
Crise deixou claro que solidez do funding e qualidade da gestão de risco seguem centrais para estabilidade de bancos e fintechs
O episódio envolvendo o Banco Master marcou de forma significativa o debate sobre os riscos de liquidez em instituições financeiras, especialmente em um momento de inadimplência elevada e de juros persistentemente altos no Brasil.
A crise da instituição deixou claro que a solidez da estrutura de funding e a qualidade da gestão de risco continuam sendo elementos centrais para a estabilidade de bancos e fintechs. A pressão sobre o passivo, somada à redução da confiança dos investidores corporativos, revelou que vulnerabilidades internas podem adquirir rapidamente proporção sistêmica, exigindo atuação imediata do Banco Central para mitigar impactos sobre o FGC e preservar o bom funcionamento do mercado.
Nos bancos tradicionais, o principal mecanismo de risco é a alavancagem. O modelo bancário permite captar recursos em escala muito superior ao patrimônio líquido, observando limites prudenciais pautados pelo Índice de Basileia. Esse índice reflete a proporção entre o capital de melhor qualidade da instituição e os ativos ponderados pelo risco.
Em períodos de estabilidade, a alavancagem potencializa o crédito. Em cenários adversos, quando o índice se aproxima dos limites regulatórios ou a percepção de risco aumenta abruptamente, a capacidade de absorção de perdas diminui e o descasamento entre obrigações e recebíveis se intensifica.
Foi o que ocorreu no Banco Master, onde a redução da confiança pressionou a liquidez e expôs a fragilidade da estrutura de captação diante de condições macroeconômicas desafiadoras.
Ao contrário dos bancos, fintechs estruturadas como SCD e SEP, bem como modelos de fintechs de crédito que utilizam correspondentes bancários, aliados a estruturas securitizadoras e Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (os FIDCs), não podem se alavancar diretamente. Suas operações dependem de capital próprio e de repasses estruturados. Isso reduz o risco prudencial clássico, mas abre espaço para dinâmicas de vulnerabilidade distintas.
Muitas fintechs, na disputa por investidores, oferecem remunerações elevadas, criando um custo de capital que pode se tornar insustentável quando combinado com inadimplência crescente e juros elevados. Em um ambiente em que o crédito ao consumidor sofre deterioração, essa combinação resulta em compressão rápida de margem, risco operacional ampliado e tensões que podem levar à descontinuidade das operações, mesmo na ausência formal de alavancagem.
Além disso, estruturas baseadas na securitização dependem necessariamente de uma cadeia bem calibrada. A qualidade da originação do crédito, a validação rigorosa dos lastros, a verificação antifraude e a conformidade documental determinam a eficiência do fluxo de recebíveis que alimenta os investidores.
Quando há falhas na constituição do ativo, o risco deixa de ser apenas financeiro e passa a ser jurídico e operacional. O problema se torna ainda mais relevante quando a busca por retornos elevados leva investidores a aceitar carteiras de maior risco, criando um ciclo que, em momentos de estresse, se desfaz rapidamente.
O Banco Central, nesse contexto, cumpre um papel essencial de supervisão e estabilização da operação de originação de crédito e alavancagem, quando aplicável, enquanto a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) tem competência para analisar estruturas de securitização envolvendo fundos de investimento.
A crise do Master demonstrou que, mesmo quando os principais credores são investidores corporativos com maior capacidade técnica de análise, o risco sistêmico não desaparece. Ao contrário, estruturas complexas de funding podem provocar impactos amplos quando sofrem deterioração repentina. O regulador, ao intervir, atua não apenas para proteger depositantes e investidores, mas também para evitar que desequilíbrios isolados contaminem segmentos inteiros do mercado financeiro.
Outro ponto crítico revelado pelo episódio é o comportamento dos credores. Em estruturas de crédito e securitização, a racionalidade dos investidores é determinante. A busca por remuneração em um ambiente de juros altos gera maior apetite por retornos, mas também maior exposição a estruturas frágeis. A história recente mostra que, quando a percepção de risco muda, a reação costuma ser imediata, gerando ciclos de corrida por liquidez que aceleram crises de forma exponencial.
Do ponto de vista jurídico e regulatório, a lição é clara. Operações de crédito, sejam bancárias ou de fintechs, exigem uma engenharia precisa de estruturação. A modelagem contratual, o compliance regulatório, a governança de risco, o monitoramento contínuo dos recebíveis e a aderência às regras do Banco Central e da CVM são elementos inseparáveis.
A securitização, quando bem desenhada, distribui risco e gera eficiência. Quando negligenciada, torna-se vetor de instabilidade e porta de entrada para fraudes, conflitos de interesse e descasamento entre passivo e ativo.
Em um cenário de elevados custos de capital, inadimplência alta e forte competição por funding, a robustez estrutural passa a ser mais do que um elemento de segurança. Ela se torna condição para acesso ao mercado. Nesse ambiente, instituições que compreendem a interdependência entre a estrutura jurídica, o modelo de negócios e a governança prudencial conseguem operar com resiliência, mesmo em ciclos econômicos adversos.
O caso do Master reforça que a liquidez, a alavancagem e a estruturação de crédito não são elementos isolados, mas partes de um mesmo ecossistema regulatório e operacional. A solidez das operações, a clareza das regras e a disciplina dos participantes são determinantes para que bancos e fintechs naveguem um mercado complexo, competitivo e sensível a variações macroeconômicas.
A experiência recente demonstra, mais uma vez, que modelos bem estruturados não apenas reduzem riscos, mas também ampliam a capacidade de instituições inovadoras de captar recursos, oferecendo boas opções de investimento, e entregar crédito com segurança, eficiência e transparência.
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