
Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, que sofria com ineficiência, era controlado integralmente pelo banco de Daniel Vorcaro
Após detectar problemas em R$ 12,2 bilhões em carteiras compradas do Master, o BRB exigiu a troca desses ativos. Agora, começam a surgir informações sobre o que compõe os quase R$ 10 bilhões que o BRB diz ter trocado. Segundo o Valor apurou, um dos ativos que entraram nesse pacote foram as cotas do fundo de investimento em direitos creditórios (FIDC) Jeitto, que era controlado integralmente pelo Master.
Segundo o relatório mensal referente a dezembro, o FIDC Jeitto tinha um patrimônio líquido de R$ 210,3 milhões. A carteira ativa é de R$ 210,7 milhões, mas há ainda R$ 952,9 milhões em créditos inadimplentes. No passivo, há R$ 751,3 milhões a pagar.
Esse FIDC foi criado no início de 2020 e servia de funding para a fintech Jeitto. A administradora era a própria corretora do Master e o banco era o único cotista até julho do ano passado. Naquele momento, houve o repasse das cotas para o BRB, segundo fontes com conhecimento do assunto, já que o fundo não é obrigado a divulgar os cotistas.
O FIDC Jeitto aparece na decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou o bloqueio de até R$ 5,7 bilhões em bens dos envolvidos na operação Compliance Zero.
“Em relação ao FIDC Jeitto, constata-se que o referido fundo é administrado pela Master Corretora de Câmbio, Títulos Ltda, tendo como principal cedente a Jeitto Instituição de Pagamento Ltda, que detém 149,98% de participação no patrimônio líquido do fundo, correspondendo a aproximadamente R$ 1.073.380.633,94 [R$ 1,073 bilhão]”, diz a decisão.
Pelas regras do FIDC, a Jeitto teria de recomprar os créditos em atraso há mais de 90 dias detidos pelo fundo. Em março, ela pediu um “waiver” (perdão) dessa obrigação, argumentando que o FIDC é fiscalmente ineficiente e custou em torno de R$ 200 milhões nos últimos três anos em impostos e custos de funding adicionais (versus uma estrutura tradicional de mercado).
O “waiver” foi concedido, mas após seu término, a corretora do Master voltou a dizer que a Jeitto se encontrava inadimplente. “A administradora notificou extrajudicialmente a cedente em 21 de outubro de 2025, reiterando formalmente a necessidade de realização da recompra dos direitos creditórios em aberto, nos termos do disposto no regulamento do fundo, tendo a cedente, em 24 de outubro de 2025, respondido a referida notificação com uma contranotificação extrajudicial sem, contudo, regularizar a situação.”
Segundo o Valor apurou, Jeitto e Master teriam negociado no fim de 2024 um acordo para liquidar o fundo, com a fintech – que tinha obrigação de recomprar os créditos vencidos – ficando com uma dívida com o banco. O acordo não chegou a ser assinado porque em março de 2025 o Master anunciou proposta de fusão com o BRB. Foi nesse contexto que o “waiver” foi concedido – a ideia era que nesse intervalo de seis meses a fusão fosse aprovada e o acordo pudesse ser assinado.
Como a fusão Master-BRB não foi aprovada pelo BC, no fim do ano passado a Jeitto teria voltado a procurar o banco de Daniel Vorcaro para negociar um novo acordo. Foi aí que descobriu que o Master tinha vendido todas as suas cotas. E agora a renegociação dessa dívida milionária terá de ser feita com o BRB.
Procurado, o Master afirmou que todos os ativos efetivamente cedidos ao BRB estavam registrados no balanço do Banco Master e integravam as demonstrações financeiras da instituição. “Esses ativos eram periodicamente auditados e precificados conforme metodologias formais de avaliação e de classificação de risco, previstas no manual de rating adotado pelo banco e observadas pelas instâncias de supervisão. Não houve transferência de ativos ocultos, não registrados ou fora dos critérios contábeis e regulatórios aplicáveis. As operações realizadas seguiram os parâmetros técnicos de avaliação vigentes à época”, diz.
BRB e Jeitto ainda não se manifestaram.
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