
Auditoria encontrou falhas em 42% dos créditos transferidos pela instituição ao FDIC EXP 1
O banco Digimais, controlado por Edir Macedo, chefe da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da TV Record, enfrenta um duelo na Justiça com o fundo EXP 1, da gestora Yards. Os problemas começaram poucos meses após o banco ter cedido uma carteira de R$ 659,8 milhões para o fundo, em março. Uma auditoria encontrou problemas em 42% das cédulas de crédito bancário (CCBs) transferidas, parte delas originadas inicialmente pelo Banco Master.
O EXP 1 foi criado em 2012, mas passou por uma reformulação no início deste ano para a entrada do Digimais, que ficou como cotista sênior ao integralizar uma carteira de crédito no fundo, permanecendo como cotistas subordinados alguns veículos, incluindo um ligado a Roberto Campos Marinho Filho, empresário pernambucano com atuação em áreas diversas, como agro, tecnologia e até bets. Os problemas começaram após a auditoria contratada pela Yards encontrar falhas nas CCBs. O levantamento, feito pela UHY Bendoraytes, aponta que das 54.256 CCBs transferidas, 22.149 tinham documentação pendente, ou seja, 40,8%.
“Do total de 3.721.473 parcelas a vencer e vencidas (direitos creditórios): 2.149.832 parcelas que estão com o lastro encaminhado concordando com a base analítica, representando 58% do total de parcelas; e 2.217.775 parcelas que possuem inconsistências no lastro encaminhado quando cotejado com a base analítica, representando 60% do total de parcelas; [dessa fatia com inconsistência] 1.571.631 parcelas que estão sem qualquer lastro, ou 42% do total de parcelas”, diz o documento da UHY, que consta no processo, ao qual o Valor teve acesso.
A Yards alega que, após receber o resultado da auditoria, começou a questionar o Digimais, cobrando a documentação das CCBs, mas não obteve resposta. “O problema relacionado à falta de lastro documental dos créditos objeto da cessão é considerado insanável, uma vez que, apesar de sucessivas solicitações para remediação amigável, o Digimais não apresentou a documentação comprobatória exigida contratualmente para validar os créditos cedidos”, afirma a gestora no processo. “A situação gera preocupação na medida em que uma parte considerável dessa carteira de créditos cedida pelo Digimais no âmbito do contrato de cessão tem sua origem relacionada ao Banco Master e à [gestora] Reag, cujas atuações têm sido questionadas em razão de fatos notórios amplamente divulgados pela mídia”, acrescenta.
Enquanto isso, em outubro o Digimais entrou com um processo alegando que a Sefer, administradora do EXP 1, não estava respondendo seus questionamentos e por isso queria a troca para que o fundo passasse a ser administrado pela ID. O banco disse ainda que muitas empresas geridas por Marinho têm diretores e sócios em comum com acionistas da Yards, incluindo em alguns casos o mesmo enderenço. Assim, argumentou que a Yards tem um conflito de interesses e tenderia a beneficiar Marinho, cotista subordinado, em detrimento do banco, cotista sênior.
“A reiterada falta de transparência dos cotistas subordinados, da gestora [Yards] e do Sr. Roberto Campos Marinho Filho é irrefutável e contamina todo e qualquer ato destes no âmbito do Fundo. [...] Ora, até que ponto a Yards consegue atuar independentemente, pensando no melhor interesse do Fundo e dos demais cotistas sem se deixar influenciar pela BAMS, pelo Sr. Roberto Campos Marinho Filho, pela relação com os ativos e em infringência normativa reiterada?”, afirma no processo o escritório Darmont Advogados, que representa o Digimais.
O Digimais vem sendo acompanhado de perto pelo Banco Central nos últimos anos. Nesse período, o regulador exigiu reforços de capital no banco. O controlador vinha mantendo conversas para venda da operação, chegando a negociar com o Nubank e a anunciar um acordo com o Bluebank, de Maurício Quadrado – sócio do Master – que acabou não indo para frente. A carteira de R$ 659,8 milhões repassada ao EXP 1 é relevante, considerando que em junho o Digimais tinha um portfólio de crédito de R$ 1,939 bilhão.
Procurado, o Digimais respondeu, por e-mail, que a prática de cessão de carteira é comum no mercado financeiro e que os valores das operações de crédito originados/adquiridos pelo banco são muito maiores que o saldo de R$ 1,9 bilhão que ficou em aberto no fim do primeiro semestre. “A utilização [de cessões de carteira] é avaliada de forma oportunística, segundo praxe de mercado.”
“Teremos um ciclo de crédito melhor em 2026 e vamos focar nas carteiras em que o banco tem experiência”
— Jairo Sadi
Questionado sobre as carteiras compradas de Master e Reag, o Digimais não revelou valores, mas confirmou que essas CCBs foram adquiridas no início de 2024 e transferidas para o fundo EXP 1, “junto com diversas outras CCBs originadas por diversos players de mercado.”
Conforme noticiado pelo Pipeline, site de negócios do Valor, Aldemir Bendine, que foi CEO do Banco do Brasil e da Petrobras, será o novo presidente o Digimais. O advogado Jairo Saddi, que representa o controlador do banco, não menciona o nome de Bendine, mas diz que a instituição vem promovendo mudanças para reforçar a governança e ganhar eficiência. “Houve algumas negociações no passado, mas agora o controlador decidiu não vender o banco e estamos avançando. Teremos um ciclo de crédito melhor em 2026 e vamos focar nas carteiras em que o banco tem experiência, como veículos, consignado e crédito pessoal”, afirma Saddi. Segundo ele, eventualmente pode haver alguma mudança na estrutura de capital. “Se for requerido, vamos aportar capital.”
