
O avanço rápido do crédito não-bancário pode vir a representar um risco financeiro
A liquidação do conglomerado Master trouxe pouca preocupação para as instituições financeiras, que voltaram sua atenção para o aumento generalizado da inadimplência. Apesar de o império de Daniel Vorcaro ter custado R$ 40,4 bilhões ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que ressarce investidores até R$ 250 mil, ele não trouxe risco sistêmico. A inadimplência é a maior ameaça presente ao sistema, sobre a qual os bancos têm se desincumbido bem, sem perda de rentabilidade e com provisões suficientes. Mas, segundo o Relatório de Estabilidade Financeira do Banco Central, “a capacidade de pagamento das empresas e das famílias segue desafiadora”.
O relatório cobre todo o ano de 2025 com uma pesquisa junto a bancos feita em fevereiro, e indica alguns padrões previsíveis de comportamento. O mais importante deles é que as instituições financeiras apertarão as condições de crédito tanto para famílias quanto para empresas, em especial as grandes. A performance dos dois segmentos, porém, é diferente. Já havia uma mudança no uso do crédito ao consumidor, das modalidades mais caras para as de menor custo, em especial os contraídos em cartões de crédito e no crédito não consignado, que tinha crescido velozmente.
É na categoria do não-consignado em que há maior concentração de ativos problemáticos, com pagamentos em atraso, com 13% do total sob observação, acima já dos empréstimos com cartão de crédito (11%). Pelos cálculos do BC, a probabilidade maior de default (calote) recai sobre 10% dos empréstimos da modalidade.
O crédito para empresas diminuiu para todos os portes. Para o BC, “o aperto monetário não afetou de forma relevante a capacidade de pagamento das empresas da maioria dos setores”. Mesmo com condições financeiras mais restritivas, a capacidade de pagamento (dívida/ebitda) e o Índice de Cobertura de Juros (receitas para pagar dívida financeira) foram mantidas em “níveis adequados”, segundo o relatório.
Não se trata, no entanto, de uma situação confortável. O risco de calote do estoque de débitos das microempresas é de 24%, o das empresas pequenas, de 19%, o das médias, de 13%, e o das grandes, de 3,9%. A concessão de crédito a pequenas empresas fugiu ao padrão e cresceu muito porque elas tiveram acesso a programas de incentivos ao crédito, como o Programa Emergencial de Acesso ao Crédito, que passou a servir de canal para financiamento de empresas atingidas então pelo tarifaço de Donald Trump e, agora, também a companhias com exportações afetadas pelo conflito no Irã.
Um elemento de atenção presente no relatório é o crescimento do mercado de capitais na oferta de crédito, que se expandiu muitas vezes mais que o próprio crédito bancário. Aumentou a emissão de debêntures, notas comerciais, cédulas de produto rural e outros, dinheiro que desagua em fundos de investimentos, que por sua vez investem em cotas de outros fundos, em um cipoal de relações cuja transparência nem sempre é grande e que geralmente estão a cargo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Sem relacionar o diagnóstico ao que ocorreu ao Banco Master, o relatório expõe claramente as brechas pelas quais dinheiro sujo se infiltrou no sistema financeiro e como é difícil o que parece simples: identificar os donos do dinheiro. “Ativos ambientais, créditos litigiosos, precatórios e recebíveis de crédito com falhas no processo de originação, investimentos no exterior, em empresas de capital fechado e em projetos imobiliários, dentre outros, podem estar presentes na carteira de fundos, especialmente os estruturados”, aponta o BC. “A baixa liquidez e a limitação de informações completas e confiáveis sobre a real qualidade, exposição e recuperabilidade desses ativos adicionam incerteza a sua avaliação. A complexidade intensifica-se quando outros veículos – como fundos de cotas ou multimercados – adquirem cotas desses fundos, criando camadas adicionais de opacidade e dificultando a avaliação agregada de riscos”.
Não é pouco dinheiro a rastrear: R$ 2 trilhões em dezembro de 2025. No caso de fundos que investem em cotas de outros fundos, eles representavam 29% do total e apenas 1% dos ativos do sistema financeiro global, mas 14% do dinheiro aplicado no mundo todo nesse tipo de veículo.
A regulação precisa ser aperfeiçoada e caminhos a futuros casos Vorcaro, barrados. Cotas de fundos offshore, investimentos alavancados e risco de crédito de contrapartes não são identificadas. Mesmo que as regras exijam informações da base de cotistas, diz o relatório, o beneficiário final das cotas associadas a cerca de 10% do patrimônio líquido não é identificado, pois se trata de cotas detidas por investidores não residentes ou por sociedades cujo conhecimento dos proprietários é de caráter sigiloso.
O avanço rápido do crédito não-bancário pode vir a representar um risco financeiro. Mas o que o caso Master mostrou é que há nele brechas legais pelas quais se insinuam contraventores de toda ordem. Esse é mais um motivo para que o BC redobre vigilância e laços com a CVM e que esta seja enfim sustentada com recursos compatíveis com o tamanho gigantesco de suas tarefas.
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