
Com eleição, Selic elevada e inadimplência recorde, instituições apostam em serviços e gestão de patrimônio para proteger lucros
Ao divulgar os resultados de 2010 do JP Morgan, uma das maiores instituições financeiras do mundo, Jamie Dimon, o presidente do conselho de administração, afirmou que “bancos saudáveis são essenciais para uma economia saudável” e enfatizou que conceder bons empréstimos “é uma parte fundamental disso”. Na época, seu objetivo era lembrar os acionistas da dura lição ensinada pela implosão das hipotecas americanas em 2008, estopim da pior crise global desde a quebra da bolsa de Nova York em 1929. Construir uma carteira de crédito focada apenas em volume, e não em qualidade, é um mau negócio para todos. Dimon poderia acrescentar que o inverso também é verdadeiro: uma economia doente pode inocular o vírus da inadimplência em carteiras de crédito até então saudáveis. É por isso que os maiores bancos brasileiros adotaram a prudência como sua principal estratégia para 2026 — um ano que ainda será marcado por tensões geopolíticas, juro alto, famílias endividadas, menor crescimento da economia e aumento do desemprego e da dívida pública. No geral, as instituições devem frear os empréstimos e apostar mais na receita gerada pelos serviços prestados aos clientes. A Federação Brasileira dos Bancos estima que a concessão de crédito crescerá 8,4% neste ano, pouco abaixo dos 9% registrados em 2025.
Para os especialistas, não há dúvida de que a eleição presidencial será o fator de maior impacto no sistema financeiro ao pautar o mercado de juros futuros. A eventual vitória de um candidato pouco disposto a promover um ajuste fiscal que estabilize e, posteriormente, reduza a dívida pública pressionará os prêmios de risco exigidos pelos investidores para financiá-la. Isso dificultará o trabalho do Banco Central de baixar a Selic — algo que promete fazer a partir de março. Em contrapartida, se o próximo presidente da República demonstrar compromisso com a responsabilidade fiscal, o apoio do mercado abrirá espaço para queda maior do juro. Assim, os bancos captariam dinheiro mais barato para emprestar a indivíduos e empresas. “A eleição mexerá com o spread bancário e os custos dos empréstimos”, diz Eduardo Nishio, chefe de pesquisas da gestora Genial Investimentos. “Ela será um tema muito sensível para o setor financeiro neste ano.”
Até que os brasileiros elejam o próximo ocupante do Palácio do Planalto, em outubro, as instituições atuarão com parcimônia. O Itaú, por exemplo, espera que as receitas geradas por empréstimos — a chamada margem com clientes — cresçam de 5% a 9% neste ano. Para ter uma ideia da freada que isso representa, basta lembrar que em 2025 essas receitas aumentaram 12%. A instituição admite que o resultado pode melhorar, se o ambiente político ajudar. “Podemos rever nossas projeções, à medida que o cenário eleitoral se mostre menos volátil”, afirmou Milton Maluhy Filho, o executivo-chefe do Itaú, durante a divulgação dos resultados do ano passado.
Embora seja o elemento que mais preocupa os maiores bancos brasileiros neste ano, a política não é a única variável que pesa nos seus planos. As perspectivas da economia também contribuem para a cautela do setor, a começar pela taxa Selic. Na média, o mercado aposta que o juro baixará dos atuais 15% ao ano para cerca de 12% até dezembro. Isso até pode baratear um pouco o custo do dinheiro, mas não a ponto de destravar uma grande demanda por crédito. O próprio presidente do BC, Gabriel Galípolo, sublinha que a Selic permanecerá em um patamar “contracionista” pelo tempo necessário para trazer a inflação para o centro da meta de 3% estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional.
Por isso, as principais instituições financeiras apostam que a economia crescerá cerca de 1% neste ano, menos que os 2% estimados para 2025 — o resultado será divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística no início de março. A economia mais fraca tende a elevar o desemprego. Na média, os bancos calculam que a taxa de desocupação sairá dos atuais 5,1% — a menor da história — para 6%. Nesse ambiente, a concessão de crédito para empresas e famílias é desafiadora, ainda mais com os sinais negativos que o mercado já exibe. Segundo a Serasa, o Brasil encerrou 2025 com 81,2 milhões de endividados e 50% da população inadimplente, números recordistas. O ano também terminou com 5 680 empresas em recuperação judicial — outra marca histórica, de acordo com a Receita Federal.
