
Capex das big techs ganha escala inédita e desloca a atenção do mercado das ações para o financiamento por dívida.
Depois da valorização expressiva das ações das big techs no último ano diante das apostas em torno do avanço da inteligência artificial (IA), o mercado de crédito é quem tende a reter o protagonismo a partir de agora. Com um ciclo de investimentos (capex) gigantesco e liderado com sobra pela IA, agentes começam a notar uma reorganização no mercado de crédito americano, em um sinal de que a IA começa a deixar de ser somente uma história que envolve um vaivém de lucros e questionamentos sobre bolhas e começa a virar, também, uma história de “funding”.
Foi a partir disso que o mercado passou a olhar com atenção para os spreads de crédito das empresas de tecnologia e penalizou, sobretudo, a Oracle, que viu os spreads de seu CDS de cinco anos explodirem e serem negociados a níveis de empresas e países de grau especulativo. Na prática, o CDS da Oracle virou o principal “hedge” do mercado para teses de inteligência artificial.
Agora, com as emissões de dívida pelas big techs no foco, já começam a surgir dúvidas no mercado sobre possíveis mudanças no crédito privado americano, que tem operado com spreads próximos das mínimas históricas tanto em segmentos com grau de investimento (IG) quanto no mercado high yield (HY).
“O capex impulsionado pela IA, combinado com a reconstrução do pipeline de fusões e aquisições (M&A), está gerando nova oferta relevante e alterando o pano de fundo técnico que definiu a maior parte de 2025”, observa o sócio e chefe de gestão a Apollo Asset Management, John Cortese.
Não é por menos. Entre os grandes “hyperscalers” (grandes empresas que dominam o mercado de computação em nuvem) — Google, Meta, Amazon, Oracle e Microsoft —, houve o anúncio de mais de US$ 1,5 trilhão em capex para os próximos cinco anos. E, nas estimativas da Apollo, de US$ 300 bilhões a US$ 400 bilhões por ano podem ser financiados via mercado de crédito. “Seria uma escala capaz de transformar de forma estrutural o crédito corporativo.”
É nesse sentido que Cortese acredita que, enquanto as empresas aumentam suas emissões de dívida, a composição do índice de grau de investimento pode mudar de maneira significativa. “No início de 2025, o Google ocupava a 212ª posição entre os maiores emissores do índice IG dos EUA; até 2030, poderia figurar entre os dez maiores. Essa mudança introduz um novo piso quase ‘livre de risco’ para os spreads, à medida que emissores com ratings ‘AA’ e ‘AAA’ passam a acessar com mais frequência o mercado em prazos mais longos a yields próximos de 5%”, diz.
E é daí que vem um alerta dos analistas Guillaume Dejean e Maria Latorre, da Allianz, ao notarem que o peso econômico do atual ciclo de capex “é de pelo menos 30% superior ao ciclo de investimentos da bolha da internet no fim dos anos 1990”.
“Estimativas de Wall Street indicam que o investimento global em capital relacionado à IA deve alcançar US$ 571 bilhões em 2026, à medida que empresas correm para expandir data centers e capacidade computacional. E esse ciclo de investimentos vai muito além do Vale do Silício”, afirmam os profissionais em relatório enviado a clientes. “Após um período de cautela durante o ciclo de alta dos juros, as empresas agora parecem dispostas a abrir a carteira. Players de hardware e computação em nuvem, por exemplo, relatam gargalos de capacidade e estão ampliando seus orçamentos em ritmo de dois dígitos, partindo da suposição ousada de que a demanda crescerá na mesma proporção.”
Na expectativa da Allianz, o ciclo de investimento privado deve seguir sólido neste ano, “com a revolução da IA no centro”. No entanto, os analistas acreditam que é possível que os participantes do mercado se tornem mais atentos ao ritmo de adoção da IA e à trajetória de rentabilidade de todo o ecossistema, passando a ser mais seletivos.
O estrategista-chefe de mercados da Lazard, Ronald Temple, vai além e diz ser cético em relação à sustentabilidade do ‘boom’ da IA neste ano.
“Os investidores estão cada vez mais questionando as fontes de financiamento por trás dos grandes anúncios de capex, à medida que o financiamento por fornecedores e as emissões de dívida ganham protagonismo. Além disso, o uso desses recursos também levanta dúvidas sobre a longevidade produtiva de certos ativos e sobre a capacidade de recuperar seus custos — quanto mais gerar retorno — antes de se tornarem obsoletos”, diz o executivo.
Assim como os profissionais da Allianz, Temple faz uma comparação entre a IA e os investimentos em capex durante a bolha da internet.
“A bolha da internet representou, em grande medida, um descasamento relevante entre o momento do investimento e a efetiva materialização da demanda. Uma parcela significativa dos quase US$ 1,5 trilhão investidos em capex naquele período acabou sendo utilizada, em grande parte, na forma de cabos de fibra óptica e outras infraestruturas com longa vida útil. O problema foi que os fluxos de caixa gerados por esses investimentos se materializaram muito mais tarde do que o esperado, o que reduziu seu valor presente”, observa Temple em relatório enviado a clientes.
E, no caso dos investimentos atuais, o executivo observa que muitos data centers estão sendo construídos assumindo uma vida útil de 15 a 25 anos. “No entanto, a tecnologia dentro desses data centers pode ter uma vida útil de apenas um a três anos, dependendo da intensidade de uso. Se a infraestrutura acabar sendo superdimensionada e os fluxos de caixa demorarem a se materializar, o próprio hardware pode se tornar obsoleto antes que haja demanda por ele”, enfatiza.
Assim, para ele, embora acredite que a IA será revolucionária para a economia global, “as regras da economia e das finanças continuam valendo”. “Detentores de dívida exigem pagamento, e acionistas exigem um retorno significativo sobre o capital ajustado ao risco. Em muitos casos, a tese de investimento em IA parece cada vez menos capaz de atender a essas exigências”, afirma o profissional.
Para Temple, se os lucros das big techs frustrarem as expectativas dos agentes, o mercado financeiro em geral pode enfrentar correções relevantes dada a dependência desse setor. “A seleção criteriosa de ativos entre os líderes em IA será crucial em 2026.”
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