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Mercado começa a fazer ajustes para nova duplicata escritural

por: Afonso Bazolli
em: Crédito
fonte: Valor Econômico
21 de janeiro de 2026 - 17:12

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Estimativa é que hoje as vendas de mercadorias e serviços a prazo somem cerca de R$ 15 trilhões, sendo que apenas R$ 3 trilhões são dados como garantia

Bancos e empresas começaram a adaptar sistemas internos e processos de pagamento de olho na duplicata escritural, que entrará em vigor no próximo ano, substituindo a duplicata mercantil.

Se de um lado a promessa é ampliar o acesso ao crédito para empresas menores, de outro o novo título vai exigir das companhias investimentos em tecnologia, visto que a dinâmica de pagamentos corporativos começará a mudar. Para os bancos, o título é visto como a iniciativa com maior potencial de gerar novas receitas, o que influencia na criação de plataformas para atender clientes pessoas jurídicas.

Provas dos desafios e oportunidades para essa indústria são os volumes projetados. A estimativa no mercado é que hoje as vendas de mercadorias e serviços a prazo somem cerca de R$ 15 trilhões, sendo que apenas R$ 3 trilhões são dados como garantia. O esperado é que esse volume dobre em dois anos, podendo triplicar em um prazo de cinco anos.

No momento, as registradoras que se habilitaram junto ao regulador estão nos últimos preparativos para começar a fase de testes, que deve ser concluída no próximo trimestre.

Com a versão escritural da duplicata, a forma de uma empresa pagar fornecedores tende a mudar substancialmente. Isso porque hoje as grandes companhias organizam seus pagamentos de acordo com o cronograma próprio e conseguem também ditar seus prazos, dado o poder de barganha. Com a chegada do novo título, essa dinâmica deve mudar, visto que o fornecedor, ao emitir uma nota fiscal, poderá emitir em paralelo uma duplicata para conseguir antecipar o valor do recebível.

Pelas regras, a empresa terá um prazo de dez dias para se manifestar – tanto para o aceite quanto para a rejeição desse título. Com o aceite, o fornecedor poderá vender essa duplicata de forma a antecipar seu recebível, o que mais à frente significará para a empresa que efetuará o pagamento o depósito para um terceiro – ou seja, não mais para aquele fornecedor que já está cadastrado.

“Haverá um impacto operacional para as grandes empresas”, afirma o responsável pelos serviços financeiros do Citi, Adriano Milani. Segundo ele, o banco tem mantido conversas com clientes sobre o tema e o nível de atenção tem subido mais recentemente.

“Com a chegada da duplicata escritural, haverá um impacto operacional para as grandes empresas”

— Adriano Milani

Do lado do Citi, o banco tem trabalhado para oferecer uma solução para essas empresas, tanto na varredura das notas fiscais e duplicatas, dado o prazo estreito de manifestação em até dez dias, como a organização e pagamento das contas para terceiros, ou seja, daquelas duplicatas que foram vendidas pelo fornecedor.

Nessa varredura, além de buscar inconsistências entre os valores da nota fiscal e a duplicata correspondente, será possível saber se uma duplicata gerada corresponde a um produto que já foi entregue. “Estamos construindo uma solução do arquivo de pagamento para fora”, diz Milani.

O Bradesco também pretende lançar uma plataforma que vai oferecer soluções para escrituração, gestão e liquidação das duplicatas, além de serviços financeiros e oferta de crédito. “Com a quantidade de dados que deve circular por ela, poderemos ter insights para novos produtos”, diz Lucas Nogueira, diretor de produtos PJ do Bradesco. O banco sempre teve força nos boletos e em crédito para antecipação de recebíveis e enxerga as duplicatas escriturais como um novo caminho de crescimento nessa área, afirma o executivo.

A Associação Brasileira de Bancos (ABBC) trabalha também em um “hub” que irá integrar escrituradoras de forma a facilitar o acesso das instituições financeiras e centralizar consultas e ações sobre duplicatas. Neste mês, B3, Cerc e Núclea firmaram uma parceria e passaram a integrar a plataforma. Pesquisa da própria ABBC, em parceria com a consultoria Bip, mostra que a duplicata escritural é considerada pelos bancos como a iniciativa com maior potencial de gerar novas receitas. Na sequência, aparecem o banking as a service (BaaS) e o Pix.

