
Dos que ganham acima de 10 mínimos, 12,8% gastam mais de 50% da renda para rolar dívidas
A fatia de superendividados de classe média e de classe média alta registrou, em novembro, o maior patamar em oito meses, segundo estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), elaborado para o Valor. O levantamento foi produzido a partir de recorte da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) da CNC.
Nos dados selecionados, a fatia de consumidores que tem renda mensal acima de dez salários mínimos (mais de R$ 15.180) e que estão com mais de 50% da renda comprometida com dívidas foi de 12,8% no mês passado. O patamar ficou acima de outubro deste ano (12,6%) e foi o maior desde março (13,4%).
O superendividamento ocorre, segundo a CNC, quando a pessoa acumula dívidas equivalentes a mais de 50% da renda e não tem capacidade suficiente de fazer frente aos compromissos. O efeito tende a ser pior para classes de renda mais baixas, que têm menos margem de manobra, do que para as faixas de renda mais altas, cuja capacidade de renegociação é maior. O problema é que mesmo “rolando” a dívida o problema é empurrado para a frente, sem solução definitiva.
Na média para todas as faixas de renda, na pesquisa da CNC, a fatia de endividados com mais da metade da renda comprometida com dívidas caiu de 19,1% para 18,8% de outubro para novembro. Quem puxou esse recuo foram endividados com renda mensal inferior a dez salários mínimos mensais. Nessa faixa de renda menor, a parcela daqueles com mais de 50% do rendimento comprometido com dívidas caiu de 20,4% para 20%, no período. Mas a fatia daqueles com renda superior a dez salários mínimos mensais e com mais de metade da renda destinada a pagar empréstimos mostrou alta persistente de outubro para novembro.
Especialistas ouvidos pelo Valor alertam que o superendividamento é preocupante para o mercado de crédito em 2026. Isso porque superendividados têm poucas chances de se livrar dos débitos, sendo adeptos, na maioria das vezes, justamente da “rolagem de dívidas”. Nesses casos, o refinanciamento do empréstimo alonga o prazo de pagamento mas, quando renegociado em ambiente de juros elevados como o atual, a dívida fica mais cara e, por consequência, mais difícil de pagar. Um contexto que pode elevar a inadimplência, em horizontes de médio e longo prazos.
“O que precisamos resolver é a questão da concessão do crédito, que é expansionista”
— Ione Amorim
Fabio Bentes, economista-chefe da CNC e autor do recorte da Peic, disse que endividados com maior renda têm mais oportunidades de refinanciar os débitos. Assim, o superendividamento entre as classes média e média alta pode ter sido alavancado por maior oportunidade de empréstimos às pessoas com maior poder aquisitivo. “Quanto maior a renda, maior o acesso a crédito”, resumiu.
O custo de refinanciamento para superendividados, acrescenta Bentes, pode continuar elevado no ano que vem. A previsão se apoia na perspectiva de que os juros da economia real continuem altos, mesmo com expectativa de corte na taxa básica de juros (Selic) pelo Banco Central. “E o juro para a pessoa física, na média, já está em quase 60% ao ano”, acrescentou.
Desde setembro do ano passado, o Conselho de Política Monetária do BC (Copom) iniciou ciclo de aperto monetário, com sucessivas elevações na Selic, que hoje está em 15% ao ano, o maior patamar desde 2006. Assim como grande parte do mercado financeiro, Bentes aguarda cortes na Selic em 2026. Mas ele não espera reduções expressivas. “Nossa expectativa é que, no fim do ano que vem, tenhamos taxa de juros entre 12% e 12,5%, o que é muito alto ainda.”
Outro aspecto preocupante é que, aparentemente, os endividados com renda mais elevada têm perfis de dívidas que possuem juros mais elevados. Isso foi evidenciado em quesito da Sondagem do Consumidor da Fundação Getulio Vargas (FGV), elaborado pela economista da fundação Anna Carolina Gouveia, e referente a outubro. Naquele mês, 69,1% dos que se declararam endividados com renda mensal superior a R$ 9,6 mil citaram cartão de crédito como modalidade de dívida principal – o maior percentual entre as quatro faixas de renda pesquisadas.
