
Presidente do Itaú vê eleições polarizadas novamente e diz que falta clareza ao mercado sobre os candidatos que deverão se posicionar no centro-direita para concorrer com Lula
À frente do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, que passou a semana inteira no Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês), afirma que há interesse de investidores no Brasil, embora as incertezas sobre as eleições possam gerar volatilidade, sobretudo de fundos que olham o curto prazo. Ele também diz acreditar que os empresários estejam retendo seus planos de investimentos diante das incertezas com a sucessão presidencial.
O executivo vê eleições polarizadas novamente e diz que falta clareza ao mercado sobre os candidatos que deverão se posicionar no centro-direita para concorrer com Luiz Inácio Lula da Silva.
Maluhy afirma não ver um risco sistêmico decorrente da quebra do Banco Master. Porém, ressalta que hoje há uma assimetria no mercado, com desequilíbrio entre quem distribui os papéis e os riscos para o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) —cuja receita vem de contribuição paga pelos bancos associados. “Esse é um ponto que tem de estar muito no radar porque no fim do dia a gente parte da premissa de que a responsabilidade primária de qualquer distribuidor é com a curadoria. O Itaú nunca distribuiu um CDB do Master porque a gente sempre teve nosso processo de curadoria e entendeu que não era o caso de distribuir o produto, apesar da taxa e das comissões elevadas”, afirma, em entrevista ao Valor. A seguir, os principais trechos da entrevista:
Valor: Qual é o ponto mais sensível hoje na crise do Master?
Milton Maluhy Filho: Há assimetria, um desequilíbrio entre os incentivos, entre o distribuidor e os riscos do FGC. E esse é um ponto que tem de estar muito no radar porque a gente parte da premissa de que a responsabilidade primária de qualquer distribuidor é com a curadoria. O Itaú nunca distribuiu um CDB do Banco Master, porque sempre tivemos nosso processo de curadoria e entendemos que não era o caso de distribuir o produto, apesar da taxa e das comissões elevadas. O Banco Central precisa encontrar mecanismos e regras para que todos participem desse processo e para que os incentivos estejam adequados para todos os elos da cadeia. O evento do Master é de magnitude muito relevante. Se considerar o que já foi liquidado e o que o fundo já vinha resgatando CDBs como linha de assistência de liquidez, mais o caso do Will Bank, a gente pode estar falando de aproximadamente R$ 55 bilhões. O FGC tem por volta de R$ 120 bilhões de patrimônio.
Valor: Como deveria ser a recomposição do fundo?
Maluhy: O fundo tem suas regras e governança própria. Em todo esse processo, os bancos não têm nenhum tipo de participação. A gente é um grande contribuinte do FGC. Esse é o arcabouço, são os técnicos que vão lidar com o tema. É evidente que tem conversas acontecendo para discutir cenários, como fazer o ajuste às contribuições. O BC e o FGC podem trabalhar em mecanismos para suavizar os impactos, para que no final do dia o impacto para o consumidor, tomador de crédito, seja o menor possível. Esse é o grande objetivo, porque a conta é muito grande e vai ser paga. É preciso suavizar o impacto para que não onere o tomador de crédito e o depositante.
Valor: Vê risco para o BRB?
Maluhy: Não tenho nenhuma visibilidade sobre o caso específico. O que posso dizer é que tenho visto a equipe do Banco Central muito dedicada ao tema, com a autonomia necessária para tomar as decisões.
Valor: O Itaú está comprando carteira do BRB?
Maluhy: Compras de carteira sempre ocorreram no mercado. É natural que essas operações aconteçam com frequência. A gente não fala de casos específicos até pelo sigilo bancário e informações que são negociadas. Mas estamos sempre atentos a oportunidades de compra e venda de carteira, é da natureza da nossa atividade.
Valor: A agenda geopolítica tomou conta de Davos. Como o senhor. avalia a participação de Donald Trump no Fórum Econômico?
