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Mesmo com Selic parada em 15%, empréstimos encareceram

por: Afonso Bazolli
em: Crédito
fonte: Valor Investe
19 de janeiro de 2026 - 17:12

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Desde que a taxa básica de juros chegou em 15%, quatro das oito principais linhas de empréstimo para pessoas físicas ficaram mais caras

Ontem (10), o Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a Selic em 15% ao ano. Mas mesmo com a taxa básica de juros estacionada no mesmo patamar desde o fim de junho, quatro das oito principais linhas de crédito pessoal do país encareceram desde então. Segundo especialistas, isso pode ser explicado pela expectativa dos bancos de que a inadimplência continue elevada.

O Banco Central elevou a Selic para 15% no final de junho de 2025. De lá para cá, os juros médios praticados na linha de empréstimo para a aquisição de outros bens saiu de 40,76% ao ano para 48,84%; as taxas do crédito pessoal não consignado saíram de 74,92% para 89,26%; os juros do consignado do setor privado subiram de 44,75% para 46,78% e os juros do cartão de crédito parcelado saíram de 168,83% para 177,27%.

Portanto, metade das oito linhas analisadas pelo levantamento do Valor Investe com dados do Banco Central mostraram um aumento nos juros praticados mesmo com a Selic estacionada em 15%.

Em contrapartida, o consignado do setor público e o consignado do INSS ficaram praticamente estáveis. O primeiro saiu de 24,31% para 24,02% e o segundo saiu de 24,31% para 24,46%.

Já as taxas do cheque especial caíram de 144,09% ao ano para 127,50% e as de aquisições de veículos saíram de 24,75% para 23,58%.

Mas se a Selic ficou igual, por que aconteceram essas mudanças?

Segundo o professor Alexandre Chaia, pesquisador do Insper, existem diferentes fatores que contribuem para a formação da taxa cobrada pelos bancos. Há, por exemplo, o chamado spread bancário, que é a diferença entre o custo que o banco tem para captar recursos e o valor que ele cobra do cliente no empréstimo. Entram nessa conta despesas com logística, salários, tributos, inadimplência e até os depósitos compulsórios que os bancos são obrigados a manter no Banco Central.

Assim, os principais fatores que influenciam nos juros cobrados pelas instituições financeiras são:

A própria Selic. Afinal, quando um banco precisa captar recursos (ou seja, pegar dinheiro emprestado para depois repassar aos clientes), ele se baseia nela;

O lucro que o banco visa ter naquele produto. Nesse caso, esse fator também costuma ser impactado pela Selic, já que ela influencia nos custos da instituição;

Os custos operacionais de cada linha. Isso porque os custos de oferecer e operar um cartão de crédito são diferentes dos custos de um crédito pessoal contratado na agência, que por sua vez também difere de um empréstimo contratado via app, por exemplo;

Os impostos pagos pela instituição financeira para oferecer aquele serviço. Mas, segundo o professor, esse custo é parecido em todas as linhas

E, por fim, o fator que mais explica o aumento de algumas linhas recentemente:

A inadimplência esperada. Isso porque, quanto menos pessoas pagam, mais alto o banco precisa cobrar de todos para “compensar” essas perdas

O que explica a inadimplência maior?

De acordo com o professor Henrique Castro, pesquisador da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV), as famílias brasileiras estão com nível de endividamento alto, o que justifica os bancos terem mantido o spread mais alto.

Para se ter uma ideia, a inadimplência das famílias brasileiras atingiu novo recorde em setembro, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada no começo de outubro pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). De acordo com o levantamento, 13% das famílias afirmaram não ter condições de pagar suas dívidas, o maior percentual desde o início da série histórica, em 2010. A inadimplência geral chegou a 30,5%, também em patamar recorde.

Por que, então, as pessoas não estão pagando suas dívidas e, portanto, pressionando as taxas de juros dos empréstimos?

Os pesquisadores estão se debruçando nas estatísticas para entender o comportamento, que pode estar sujeito a inúmeros fatores. Mas, segundo o professor do Insper, parte da resposta pode estar no crescimento das bets.

“Historicamente, o principal motivo que leva as pessoas a ficarem inadimplentes é a perda de emprego. Dados mostram que 50% das pessoas dão calote porque perderam renda de emprego, já 15% é porque alguém da família perdeu renda. Mas com o salário crescendo e pessoas empregadas, perguntei para muitos pesquisadores o motivo de a inadimplência estar aumentando. Cada um tem várias explicações, mas uma explicação em comum a todos é bet”, afirma o professor Chaia.

Dados recentes mostraram que cerca de 23 milhões de brasileiros apostaram em bets em 2024. O número é muito maior do que os que investem em produtos financeiros como Certificados de Depósito Bancário (CDBs, comprados por 10 milhões de pessoas) e fundos de investimentos (comprados por 9 milhões de pessoas).

E já houve, inclusive, setor que percebeu a mudança no padrão de consumo das pessoas desde que as casas de aposta se popularizaram no país, como foi o caso dos supermercados, que registraram uma queda no consumo.

