
Investigação apura lavagem de dinheiro do Comando Vermelho e mostra ligação com Fictor, que tentou comprar o Master
A Polícia Federal (PF) deflagrou ontem uma operação, batizada de Fallax, para desarticular um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo um braço do Comando Vermelho (CV) no interior paulista e o Grupo Fictor, que ficou conhecido pela tentativa frustrada de compra do Banco Master. Segundo a investigação, o esquema pode ter movimentado R$ 500 milhões em três anos e cooptou funcionários de grandes instituições financeiras, como a Caixa. Depois das operações Carbono Oculto e Compliance Zero, a nova investida indica que a infiltração do crime organizado no sistema financeiro pode ter mais tentáculos que os identificados até agora.
De acordo com a PF, foram cumpridos 43 mandados de busca e apreensão e 21 mandados de prisão preventiva nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. A investigação começou em 2024, quando foram detectados indícios de um esquema estruturado voltado à obtenção de vantagens ilícitas. O grupo criminoso atuava por meio da cooptação de funcionários de instituições financeiras e da utilização de empresas, inclusive vinculadas a um grupo econômico específico, para a movimentação de valores e ocultação de recursos ilícitos.
O grupo utilizava empresas de fachada e estruturas empresariais para dissimular a origem dos recursos ilícitos. Funcionários de bancos inseriam dados falsos nos sistemas para viabilizar saques e transferências indevidas. Posteriormente, os valores eram convertidos em bens de luxo e criptoativos, com o intuito de dificultar o rastreamento.
O delegado da PF em Piracicaba, que está à frente do caso, Florisvaldo Neves, disse ao Valor que as investigações apontaram trocas de mensagens por meio de Whatsapp, principalmente em 2023, entre Thiago Branco de Azevedo, apontado como o responsável pelo esquema de lavagem e de fraudes contra bancos, e Rafael Góis, sócio e CEO do Grupo Fictor, Luiz Rubini, ex-sócio do Fictor, e Rafael Paixão Ferreira Giuseppe, também ligado ao grupo. Azevedo teria ligação com a facção criminosa Comando Vermelho.
Endereços dos nomes ligados à Fictor foram alvos de mandado de busca e apreensão. Foi pedida a quebra de sigilo fiscal e bancário de Góis, Paixão e Rubini. Foram os três que, por meio de uma empresa chamada RPR Capital tentaram comprar o Master no dia 17 de novembro do ano passado, véspera da liquidação do banco de Daniel Vorcaro pelo Banco Central (BC).
Os sócios da Fictor, no entanto, são apenas parte da investigação, segundo o delegado. O foco é a atuação criminosa atribuída a Azevedo. As investigações começaram em 2024, mas há indicações de que o homem vinha atuando desde 2019. O modo de agir era relativamente simples. “Ele abria centenas de empresas, simulava atividade econômica relevante dessas empresas e ia ao mercado para tomar empréstimos. E os gerentes das agências bancárias fechavam os olhos em troca de propina”, disse Neves.
Em 2024, uma investigação do Ministério Público mostrou que um grupo criminoso de Rio Claro (SP), chamado de Bonde do Magrelo, que seria um braço do Comando Vermelho na região, estava lavando dinheiro com o esquema de empresas de fachada e empréstimos fraudulentos de Azevedo. Ainda segundo o delegado, o investigado tem histórico de golpista. “O esquema dele com empréstimos bancários servia para lavar dinheiro para qualquer crime”, afirmou. “A gente identificou também que sócios ou diretores do Grupo Fictor mantinham contato com esse lavador de dinheiro e solicitavam que ele fizesse movimentações.”
A propina paga aos gerentes de bancos variava de acordo com o volume do empréstimo. Ia de R$ 10 mil a R$ 30 mil por operação. Na tentativa de não levantar suspeitas nas instituições financeiras, as empresas de fachada tomavam pequenos empréstimos. Pagavam em dia as parcelas dos primeiros contratos e após um ano ou pouco mais, quando, já tinham conseguido levantar novos recursos, paravam de honrar as dívidas e seus representantes sumiam. Os empréstimos costumavam não ultrapassar a marca dos R$ 500 mil. “O ‘know your customer’ [conheça seu cliente, prática exigida das instituições financeiras] simplesmente não era observado como deveria ser”, afirmou o delegado.