Maluhy: A vinda do Trump foi um marco importante. Existe ainda grande ansiedade por parte da Europa e do resto do mundo para entender um pouco esse novo posicionamento dos EUA. A Europa tem seus desafio de crescimento, de segurança, de custo de energia. Os EUA estão muito mais voltados para dentro e trazendo uma nova guerra, que é a tarifária. Foi um discurso consistente com o que ele vem dizendo, batendo nos pontos que ele sempre faz. De uma certa forma, foi um respiro nos mercados na terça-feira quando ele disse que não iria usar a força para atacar a Groenlândia. Outro tema que tem pautado bastante os EUA é a agenda de custo de vida no país. No fim do ano, tem as eleições de meio mandato, que são muito importantes. A gente sabe que, historicamente, a popularidade, a taxa de aprovação do presidente influencia o resultado.
Valor: E no Brasil? Os investidores estão receosos com as eleições?
Maluhy: A gente tem visto uma realocação de portfólios relevantes para os países emergentes, bolsa performando muito bem, e investidores olhando para a qualidade das empresas no Brasil. Independentemente do cenário macro, vários países emergentes estão se beneficiando desses fluxos de capitais, o Brasil não é diferente. Tem dois públicos de investidores olhando as eleições no Brasil. O de mais longo prazo quer entender as questões estruturais do país. Os de portfólio, de curto prazo, estão mais preocupados. O mercado tende a antecipar esses eventos, na bolsa, na taxa de juros e no câmbio. Então, podemos ver ao longo do ano certa volatilidade em função disso.
Valor: Como o sr. vë a disputa eleitoral deste ano?
Maluhy: Há ainda grande polarização no país, não é um fenômeno novo. Não vai ser diferente em 2026. O plano ainda não está 100% claro. Sabemos que o Lula, sem dúvida, é candidato à reeleição. Por outro lado, o espectro centro-direita está se organizando para ter os candidatos definidos. Entre março e início de abril, a gente vai ter mais clareza de quem, de fato, serão os candidatos.
Valor: Como o sr. vê o centro-direita neste momento, considerando que o senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ) despontou como pré-candidato?
Maluhy: A gente não tem visibilidade ainda de como vai se desenhar. Escutamos vários governadores já se posicionando como candidatos, mas eles têm que se desincompatibilizar nos próximos meses. Daí teremos mais clareza de quem de fato vai se desincompatibilizar. É difícil um prognóstico com as informações atuais.
Valor: Como está o mercado de crédito? Mais ou menos restrito?
Maluhy: Acho importante separar a foto do filme porque ambos podem contar histórias muito diferentes. Quando a gente olha o Brasil hoje, tem indicadores econômicos muito robustos. Claramente vê o trabalho do Banco Central para conter inflação, que foi muito estimulada também pelo consumo, com toda a transferência de renda feita nesses programas. Este ano tem isenção do Imposto de Renda, que traz mais recursos. O consumo ainda é muito resiliente, o que faz com que principalmente a inflação dos serviços fique muito resiliente. Isso dificulta claramente o trabalho da política monetária. A gente vem trabalhando com alguns elementos muito relevantes. Primeiro, uma expansão fiscal muito forte, uma política fiscal expansionista e uma política monetária restritiva, com juros estruturalmente elevados. Esse tem sido o tripé. E o trabalho do Banco Central é trazer a inflação para um patamar mais baixo porque a inflação é o pior imposto para as classes menos favorecidas. Agora, não podemos assumir que, apesar de a inflação estar sob controle, que o filme vai levar a gente a tomar as medidas necessárias. Então, todo esse controle do lado fiscal é fundamental. O arcabouço, da forma como está desenhado, traz um impacto muito lento para fazer o ajuste necessário. É preciso criar condições estruturais para que a taxa de juros caia. Nossa melhor expectativa é que os juros terminem o ano por volta de 12% a 12,75% e a inflação convergindo para próximo de 4%.
Valor: Mas afeta o crédito?
Maluhy: A gente não vê uma crise de crédito acontecendo. Evidente que com esse nível de juros vemos alguns segmentos mais impactados, especialmente setores que trabalham com alavancagem de endividamento muito alta e margens menores. Se os juros caírem de forma relevante, acho que vira um cenário benigno em que a gente volta a ver as empresas voltarem a investir. Com juros alto, as médias e pequenas empresas sofrem mais.
Valor: Qual será o desafio próximo governo?
