ambiente digital integrado, e que veem ainda mais benefício no produto, usando a transparência como etapa adicional de segurança do processo.
“Já vimos em outros mercados que, quando a infraestrutura de registro amadurece, o crédito se expande de forma consistente e mais segura. O Brasil tem potencial para replicar esse movimento em escala muito maior”, completa a executiva.
Atualmente, o sistema está em fase de testes coordenados pelo Banco Central, envolvendo registradoras, bancos e provedores de tecnologia. A expectativa do mercado é que as operações em produção comecem ainda no primeiro semestre deste ano, enquanto a obrigatoriedade do uso da duplicata escritural está prevista para o primeiro trimestre de 2027.
Nesse intervalo, cresce a demanda por orientação e preparação. Segundo a Monkey, o tema passou de algo pouco compreendido para uma pauta recorrente entre empresas e instituições financeiras, com consultas semanais sobre cronograma, impactos e requisitos técnicos.
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