
Queda da Selic marca o início do alívio, mas crédito segue caro, restrito e distante da realidade das empresas
ASelic caiu 0,25 ponto percentual na quarta-feira (18), para 14,75% ao ano, o primeiro corte em quase 24 meses. O mercado esperava mais, antes dos fatos que movimentaram o mundo nas últimas semanas. O Copom condicionou os próximos passos ao cenário externo, e com razão. No mesmo dia, o Federal Reserve manteve os juros americanos na faixa de 3,50% a 3,75% e revisou a inflação projetada de 2,4% para 2,7%. A guerra no Oriente Médio pressiona petróleo e combustíveis, contaminando preços em diversas frentes. Para quem empreende no Brasil, a mensagem é direta: o alívio, se vier, será lento.
O problema vai além da Selic. O custo do crédito no Brasil é uma construção em camadas. A taxa média no crédito livre chegou a 47,8% ao ano em janeiro de 2026, com spread bancário médio de 21,9 pontos percentuais. Esse spread embute inadimplência (quase 76 milhões de brasileiros estão negativados, e os bancos repassam essa perda estimada a quem paga em dia), concentração bancária, que reduz pressão competitiva sobre os juros, e um custo jurídico elevado: recuperar uma garantia no Brasil leva em média mais de 700 dias, o que encarece o prêmio de risco embutido na taxa. O resultado é um crédito que nasce caro, seletivo e hostil para quem precisa transformar capital em produção.
Mesmo quem aceita pagar caro frequentemente tem o crédito negado. Com a economia crescendo em ritmo modesto, bancos preferem emprestar ao governo, comprando títulos públicos com risco baixo, a correr o risco com pequenas e médias empresas. Para conseguir taxas minimamente aceitáveis, exigem garantias reais que boa parte do setor produtivo simplesmente não tem.
Quem não possui imóveis, recebíveis de cartão, aplicações ou equipamentos para oferecer como colateral fica refém de linhas com aval dos sócios ou de produtos mais caros, como cartão de crédito e cheque especial, cujos juros superam 400% ao ano. O juro alto, portanto, não apenas encarece o capital. Ele muda o comportamento das empresas. O planejamento estratégico cede lugar à gestão do vencimento. O foco das companhias brasileiras deixou de ser lucrar. Passou a ser pagar dívidas.
Os números confirmam. Estudos recentes com as 282 empresas listadas em bolsa mostram que quase uma em cada quatro já não consegue gerar caixa suficiente para pagar sequer os juros de suas dívidas. Segundo a Fitch, empresas com dívida equivalente a três vezes sua geração de caixa anual gastam 50% do que geram apenas para arcar com juros. Os casos do Grupo Pão de Açúcar e da Raízen, que anunciaram recuperação extrajudicial na mesma semana, ilustram o quadro. A Raízen busca renegociar cerca de R$ 65 bilhões, o maior pedido do tipo já feito no país.
A origem do problema não é nova. Entre 2020 e 2021, quando a Selic caiu a 2%, muitas empresas aproveitaram o crédito barato para contrair dívidas e financiar expansão. A inflação subiu, os juros dispararam, e o custo dessas dívidas explodiu. Nos últimos quatro anos, a Selic média ficou em 13%. Os reflexos aparecem nos tribunais: em 2024, o Brasil registrou 2.273 pedidos de recuperação judicial, recorde histórico, alta de 61,8% sobre 2023, sendo 74% de micro e pequenas empresas. Em 2025, o país encerrou o ano com 5.680 empresas em recuperação judicial, o maior patamar já registrado, 8,9 milhões de empresas inadimplentes e R$ 213 bilhões em dívidas negativadas.
Para o empresário na trincheira, o cenário exige disciplina. Gestão rigorosa do fluxo de caixa. Evitar descasamento entre prazos de recebimento e pagamento. Buscar alternativas ao crédito bancário tradicional, como linhas de crédito incentivado à inovação, fundos de direitos creditórios, operações com garantias estruturadas que ofereçam condições mais flexíveis.
Ciclos de juros altos funcionam como filtro. Expõem fragilidades de gestão e planejamentos feitos para um Brasil que não se realizou. Mas também premiam quem mantém a casa em ordem. A pergunta que todo empresário deveria se fazer hoje não é quando a Selic vai cair, mas se sua empresa está preparada para o intervalo entre o anúncio do corte e o momento em que esse corte chega, de fato, ao seu caixa.
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