Maluhy: O maior desafio do próximo governo, seja qual for, é fazer uma grande reforma orçamentária para que tenha mais flexibilidade na gestão do orçamento, nas indexações que existem, atacar o gasto. A gente precisa entrar numa era reformista para que se possam criar as condições estruturais para o país aproveitar e se beneficiar nos próximos anos de tudo o que está acontecendo no mundo. Tem de ter uma grande agenda de produtividade, foco em crescimento, em um ajuste estrutural da dívida pública para abrir espaço para o que efetivamente faz o país crescer, que é o investimento privado. Ele é muito mais relevante no longo prazo que o investimento público, que é importante e necessário, mas precisam ser complementares.
Valor: O sr. vê os empresários mais pessimistas?
Maluhy: Num país com juros no patamar que a gente tem e num ano eleitoral e com essas incertezas todas, nenhum empresário gosta de trabalhar num ambiente assim. O que existe hoje na mesa é uma incerteza sobre como vai ser o cenário, os planos dos candidatos, qual é a convicção do governo em relação a expansão fiscal e reformas. Muitos empresários estão em compasso de espera. Com juros e altos, é difícil tomar decisões de alocação de capital. O maior desafio que a gente tem hoje é reduzir o custo de capital do Brasil. O custo de capital não é só a taxa de juros, é o ambiente institucional, é a segurança jurídica, é a tranquilidade que o investidor tem que ter para saber quanto custa, quanto espera de retorno para investir no Brasil.
Valor: Como foi a participação do Itaú em Davos neste ano?
Maluhy: Grande parte do nosso papel e de todas as empresas que vieram para cá é vender o Brasil. É falar das nossas qualidades, dos nossos ativos, que são muitos, mas existe muita dúvida sobre a questão da institucionalidade, sobre as questões jurídicas e sobre a questão da sustentabilidade fiscal.
Valor: O sr. sempre foi muito vocal sobre a regulação das fintechs. Como vê o cenário hoje?
Maluhy: A gente é super a favor da competição e acho que o banco se transformou ao longo desses anos graças à nova competição e à competição que sempre houve no sistema financeiro. A disputa não se dá criando barreiras para a competição. Não é nisso que a gente acredita. Precisamos ter as mesmas condições. Houve uma agenda de inovação importante. Para quem olha, aparecem só os benefícios. No médio e longo prazos, aparecem os problemas estruturais. Houve, sem dúvida, um excesso na abertura do mercado de fintechs. Mas é preciso estar preparado para que do lado da supervisão haja a capacidade de acompanhar a evolução desses novos entrantes, que não necessariamente precisam ter as mesmas regras que nós. Defendo muito que a gente tenha as mesmas regras para as mesmas atividades e proporcionalidade.
Valor: Precisa haver mais mudanças?
Maluhy: Diante de toda a crise que no setor de fintechs, as fraudes subiram muito, recursos não convencionais acabaram vindo para dentro do sistema financeiro, a gente acaba impactando o crime organizado na medida que esses recursos entram dentro do sistema. E esse é o trabalho do regulador, cuidar. Neste mandato do Banco Central vejo uma preocupação muito grande com esses temas. A gente fala das fintechs, desses bancos que estão sendo liquidados. Naturalmente, existe um freio de arrumação que precisa ser feito. A gente está diante de um freio de arrumação agora, que coincidiu com o mandato do Gabriel Galípolo.
Valor: Muito se discutiu em Davos se a Inteligência Artificial seria uma bolha. O que acha?
Maluhy: Muito se falou se IA é uma bolha, os grandes líderes das empresas de tecnologia se posicionaram, dizendo que se fosse algo exclusivamente sendo feito dentro dessas companhias, tentando criar um mercado, poderia estar se falando de uma bolha se esses investimentos não produzirem os efeitos esperados no longo prazo. A gente já vê hoje no próprio Itaú Unibanco que temos conseguido melhorar a produtividade, a experiência do cliente, ganhar velocidade e entrar nessa nova área da experimentação, e a gente quer estar na vanguarda disso. A sensação é que não é bolha. Agora, vai depender muito da capacidade de a inteligência artificial ser escalável no mundo todo.
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