
Ideia é combater alguns argumentos utilizados contra a linha e pressionar o governo a rever, ainda que parcialmente, as alterações implementadas
A Associação Brasileira de Bancos (ABBC) e a Zetta (que representa fintechs como Nubank e Mercado Pago) contrataram uma pesquisa da AtlasIntel para mostrar a importância da antecipação do saque-aniversário do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). A ideia é combater alguns argumentos utilizados contra a linha e pressionar o governo a rever, ainda que parcialmente, as alterações. Desde que as mudanças entraram em vigor, em novembro, os volumes de originação caíram mais de 80%.
A pesquisa mostra que 90% dos que já utilizaram a antecipação são contrários ao fim dessa modalidade e que 70% dos que conhecem essa possibilidade consideram como prejudiciais as medidas implementadas pelo Conselho Curador do FGTS.
São basicamente quatro grandes mudanças implementadas. A primeira é a imposição de limite máximo de parcelas anuais que podem ser antecipadas (inicialmente cinco, com redução para três a partir de novembro de 2026). A segunda é o limite de apenas uma operação ativa por trabalhador. A terceira é um valor mínimo de R$ 100 por parcela e um teto máximo de R$ 500. E a quarta é a carência de 90 dias para a contratação após a opção pelo saque-aniversário.
Alex Gonçalves, diretor de crédito consignado da ABBC, aponta que antes das alterações o mercado originava quase R$ 3 bilhões por mês na antecipação do FGTS. Em novembro de 2025, esse volume caiu para R$ 600 milhões, ou seja, uma redução de 80%, e a projeção é que em dezembro deste ano recue para R$ 210 milhões, o que significa uma baixa de 93%. A entidade estima que, em dezembro de 2027, o volume fique em R$ 120 milhões, o que representaria uma retração de 96% em relação ao que era originado antes das mudanças.
“As mudanças, na prática, inviabilizaram essa linha, ela tende a deixar de existir. Tínhamos quase R$ 36 bilhões de crédito originado por ano que vai para zero”, comenta. Ele aponta que isso teria um efeito (negativo) maior do que a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil, que estima-se geraria um impacto (positivo) de R$ 32 bilhões na economia. “É urgente que o governo faça uma revisão das medidas adotadas.”
“Mudanças inviabilizaram essa linha. Tínhamos quase R$ 36 bi de crédito originado por ano que vai a zero”
— Alex Gonçalves
A ABBC estima que, da redução de 80% na originação, 78 pontos percentuais foram causados pelo limite mínimo de R$ 100 por parcela. Esse é um dos pontos que o setor tem discutido com o governo para tentar rever. “Temos conversado com a Casa Civil, os Ministérios da Fazenda, do Trabalho. Não se esperava que o piso de R$ 100 trouxesse um impacto tão forte. O governo recebeu nossas informações e ficou de avaliar. Não tivemos um posicionamento de revisão efetiva das regras, mas eles demonstraram preocupação”, diz Gonçalves.
As entidades também rebatem o argumento de que o cliente que pegava a antecipação do FGTS pode migrar para o novo consignado privado. Elas apontam que existem 134 milhões de pessoas com saldo no FGTS, contra apenas 49 milhões de CLT (atualmente empregados). Além disso, entre os empregados que tentaram obter o novo consignado, apenas 25% conseguiram. “Outro ponto é que a antecipação do FGTS tem um teto de juros de 1,79% ao mês, enquanto no consignado a taxa está atualmente em 3,79%. E, ao contrário do consignado, a antecipação não diminui a renda mensal disponível.”
A pesquisa da AtlasIntel mostra que a maioria dos cadastrados no saque-aniversário utiliza os recursos para necessidades básicas e emergenciais. Entre os que antecipam, destacam-se as finalidades de pagamento de dívidas urgentes (70%), despesas médicas e de saúde (28,1%) e compra de alimentos e itens essenciais (7,1%). “Ao contrário do que foi utilizado como argumentação para as mudanças regulatórias, a pesquisa mostra que nenhum dos entrevistados indicou utilizar o dinheiro da antecipação para apostas online (bets)”, dizem as entidades.
Para Eduardo Lopes, presidente da Zetta, a antecipação do saque-aniversário “cumpre um papel essencial na vida financeira dos brasileiros, especialmente em situações urgentes, e as restrições implementadas são vistas como medidas que prejudicam os trabalhadores ao limitar o acesso a uma alternativa importante de crédito”.
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