
Nove em cada dez adultos usam o Pix e 78% têm alguma conta, mas um terço dos brasileiros se sentem financeiramente excluídos
Após um avanço na abertura de contas e pagamentos digitais, o Brasil enfrenta agora o segundo estágio na inclusão da população no sistema financeiro: ampliar e qualificar o uso de benefícios como linhas de crédito, investimentos e apólices de seguros. Diante deste cenário, os agentes financeiros concentram esforços em tecnologia de ponta, design de produtos e educação financeira.
A bancarização primária foi considerada superada com a consolidação dos bancos digitais e o Pix, usado por 90% da população adulta, conforme o Banco Central. Pesquisa do Mercado Pago, em parceria com o Instituto Brasileiro de Análise de Dados, aponta que 78% dos consumidores são correntistas em alguma instituição, com média 3,1 contas ativas e 2,8 cartões de crédito por pessoa. O relatório The Global Findex Database revela que 77% dos adultos brasileiros fizeram ou receberam pagamentos digitais em 2025, contra 59% na América Latina.
“A taxa de inclusão do Brasil é superior à de alguns países da mesma faixa de renda no mundo”, diz a pesquisadora Erica Siqueira, do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP).
Para além do Pix, outros fatores impulsionaram o relacionamento com as instituições financeiras, avalia Willer Marcondes, sócio para serviços financeiros da Strategy&, consultoria da PwC Brasil. “O Banco Central investe em uma forte agenda regulatória das instituições de pagamento e em licenças específicas para determinados serviços. Isso tudo gera um ecossistema de regulação favorável”, afirma.
A concessão de crédito cresce, mas ainda há barreiras. No mercado de fintechs, de acordo com pesquisa da PwC em parceria com a Associação Brasileira de Crédito Digital, o volume concedido cresceu, em 2024, 68%. Mas pela sondagem do Mercado Pago, 34% dos entrevistados ainda se sentem excluídos financeiramente, a maioria por falta de acesso a crédito.
Entre as dificuldades que levam à exclusão estão juros altos, falta de histórico bancário, baixa renda e incapacidade de gestão financeira. Para contornar o problema, fintechs apostam em aplicativos que facilitam operações. A CloQ, uma startup do Recife, criou um score de crédito que inclui negativados e quem tem pouco histórico de dados. “Temos 12 mil clientes ativos, com tíquete médio de R$ 250/mês, e uma fila de espera de 128 mil cadastrados que vamos atender aos poucos”, afirma a CEO e cofundadora da CloQ, Rafaela Cavalcanti. O sistema funciona integralmente via aplicativo e 22% dos clientes atuais fizeram um empréstimo pela primeira vez com a startup.
Ela conta que o aplicativo foi aprimorado a partir da experiência de uso dos clientes, em sua maioria com formação de nível médio. “Utilizamos imagens em vez de texto, letras grandes, muita informação de apoio, pois nossos clientes são pessoas não familiarizadas com tecnologia”, diz.
“A taxa de inclusão do Brasil é superior à de alguns países da mesma faixa de renda”
— Erica Siqueira
Um levantamento da startup identificou que a faixa de clientes entre 35 e 50 anos é menos letrada digitalmente e utiliza crédito majoritariamente para pagar dívidas ou pequenos investimentos. Os mais jovens, de 18 a 20 anos, dominam as ferramentas e usam crédito para emergências.
Segundo a PwC, no ano passado 67% das fintechs estavam desenvolvendo soluções baseadas em inteligência artificial, mais que o dobro em relação a 2024.
Outra estratégia tem sido aprimorar as consultorias locais. O Banco do Nordeste atua há 20 anos com microcrédito orientado nos programas Crédito Amigo e Agro Amigo. “Nossa clientela tem renda variável, não formal, e garantias baixas. Por isso, os agentes locais são fundamentais. Eles concebem junto com os clientes a proposta mais viável. Fazemos hoje 16 mil operações/dia, via aplicativo”, conta Vandir Farias, diretor de negócios do banco.
Para Siqueira, porém, a principal questão que impede um maior avanço da inclusão financeira é a insuficiência de renda. “Daqueles que têm acesso ao crédito, grande parcela se torna inadimplente porque o dinheiro do mês simplesmente não dá. Estudos mostram que o salário fica na conta do brasileiro apenas por 30 horas. Assim que recebe, ele paga as contas e, para complementar o mês, pega um crédito ou usa o cartão, gerando um ciclo permanente de endividamento”, afirma.
Em janeiro, 29,3% dos consumidores estavam inadimplentes, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC).
Apesar dos gargalos, as perspectivas são positivas. A falta de garantias é um obstáculo que deve ser contronado em breve, avalia Terence Gallagher, diretor de saúde financeira no BID Invest. “O Pix vai resolver isso nos próximos anos, pois as pessoas vão pode comprovar a movimentação dos pagamentos. O crescimento do open banking, que permitirá a troca de informações entre instituições, também vai facilitar a inclusão da população de baixa renda”, diz.
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