O Banco do Brasil sentiu como poucos os impactos dos calotes no ano passado. A inadimplência geral de sua carteira chegou a 5,17% em dezembro, muito acima da média do mercado. Um ano antes, o índice era de 3,16%. O mau desempenho foi puxado pelo agronegócio, setor em que o BB contabilizou 6% de calotes. É verdade que o banco vacilou. Ao contrário da concorrência, o BB não exigia garantias reais para os empréstimos, tais como terras e maquinário, que poderiam ser executadas em caso de não pagamento. Assim, quando o dinheiro apertou, as empresas do agro optaram por quitar as dívidas que possuíam junto a outros bancos, que exigiam tais garantias, e deixaram o estatal na mão. Em 2026, os analistas esperam que o Banco do Brasil não cometa o mesmo erro. “A carteira de agronegócio (do BB) estará coberta por garantias até o fim do ano”, diz Ceres Lisboa, analista da agência de classificação de risco Moody’s. “Isso reduzirá o risco.” Mesmo assim, a recuperação é incerta. Segundo o BB, o crédito ao agro pode cair 2% neste ano.
Diante da esperada desaceleração da economia e das incertezas políticas, as instituições financeiras tendem a correr mais riscos ao emprestar dinheiro. “A chance de calote neste ano pode dobrar em relação a 2025”, diz Katherine Hennings, pesquisadora associada da Fundação Getulio Vargas. “Os bancos estão corretos em ser cautelosos com o crédito.” A solução será se concentrar nos segmentos mais seguros como créditos consignados lastreados na folha de pagamento de empresas privadas. Nesse segmento, o principal duelo envolverá o Itaú, atual líder em consignado privado, e o Banco do Brasil, que planeja conquistar ao menos 20% desse mercado.
Os grandes vencedores de 2026, no entanto, serão definidos em outro campo de batalha — o estrato de clientes de alta renda. Um dos principais atrativos dessa clientela é consumir mais serviços financeiros, tais como gestão de patrimônio, assessoria de investimentos e cartões de crédito com vantagens exclusivas. Para os bancos, isso permite aumentar as receitas de modo mais seguro. “Atender a alta renda gera ganhos sem o risco de inadimplência associado a um cenário econômico difícil como o atual”, diz Lisboa, da Moody’s.
Não será uma briga fácil, sobretudo para as instituições que não têm histórico robusto de atuação na área. “É um jogo difícil para quem entra agora nesse mercado, pois exige mais investimentos”, diz André Vasconcellos, professor da Trevisan Escola de Negócios. Segundo os especialistas, o Itaú é um dos fortes candidatos a vencer essa disputa. A base de clientes do Personnalité — sua marca para o público endinheirado — cresceu 15% no último ano. O banco planeja repetir o desempenho até dezembro. O BTG Pactual é apontado por analistas como outro rival de peso. Sua área de gestão de grandes fortunas, conhecida como wealth management, crescerá pelo menos 30% em 2026. O Bradesco, por sua vez, não pretende assistir passivamente à concorrência dividir o filé-mignon do mercado. Lançado no fim de 2024, a Principal, sua marca para a alta renda, encerrou o ano passado com 320 000 clientes e vai acelerar o passo para alcançar 800 000 até dezembro. Já o Banco do Brasil planeja elevar de 28 para 34 o número de escritórios de seu private bank.
O grau de sucesso na concessão criteriosa de crédito e na geração de receita com serviços prestados — sobretudo à alta renda — ditará a lucratividade de cada banco em 2026. Por ora, os analistas sugerem dois favoritos: o Itaú e o BTG, que devem entregar uma rentabilidade, medida pelo retorno sobre o patrimônio líquido (ROE, na sigla em inglês), acima de 20%. O Santander e o Bradesco ocuparão uma posição intermediária com retornos estimados respectivamente de 17% e 15%. Para ganhar eficiência e melhorar as margens, o Bradesco confia na tecnologia — apenas no ano passado, contratou 3 000 profissionais para a área. “Não abriremos mão de investir em ganhos de competitividade”, disse Marcelo Noronha, o executivo-chefe do banco, ao divulgar o balanço de 2025. A cautela será o melhor antídoto dos bancos para evitar que os eventuais percalços de 2026 contaminem seu desempenho.
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