
Lucro combinado de Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil recuou 4,4% no ano passado, para R$ 107,8 bi; desempenho de instituição estatal pesou
Os grandes bancos brasileiros entraram neste ano em tom mais cauteloso, depois de um 2025 de ritmo mais lento no crédito, aumento nas provisões — em parte, por mudança regulatória — e inadimplência relativamente estável. Em um cenário com juros ainda altos e eleições presidenciais, as instituições financeiras veem desafios à frente.
Itaú Unibanco, Bradesco, Santander e Banco do Brasil (BB) fecharam o ano passado com lucro combinado de R$ 107,8 bilhões, uma queda de 4,4% em relação ao resultado de 2024. A soma, no entanto, esconde situações muito diferentes. Quem puxou o desempenho para baixo foi o BB, cujo lucro recuou 45,5%, afetado pelas perdas no agronegócio. Se olhados apenas os bancos privados, o resultado teria crescido 16,4%.
A margem financeira bruta conjunta subiu 6,4%, para R$ 362,6 bilhões. Porém, as provisões para devedores duvidosos saltaram 22,7%, para um total de R$ 170,2 bilhões. Nesse caso, há duas explicações. Houve uma piora na qualidade dos ativos, o que obrigou as instituições a reforçar as reservas contra calotes. Porém, houve também uma mudança regulatória. Por meio da resolução 4.966, o Banco Central mudou a contabilização de provisões e impôs a adoção o modelo de perda esperada, que faz com que as instituições tenham de aumentar o “colchão” contra calotes à medida que vislumbram a deterioração de um crédito.
No ano passado, a inadimplência nos maiores bancos do país ficou mais ou menos estável — com exceção do BB. Enquanto no mercado como um todo o indicador aumentou de 3%, no fim de 2024, para 4,1% no término de 2025, nas grandes instituições essa tendência não se observou de maneira tão intensa. No Itaú, caiu 0,1 ponto porcentual; no Bradesco, subiu 0,1 ponto; no Santander, avançou 0,5 ponto. Mais uma vez, quem destoou foi o BB, onde o índice saltou 2 pontos em um ano, para 5,17%. A instituição financeira estatal teve uma piora em todos os segmentos, mas foi afetada principalmente pelas perdas no agronegócio e em um caso específico corporativo.
Os quatro grandes bancos de capital aberto colocaram o pé no freio nas operações de crédito no ano passado. A carteira combinada totalizou R$ 4,585 trilhões, com expansão de 5,8% em 2025. O ritmo ficou bem abaixo da média do sistema financeiro nacional, em que o crescimento foi de 10,2%.
Para este ano, o cenário que desenha é parecido, com os grandes bancos mantendo uma postura um pouco mais conservadora que a média do mercado – algo que se vislumbra tanto em algumas projeções quanto em declarações feitas pelos executivos.
O Banco Central estima que o crédito crescerá 8,6% em 2026. A projeção (“guidance”) do Itaú é de 5,5% a 9,5%, ou seja, 7,5% no ponto médio. No Bradesco, a estimativa vai de 8,5% a 10,5% (ponto médio de 9,5%); no BB, a estimativa é de 0,5% a 4,5% (ponto médio 2,5%). O Santander não divulga projeções, mas tem adotado uma postura mais cautelosa que os demais.
No Itaú, a expectativa para 2026 é de lucro em alta e rentabilidade permanecendo em patamar elevado. Questionado se o banco não teria apresentado um “guidance” conservador, Milton Maluhy Filho, CEO do Itaú, disse que as projeções não são defensivas, mas “realistas”, principalmente em um ano eleitoral, que costuma ter um nível maior de incerteza. Segundo ele, não faria sentido promover uma expansão muito forte do crédito e depois, com uma mudança no cenário, ter de rever isso. “Mas se virmos oportunidades, se pudermos entregar mais, vamos fazê-lo.”
Para Mario Leão, CEO do Santander, o essencial é crescer em linhas e públicos que o banco escolheu, mesmo que perca participação em outros nichos, se for o caso. “Escolhi crescer em alta renda e em pequenas e médias empresas, por exemplo. Eu tenho que, nesses dois segmentos, crescer desproporcionalmente”, afirmou.
“Dado o contexto de um ano ainda de Selic alta, é natural que exista [pressão] nas provisões”
— Gustavo Alejo
O vice-presidente financeiro do Santander, Gustavo Alejo, afirmou que o banco deve ver mais pressão em provisões, devido a alguns portfólios, como agro e pequenas empresas. Os segmentos, explicou, sofrem mais com o efeito da taxa básica de juros, que deve permanecer elevada neste ano, apesar de começar o ciclo de cortes. “Dado o contexto de um ano ainda de Selic alta, é natural que exista [pressão]; obviamente que a gente trabalha para que a gente consiga, de fato, ter menos pressão em provisões, estamos nos preparando”, disse.
Em toada de recuperação e no meio da execução de seu plano estratégico, o Bradesco está mais “tracionado”, como gosta de dizer o CEO, Marcelo Noronha. “A gente vê tração comercial, crescimento de crédito importante, com possibilidade de ganho de ‘market share’ em algumas linhas específicas.”
Noronha está otimista com o cenário macroeconômico. Segundo ele, com a inflação controlada, a Selic pode chegar a 12% no fim do ano. “Esse é o horizonte da gente, mas estou vendo o Brasil se movimentar, o desemprego controlado, então a gente está vendo ainda com otimismo, não estamos pessimistas agora.”
No caso do BB, o objetivo é expandir a carteira de pessoa física, que tem melhor retorno ajustado ao risco, enquanto empresas e agronegócio devem ficar perto da estabilidade. O portfólio total deve crescer menos de um terço da média do mercado. A presidente do banco, Tarciana Medeiros, disse ontem que 2025 foi o mais desafiador de seus 26 anos na instituição, justamente por causa do agro, afetado tanto pela resolução 4.966 como por uma onda de recuperações judiciais.
Medeiros ponderou que, mesmo com quase R$ 80 bilhões em provisões, o BB deu lucro de R$ 20,7 bilhões e entregou o que estava prometido no guidance – revisado duas vezes ao longo do ano.
Para a executiva, 2026 também será desafiador, mas a expectativa é melhor porque a instituição já aprendeu como lidar com o cenário. “[O ano de] 2026 será desafiador, mas será desafiador dentro de um desafio que a gente já aprendeu como faz.”
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