
Com recursos recordes no Plano Safra, o agronegócio não enfrenta escassez de crédito, mas um encarecimento que pressiona balanços, eleva a inadimplência e desloca o debate da oferta para a qualidade do financiamento
Há anos se repete que o principal problema do agronegócio brasileiro é a falta de crédito. Esse discurso, porém, não resiste a uma leitura atenta dos números. O Plano Safra 2025/2026 anunciou um volume recorde de R$ 516,2 bilhões para o setor. Em termos de oferta, o dinheiro está disponível. O ponto central, quase sempre deixado de lado no debate, é que esse crédito nunca foi tão caro. O resultado é um aperto financeiro que não aparece nos anúncios oficiais, mas pesa no dia a dia do produtor rural.
Na prática, a situação se assemelha a ter acesso a um financiamento elevado, mas com parcelas que crescem rápido demais. Do total colocado à disposição no Plano Safra, apenas 34%, o equivalente a R$ 174,6 bilhões, contam com juros reduzidos por meio de equalização do governo. Os outros 66% vêm de recursos livres, com taxas que seguem os juros da economia, hoje próximos de 15% ao ano. Esse movimento fez o custo do dinheiro usado para custear a produção subir de forma relevante, passando de cerca de 12% para 14% ao ano em apenas uma safra.
Esse encarecimento não aparece no campo, na produtividade ou na área plantada. Ele surge com clareza nos balanços financeiros. A inadimplência do crédito rural encerrou 2025 em 6,5%, o maior patamar já registrado. Em 2024, esse índice era de 2,3% e, em 2023, de apenas 1,1%. Esses números mostram que não se trata de uma crise de produção ou de mercado, mas de uma dificuldade crescente para sustentar o custo das dívidas ao longo do tempo. O agro segue eficiente na porteira para dentro, mas começa a ficar pressionado na parte financeira.
Para entender por que o crédito doméstico se tornou tão pesado, é preciso olhar para o próprio custo do dinheiro no país. Hoje, títulos da dívida brasileira em dólar, com vencimento de longo prazo, pagam mais de 7% ao ano. Quando o Estado remunera o capital nesse nível, cria uma referência elevada para todo o sistema financeiro. Bancos e investidores dificilmente emprestam ao produtor rural por um custo menor do que ganhariam financiando o governo. Esse efeito se espalha pela economia, aumenta os spreads e encarece o crédito na ponta.
Com isso, o produtor acaba preso a um modelo financeiro caro, intermediado e pouco ágil. O dinheiro circula, mas passa por uma estrutura pesada, com múltiplas camadas de custos. Poucos agentes controlam os caminhos do crédito e cobram margens que nem sempre refletem o risco real do agronegócio, mas sim a falta de alternativas mais diretas e eficientes.
A solução dificilmente virá da simples ampliação de subsídios, que já mostram limites claros do ponto de vista fiscal. O caminho tende a ser estrutural e tecnológico. Ganham espaço, aos poucos, formas mais diretas de financiamento, como antecipação de receitas de exportação, operações ligadas ao comércio exterior e novas soluções digitais que reduzem intermediários, encurtam prazos e ajudam a diminuir o custo do capital.
O agronegócio brasileiro segue como um dos principais motores da economia. Mas até os motores mais robustos sofrem quando o custo para mantê-los em funcionamento fica alto demais. O debate que realmente importa não é o volume bilionário anunciado em coletivas de imprensa, e sim a qualidade do crédito que chega ao produtor. Se o custo do dinheiro continuar distante da realidade das margens do campo, a pergunta deixa de ser quando virá a próxima safra recorde e passa a ser onde o produtor conseguirá capital sem carregar um peso financeiro tão grande.
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