
Com juros altos e endividamento recorde, fundos que operam fora do sistema bancário tradicional enfrentam avanço da inadimplência e revisam estruturas de proteção
O aumento da inadimplência voltou ao centro das atenções no mercado de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), com foco nas carteiras de crédito pessoal. A combinação de juros elevados, endividamento recorde das famílias e a expansão de concessões sem garantias vem pressionando a qualidade desses ativos, que se consolidaram como uma alternativa relevante ao financiamento fora do sistema bancário tradicional.
Crescimento e composição do setor
Os FIDCs operam por meio da aquisição de direitos creditórios como parcelas de empréstimos e recebíveis que são transformados em ativos financeiros. No caso do crédito pessoal, o risco é estruturalmente mais alto, já que as carteiras são compostas por empréstimos a pessoas físicas, muitas vezes sem garantias reais.
Segundo dados da Anbima, o patrimônio líquido da indústria de FIDCs já supera os R$ 500 bilhões, impulsionado pelo avanço do consumo e pela ampliação das fontes alternativas de crédito nos últimos anos.
Sinais de deterioração
O movimento reflete a piora nos indicadores macroeconômicos. Dados do Banco Central mostram que o comprometimento da renda das famílias com dívidas permanece acima de 25%, enquanto a inadimplência no crédito livre sobe desde o segundo semestre de 2024.
Embora o desempenho por segmento não seja detalhado individualmente em todos os relatórios, a percepção de gestores e casas de análise é clara: há um aumento nos atrasos e nos casos de inadimplência definitiva. Relatórios da CVM reforçam essa visão ao apontar um crescimento em:
Comunicados de desenquadramento;
Renegociações de cotas subordinadas;
Necessidade de reforço em provisões.
O fator ciclo econômico
Para Patrícia Maia, sócia do Barbosa Maia Advogados, a sensibilidade desses fundos ao atual ambiente econômico era esperada. “O crédito pessoal é, por natureza, mais sensível ao ciclo econômico. Quando os juros permanecem elevados por um período prolongado e a renda real das famílias não acompanha, a inadimplência aparece primeiro nesse tipo de carteira”, afirma.
Segundo a especialista, o estoque de crédito pessoal não consignado cresceu acima do PIB, ao mesmo tempo em que os atrasos superiores a 90 dias se intensificaram. O quadro é agravado por um efeito de seleção adversa. “Com os bancos mais cautelosos, parte do crédito migra para estruturas alternativas, que acabam absorvendo perfis mais arriscados”, diz.
Patrícia ressalta que a resiliência dos FIDCs depende diretamente da qualidade da estruturação. Mecanismos como subordinação adequada, gatilhos de performance e processos eficientes de cobrança e recuperação funcionam como barreiras à inadimplência. “O que estamos vendo é que, em alguns casos, essas salvaguardas foram subdimensionadas”, alerta.
Perspectiva de mercado
Apesar do cenário mais desafiador, o mercado não enxerga um risco sistêmico imediato. A avaliação predominante é de que o setor atravessa um ajuste de ciclo, que tende a separar estruturas bem governadas daquelas focadas apenas em crescimento acelerado. “O investidor passou a olhar menos para a taxa prometida e mais para a qualidade da originação e da governança do fundo”, conclui Patrícia.
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