Rafael Dal Mas, superintendente de negócios da Núclea, diz que a adaptação dos bancos ao novo título tem ocorrido, neste primeiro momento, nos nomes que já atuam com o desconto de duplicatas e recebíveis. “Como ainda terá um período não obrigatório de testes assistidos, os bancos que estão trabalhando no tema são os que já têm um foco maior em crédito com duplicatas”, diz Dal Mas. “Quem conhece o nicho, sabe do potencial da versão escritural”.

O processo para a adoção da duplicata escritural será faseada, sendo que a obrigatoriedade inicialmente será para as grandes empresas, com a régua descendo gradualmente. No entanto, segundo especialistas, apesar de haver esse cronograma, na prática, empresas de todos os portes precisarão estar preparadas para as novas duplicatas, visto que a dinâmica dos pagamentos pode mudar de forma imediata conforme seus fornecedores a emitam.

As mudanças de fato começam em 2026, mas deverão ser percebidas a partir de 2027, segundo especialistas, quando o sistema deverá começar a rodar de fato para parte do mercado. Lá, a duplicata cartular, que se trata do documento físico e digitalizado, será substituída pela versão escritural, que nasce registrada nos bancos de dados credenciados.

Dentre os efeitos esperados está a eliminação de riscos como o da duplicidade, ou seja, de uma mesma duplicata ser descontada em duas instituições. Também há uma expectativa de queda dos spreads dessas operações, além do aumento do crédito para as empresas de menor porte. “Se trata da mudança regulatória mais importante para pessoa jurídicas, a maior transformação em décadas”, afirma Fernando Fontes, presidente da Cerc.

Ele acredita em elevado potencial de crescimento desse mercado, podendo até mesmo triplicar os volumes em cinco anos, analisando como proxy as mudanças regulatórios no mercado de cartões, que foi capitaneado pelo Banco Central para trazer competição de preço e que triplicou em quatro anos.

Não é à toa que as duplicatas que circulam no mercado não são utilizadas como garantias de operações de financiamento ou poderem ser cedidas para antecipação de recebíveis. Nas grandes empresas, contas com fornecedores são, no geral, dentro da modalidade de risco-sacado, feita juntamente com o banco.

Mas grande parte desse mercado está nos tradicionais boletos, que se trata de um meio de pagamento e não um título de crédito, e que é passível de fraude ou de outros problemas, visto que ele é um documento unilateral na qual o devedor não tem espaço de comunicação. “Esse é um mercado em que não tem penetração de crédito. E o que está fora do boleto, está fora do mercado de crédito, então é um primeiro mercado em que a duplicata escritural interessa”, diz Fontes, da Cerc. “Os bancos estão mobilizados para explorar as possibilidades”.

O diretor de produtos e estratégia de balcão da B3, Humberto Costa, aponta que hoje o mercado apresenta níveis diferentes de maturidade e que os próprios financiadores devem ajudar nesse processo. “Acredito que será uma janela longa, temos agora essa etapa regulatória. É um mercado com grande potencial”, frisa.

Fora isso, aponta, estão surgindo intermediários, especialmente fintechs, que vão atuar nesse segmento. A própria B3, que vem se preparando para o início das duplicatas escriturais, adquiriu em agosto 62% do capital social da Shipay, empresa de tecnologia especializada na integração de pagamentos digitais. Também comprou o controle da CRDC, especializada em serviços de tecnologia para agentes do setor de concessão de crédito e que atua também em infraestrutura de mercado. “O mercado vai precisar de tecnologia”, diz.

Dentre as fintechs que já atuam no segmento como marketplace de recebíveis, a Monkey aponta que o tema ainda não está no radar de todas empresas, sendo que muitas estão no momento com seus times focados nas mudanças que virão com a reforma tributária.

“Do ponto de vista da grande empresa, o sacado, que vai pagar, pode ter um problema operacional”, frisa Bruno Oliveira, cofundador da Monkey. “O cliente vai ter que lidar com milhares de transações”. As grandes empresas no seu dia a dia não costumam trabalhar com boletos, mas sim com depósitos para seus pagamentos, por exemplo. Com o crescimento do mercado das duplicatas, que vão mudar de mão conforme forem vendidas, vai mudar, para essa empresa, o destino dos pagamentos.

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