Além disso, no começo de agosto, a Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) em parceria com a AGP Pesquisas, divulgou o estudo “Efeito das apostas esportivas no varejo brasileiro”, que revelou que 63% dos brasileiros que apostam on-line tiveram parte de sua renda comprometida com essas atividades.

Segundo Chaia, os dados mostram que é possível que as famílias estejam migrando parte de sua renda para as apostas e abrindo mão de outros gastos e até mesmo do pagamento de dívidas. “O varejo pode até não sentir tanto, porque há muita compra parcelada. Mas setores em que o pagamento é à vista, como o de supermercados, já percebe essa queda no consumo”, diz.

O professor Castro concorda que as bets podem estar piorando a saúde financeira das famílias, especialmente porque há uma percepção equivocada do que efetivamente representa uma aposta esportiva. “Eu tendo a concordar que as bets pioram a saúde financeira das famílias e esse problema é importante porque muita gente acredita nelas não só como forma de diversão, mas como forma de investimento, o que não é”, afirma.

E a tendência daqui em diante, qual é?

Segundo analistas, a situação se torna ainda mais complexa porque a tendência, daqui em diante, não é que isso melhore muito. Primeiro, porque não tem sido feito muitos esforços para atacar o problema social que as apostas podem gerar. Além disso, com incertezas relacionadas à economia daqui em diante, especialmente em um ano eleitoral, é possível que o cenário como um todo se deteriore, o que afeta mais ainda a inadimplência.

“Quando o Banco Central começar a reduzir a taxa Selic vai haver uma queda nos juros cobrados das linhas dos consignados públicos e dos créditos com garantia de bens e imóveis, contudo pode haver um aumento no custo das demais linhas de empréstimos porque a expectativa para a inadimplência em 2026 está aumentando e as instituições financeiras começaram a precificar essa piora”, explica o professor Chaia.

O professor Castro destaca, ainda, que a Selic deve cair, mas não de maneira tão intensa. “Não vamos entrar em um regime de juros baratos. O Brasil continua com juros elevados para o próximo ano, é isso que o mercado está precificando hoje. Os juros até vão cair, mas muito lentamente. Então, a gente pode verificar queda nas taxas de crédito, mas a gente não vai ter um cenário de águas tranquilas”, diz.

Portanto, a combinação entre inadimplência persistente, uso crescente de renda em atividades de aposta e um ambiente econômico carregado de incertezas tende a manter os bancos cautelosos e os juros elevados.

Casas de apostas rebatem a teoria

O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que representa algumas das principais casas de aposta do país, rebateu as alegações. Segundo a entidade, críticas recentes ao setor ignoram dados oficiais sobre as reais causas do endividamento no Brasil e distorcem o papel das apostas regulamentadas no país.

De acordo com o IBJR, a inadimplência elevada tem como principais causas “juros elevados, baixa educação financeira e a ausência histórica de limites aos abusos do sistema de crédito”.

Leia na íntegra o comunicado do IBJR:

“O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que reúne as principais empresas de apostas do Brasil e do mundo, manifesta seu repúdio às críticas direcionadas ao setor de apostas esportivas regulamentadas envolvendo empréstimos e o endividamento da população.

Dados recentes da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do Comércio, mostram que quase 80% das famílias brasileiras estão endividadas, tendo o cartão de crédito — e não as apostas — como principal vetor desse endividamento. Trata-se de um instrumento massivamente ofertado no país, frequentemente associado a taxas de juros que ultrapassam qualquer padrão internacional. Vale destacar que cartão de crédito não é aceito pelos operadores devidamente regulamentados no Brasil.

Os lucros bilionários do sistema financeiro são públicos e transparentes. Se a inadimplência fosse, de fato, o problema estrutural alegado, as provisões reduziriam de forma significativa esses resultados — o que claramente não ocorre. Isso porque o risco é repassado ao consumidor de forma automática, via spread bancário, há décadas, sem barreiras efetivas ou mecanismos robustos de incentivo ao crédito responsável.

Surpreendentemente, não há no país um debate sério sobre empréstimo responsável, apesar de ser ali que nasce boa parte do endividamento crônico da população. Ainda assim, tenta-se construir uma narrativa infundada de que o setor de apostas seria protagonista nesse cenário.

A realidade é mais complexa e exige honestidade: juros elevados, baixa educação financeira e a ausência histórica de limites aos abusos do sistema de crédito são fatores determinantes para o ciclo de endividamento que atravessa gerações no Brasil.

Tampouco é admissível utilizar números de 2024 — anteriores à atual regulamentação das apostas esportivas — para sustentar críticas ao setor. Desde a regulamentação, o IBJR tem atuado pela consolidação de um ambiente rigorosamente fiscalizado, com operadores autorizados, regras claras e compromisso efetivo com a conformidade e com a proteção ao consumidor.

O IBJR reforça seu compromisso com o diálogo qualificado para o desenvolvimento de um mercado regulado, seguro e responsável, que contribua para a economia brasileira e fortaleça mecanismos de proteção ao consumidor”.

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