Significa que, com dívidas mais caras, aqueles de renda mais elevada têm maior potencial para se tornarem superendividados, disse Gouveia. “Temos uma taxa de juros alta, em dois dígitos, e um nível de endividamento que piorou, principalmente depois da pandemia e desde então não conseguiu ceder muito”, resumiu. “As pessoas vão continuar pagando suas contas e a taxa de juros continuará alta, então elas vão acabar renegociando e aquelas dívidas não vão sumir de um dia para o outro. As pessoas vão continuar com patamar comprometido no orçamento por muito tempo”, disse.
Gouveia acrescentou que a parcela do orçamento familiar destinada a quitar débitos, em média, já está elevada. O BC informou que o comprometimento da renda mensal das famílias com pagamento de dívida foi de 28,8% em setembro (dado mais recente), maior patamar da série histórica.
Lauro Gonzalez, professor da FGV EAESP e coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV, acha difícil uma mudança rápida no quadro de superendividamento. Para ele, o cenário é complexo, alimentado por fatores macroeconômicos e comportamentais. Citou a pouca educação financeira no país, o que torna o tomador de empréstimo mais receptivo a se endividar mais. Classificou ainda o mercado de empréstimos brasileiro como “um ecossistema de crédito predatório”. Isso porque, no entendimento dele, há “exacerbada” expansão da oferta de crédito, “impulsionada até mesmo por programas sociais”. Gonzalez defendeu regulação maior, por parte do BC, para combater a oferta predatória de crédito.
Ao ser indagado sobre alternativas para tornar o quadro de superendividamento mais favorável, como ampliar faixas de renda que podem aderir ao “Desenrola Brasil”, programa que permitiu a renegociação de dívidas, Gonzalez foi cauteloso. Embora tenha classificado a iniciativa governamental como positiva, comentou que o programa não combate as causas do superendividamento: “Desde que ele seja reconcebido como um programa que ataque as causas do superendividamento, seria bem-vindo”, disse.
Enquanto isso não ocorre, o superendividado, principalmente o de classe média e média alta, tem que se voltar a instituições como o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), afirmou Ione Amorim, economista e consultora do programa de serviços financeiros da instituição, que também atua em renegociações das “superdívidas”.
Amorim também considerou o “Desenrola” insuficiente para melhorar o cenário de superendividamento no país. “O que precisamos resolver é a questão da concessão do crédito, que é expansionista, só cresce, e não é amparada pela capacidade de pagamento.”
Ela mencionou que a Lei do Superendividamento, em seu quarto ano, continua a enfrentar desafios. Uma das razões está no fato de os pilares fundamentais da legislação – tratamento coletivo do endividamento, prevenção de novas dívidas e aprimoramento da educação financeira; além de disciplina na oferta de crédito – não serem devidamente abordados no mercado de crédito: “O fato de não estarmos fazendo esses pilares principais da lei só tem contribuído para esse problema se tornar uma bola de neve”, disse. “Não diminuiu o superendividamento nos últimos quatro anos.”
E o próximo passo da bola de neve do superendividamento é a inadimplência, alertou Aline Maciel, diretora da Serasa Experian. Até outubro, a Serasa contabilizou recorde de 80 milhões de inadimplentes em sua base de dados, sendo que, em média, o inadimplente possui quatro dívidas por CPF.
Um desafio na resolução da inadimplência é a reincidência. Cerca de 50% dos que pagam as dívidas voltam a ficar inadimplentes, segundo a Serasa. Maciel disse que a educação financeira deveria ser “disciplina básica no colégio”. “Defendemos também [educação financeira] para pessoas que já passaram por isso [superendividamento e posterior inadimplência] para não reinciderem.”
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