
No Fórum Econômico Mundial, em Davos, Flavio Souza diz que é preciso ter pragmatismo e fazer a agenda andar
À frente do Itaú BBA, Flavio Souza vê um cenário positivo para o mercado de capitais para este ano e o fortalecimento da vertical de infraestrutura criada pelo banco de investimento no ano passado. Em meio às tensões geopolíticas, além de um ano marcado pelas eleições no Brasil, o executivo disse ao Valor em Davos, durante o Fórum Econômico Mundial (WEF), que é preciso ter pragmatismo e fazer a agenda andar, a despeito das incertezas.
Na sua visão, nem mesmo as turbulências enfrentadas pelo mercado financeiro nacional com os escândalos que vieram à tona com o Banco Master devem representar um risco para o setor.
Passado o período mais crítico da relação entre o Brasil e os Estados Unidos por conta da imposição do tarifaço no ano passado, Souza acredita que o tema de geopolítica ainda é absolutamente dominante. Será preciso ficar atento aos desdobramentos das discussões envolvendo Estados Unidos, Groenlândia e Europa para entender todas as implicações para os mercados.
Segundo o executivo, o cenário eleitoral no país deve ser novamente polarizado entre esquerda, representada pelo atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e pela direita, que hoje tem Flavio Bolsonaro (PL-RJ) como pré-candidato.
A Faria Lima avalia a corrida de 2026 com certa previsibilidade, mas tem seu candidato favorito — o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). A candidatura, contudo, ainda não está clara.
“O Brasil segue sendo um mercado relevante para as grandes empresas globais em diversos setores. O ambiente político, obviamente, é acompanhado, mas não é o fator preponderante, nem fator relevante para uma tomada de decisão de longo prazo.”
Souza traça um cenário positivo para o mercado de capitais para 2026, a despeito das incertezas.
A renda fixa em 2025, mesmo com o ano anterior batendo recorde, deve encerrar em cerca de R$ 700 bilhões movimentados. Ele destaca o desempenho da área de infraestrutura, com volumes surpreendentes de leilões.
“A agenda de saneamento segue sendo bastante forte. É um setor que tem se consolidado do ponto de vista de atividade de uma maneira importante.”
O executivo também destacou que a vertical de infraestrutura criada pelo banco no ano passado tem R$ 190 bilhões em exposição e a expectativa é que cresça mais ao longo deste ano, uma vez que deverá seguir firme em concessões. Em agronegócios, estrutura criada há mais tempo, a exposição do banco é de R$ 140 bilhões.
“Em renda fixa, acho razoável imaginar que a gente possa ter algum nível de acomodação, com 10% a 15% de volume de atividade abaixo do ano passado, o que na minha visão não é uma mensagem de enfraquecimento do mercado.”
Para ele, o mercado deverá também seguir no mesmo ritmo em volumes de “block trade” (compra de ações em bloco) e “follow-on” (oferta subsequente de ações). O executivo não descarta a possibilidade de aberturas de capital na janela após as eleições.
“O mercado de ‘equities’ pode ter um ano de uma retomada gradual. A gente começa o ano com duas transações de empresas brasileiras fora [estão previstos IPOs de PicPay e Agibank nos EUA]. Acho que no primeiro semestre a atividade de ‘follow-ons’ deve predominar.”
“Nos últimos dois anos, as operações de equities registraram entre 13 e 14 transações, somando R$ 14 bilhões. Este ano a gente tem expectativa de que a gente vai ver uma quantidade de operações um pouco maior, de 15 a 25 transações, mas não tenho como estimar valor movimentado.”
Para crédito, o segmento continuará ativo, mesmo num ambiente de taxa de juros altos, considerando que a atividade econômica está num nível bom. “Quando se olha para o ambiente de pessoa jurídica no ano passado, a expectativa é fechar com crescimento entre 8% e 10%, algo nessa linha. E para este ano a gente trabalha numa expectativa de 6% a 8% de crescimento do mercado de crédito.”
Para ele, a agenda eleitoral terá de contemplar a questão fiscal. “Acho que a gente tem que estar olhando para o cenário de longo prazo. Aqui em Davos, a sensação que eu tenho é que, para o investidor estrangeiro, o tema da eleição tem um peso menor do que nós atribuímos no Brasil.”
Assunto sensível ao setor financeiro, a crise do Banco Master não é vista como um risco sistêmico, segundo Souza. “É um evento importante, que tem dimensão. Ele é relevante, mas não acho que seja sistêmico. Tentamos olhar para esse assunto numa perspectiva um pouco mais estratégica. E nesse ponto, por tudo o que a gente está vendo das informações que saem, mostra nosso sistema financeiro com solidez. É um episódio que vai deixar lições para todos.”
CADASTRE-SE no Blog Televendas & Cobrança e receba semanalmente por e-mail nosso Newsletter com os principais artigos, vagas, notícias do mercado, além de concorrer a prêmios mensais.