A Yards é representada no processo pelo escritório Yazbek, que nega relações diretas entre a gestora e Marinho. “Inexiste qualquer vedação a que diferentes empresas – sejam elas do mesmo grupo econômico ou não – ocupem o mesmo endereço ou até escritório. Não há sequer vedação para que a gestora, como pessoa jurídica, exerça outras atividades além da gestão. [...] A Yards é uma gestora devidamente registrada na CVM [Comissão de Valores Mobiliários] e na Anbima e, como se sabe, o desempenho de tal função – por expressa exigência regulatória e autorregulatória – requer um robusto ‘chinese wall’, evidenciado pela exigência de segregação funcional e física, bem como de independência em relação a outras empresas do seu grupo econômico.”
A defesa diz ainda que toda a estrutura do fundo – inclusive a condição dos cotistas subordinados – já era conhecida do Digimais quando ele assinou. “A única surpresa aqui verificada diz respeito à intempestividade de tais alegações, apresentadas mais de seis meses após o ingresso do Digimais no Fundo, e precisamente em um momento em que o FIDC EXP 1 se vê impossibilitado de cumprir o seu papel em razão de diversas e graves falhas já identificadas na carteira de direitos creditórios oferecida pelo banco.”
A defesa de Marinho, conduzida pelo escritório Mattos Filho, vai na mesma linha da Yards. “Está claro que o que há não é um conflito de interesses entre gestora e o cotista subordinado; o que há é a indevida investida do Banco Digimais para impor a ID Corretora como administradora, medida incompatível com critérios mínimos de elegibilidade e independência e claramente contrária ao melhor interesse do Fundo. Infelizmente, desde a constatação de inconsistências relevantes no lastro e na integralização das CCBs cedidas pelo próprio Banco Digimais, observa-se essa postura condenável de vossas senhorias, que tentam a todo custo deslocar o foco de suas obrigações – inadimplidas, diga-se de passagem.”
Os cotistas subordinados dizem ainda que, quando o Digimais entrou no fundo, aportaram mais de R$ 250 milhões, para manter o índice de subordinação em no mínimo 20%.
Um interlocutor diz que, ao transferir a carteira para o fundo e, sendo cotista sênior, o Digimais segue acruando receita, ao mesmo tempo em que, ao tirar esses créditos do seu balanço, não precisa contabilizar provisões para perdas (PDD). “Essas carteiras tinham um inadimplência em linha com o mercado, e pouco após serem transferidas para o fundo a inadimplência explodiu. A qualidade dela não condiz com a informação que foi dada pelo banco no processo de due diligence”, diz. Segundo ele, em tese a liquidação do Master não deveria interferir nessas CCBs, mas isso pode mudar. “Alguns credores do Master já estão entrando na Justiça pedindo uma compensação por suas perdas, tentando ficar com alguns ativos, então não sabemos o que pode acontecer.”
Procurada, a ID disse que não vai assumir a administração do EXP 1 e que tem mais de 435 fundos de diversos setores. “Após a realização de processo de diligência técnica, jurídica e operacional, incluindo a análise dos lastros, dos fluxos financeiros e das estruturas de governança do fundo, atenderá alguns fundos da Reag, mas atualmente não atende nenhum da empresa”, afirmou.
Após a publicação da matéria, o Digimais enviou uma nova nota ao Valor, na qual afirma inexistir processo do EXP 1 contra o banco questionando a validade das CCBs. O processo o 4050472-54.2025.8.26.010, registrado em 27 de outubro na 13ª Vara Cível do Tribunal de Justiça de São Paulo, é um processo de interruptivo de prescrição, onde o EXP 1 questiona o lastro das CCBs e pede a interrupção do prazo prescricional referente às pretensões decorrentes do inadimplemento do contrato de cessão.
Em sua nota, o Digimais afirma que não lhe foi apresentada a auditoria feita pela UHY. Diz ainda que enviou à Yards e à Sefer “material contendo as CCB que compõe o lastro dos direitos creditórios cedidos, além das CCB, as evidências como biometria dos tomadores de crédito e geolocalização. Mais que isso foram enviadas confirmações de diversos clientes tomadores dos créditos cedidos atestando a ocorrência das operações e os descontos realizados em seus benefícios mensais, em razão da consignação dos créditos”.
O banco adiciona ainda que a cessão dos direitos creditórios foi feita sem coobrigação, ou seja, o Digimais não responde pela inadimplência dos tomadores de créditos ou ausência de repasse financeiro das cedentes originárias dos créditos. “O administrador fiduciário deve atestar a realização, pela entidade custodiante do FIDC EXP1, de auditoria de lastro essencial para recepção dos direitos creditórios antes da ocorrência da cessão, ou possuir a dispensa de tal análise dado o conhecimento prévio dos prestadores de serviços acerca da carteira cedida”.
O Digimais acrescenta também que “jamais utilizou a cessão de direitos creditórios para ‘limpeza de balanço’, como sugerido na matéria”. “A cessão foi realizada em razão do spread financeiro pago pelo fundo cessionário que adquiriu os direitos creditórios, podendo ainda o Banco Digimais ter preferência no recebimento dos créditos cedidos, uma vez que é cotista sênior do fundo”.
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