De acordo com Neves, ao menos um dos gerentes que recebiam propina do esquema concedeu empréstimos às empresas de fachada enquanto trabalhava em um banco e, quando mudou de emprego e foi para outra instituição, manteve a prática de colaborar com os criminosos, liberando novos créditos.
Pelas investigações, a Caixa foi a principal instituição lesada pelo esquema. Bradesco e Santander também concederam empréstimos, disse o delegado.
“Os gerentes das agências fechavam os olhos em troca de propina [...] O ‘know your customer’ não era observado”
— Florisvaldo Neves
Em nota, a Caixa informou que “atua permanentemente em cooperação com os órgãos de segurança pública e de controle, especialmente a Polícia Federal, no combate a fraudes bancárias, estelionatos e crimes de lavagem de dinheiro”. Também destacou que, “por envolver investigação em curso, a Caixa respeita o sigilo legal do processo e reforça que eventuais esclarecimentos adicionais devem ser solicitados às autoridades responsáveis pela operação”.
O banco disse ainda que a operação deflagrada é resultado de investigações conduzidas com base em informações e comunicações realizadas pela Caixa no curso regular dos mecanismos de monitoramento e notificação de indícios suspeitos. Na nota, a instituição reiterou “que possui políticas rigorosas de prevenção e combate a fraudes, lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo, alinhadas às melhores práticas de mercado, à legislação vigente e às normas dos órgãos reguladores”.
Também procurado pelo Valor, o Bradesco informou em nota que confia no trabalho da Polícia Federal e aguarda o desfecho das investigações. O Santander não se pronunciou.
Sobre Góis, a Fictor afirmou, em nota, que “apenas seu celular foi apreendido” na operação da PF e que, “assim que tiver acesso ao conteúdo da investigação, prestará os esclarecimentos necessários às autoridades”. Também em nota, a assessoria de Rubini disse que sua defesa “não teve conhecimento prévio do processo e se manifestará oportunamente”. Azevedo não foi localizado.
Na operação foram determinados o bloqueio e o sequestro de bens imóveis, veículos e ativos financeiros até o limite de R$ 47 milhões a fim de descapitalizar a organização criminosa. A PF informou que foram autorizadas medidas cautelares para o rastreamento de ativos financeiros, incluindo a quebra de sigilo bancário e fiscal de 33 pessoas físicas e 172 empresas. “Os investigados poderão responder pelos crimes de organização criminosa, estelionato qualificado, lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta, corrupção ativa e passiva e crimes contra o sistema financeiro nacional, cujas penas, somadas, podem ultrapassar 50 anos de reclusão”, destacou a PF. “Fallax” vem do latim, significando enganoso, falso ou fraudulento.
O caso voltou a colocar em evidência a Fictor e seus sócios, que, embora fossem pouco conhecidos, mantinham conexões políticas em Brasília. Rubini é integrante do Conselho do Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS, o Conselhão), um órgão consultivo da Presidência da República, e há relatos de que seria próximo a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula.
Fontes próximas à Fictor negam que o grupo ou Rubini tivessem qualquer relação comercial com Lulinha. A interlocutores, o ex-sócio da Fictor admite que o conhece, mas que o viu poucas vezes e não são amigos. Ele alega que foi convidado a participar do Conselhão por ter atuado em painéis e fóruns sobre segurança alimentar – a Fictor tinha investimento em frigoríficos – e pela tese de inclusão financeira por meio do crédito facilitado.
A Fictor Holding e a Fictor Invest entraram pediram recuperação judicial em fevereiro, após crise de liquidez associada ao Master, com dívida de R$ 4,257 bilhões. O polo ativo depois foi ampliado pela Justiça para 43 empresas – 28 solicitadas pela própria Fictor e outras 13 indicadas pela perícia do processo -, mas deve cair para 22 companhias após decisão em segunda instância que suspendeu a inclusão da joint venture Fictor & WTT e suas subsidiárias.
A Fictor captava recursos por meio de Sociedades em Conta de Participação (SCPs). Segundo a petição de recuperação judicial, a empresa levantou cerca de R$ 3 bilhões por esse instrumento, mas, até o fim de janeiro os resgates já se aproximavam de 71,4% do valor aportado. Paralelamente, o grupo enfrentou cortes e revisões de contratos comerciais, o que dificultou as operações e levou à necessidade de liquidação de ativos.
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