
Com empresas médias e receita de tarifas, instituição vê espaço para elevar ROE em até 3 pontos
A diversificação de receitas do banco ABC Brasil, estratégia adotada nos últimos anos para reduzir a dependência do crédito e tornar o resultado menos volátil, também deve colaborar para elevar a rentabilidade. Juntamente com a expansão para atender empresas de médio porte (“middle market”), onde também já colhe frutos, a expectativa é que isso ajude o retorno sobre patrimônio (ROE) a subir de dois a três pontos percentuais no médio prazo. No ano passado, esse indicador foi de 15,2%.
Completando cinco anos no cargo, o CEO do ABC, Sérgio Lulia, afirma que o banco não dá grandes guinadas e que seus avanços são incrementais, mas constantes. “Tem um ditado que diz: ‘mire na lua e atinja as estrelas’. Eu não gosto de me comprometer com algumas metas, porque às vezes você gera expectativas que não são factíveis no curto prazo. [...] O atual patamar de rentabilidade não é algo que nos deixe supersatisfeitos, porque a gente tem consciência de que esta é uma franquia que tem capacidade de dar mais. Mas isso é um tijolinho em cima do outro, são várias iniciativas que vão amadurecendo”, diz.
A entrada no middle, retomada em 2019, trouxe transformações para o banco. O número de clientes saiu de 1,5 mil para 4,7 mil e as esteiras de produtos foram automatizadas. O segmento já representa 17,0% da carteira de crédito, ou 8,6% se for considerada a carteira expandida (que inclui também títulos privados e garantias).
Em meio a um contexto mais difícil no ano passado, o banco adotou uma postura cautelosa no crédito e desacelerou um pouco no segmento de médias empresas, o que ajudou a inadimplência total a cair de 1,1% em 2024 para 0,4% em 2025. Para este ano, a projeção é que a carteira de crédito geral cresça de 6% a 10%, enquanto no middle deve aumentar de 12% a 18%.
“O PIB do Brasil tem crescido bastante, mas muito em cima do agro. No middle, as empresas estão muito mais em serviços e na indústria, que são segmentos da economia que cresceram muito pouco nos últimos anos”, diz Lulia. Ele aponta ainda que o ABC teve uma curva de aprendizado no middle, tanto no custo de servir quanto, mais recentemente, nos modelos de crédito. “Agora, a gente começou a fazer uma modelagem de crédito com maior envolvimento de tecnologia, de dados livres de terceiros, um fluxo mais automatizado. E também houve um aprendizado até do ponto de vista de oferta de produto, de momento de oferecer o produto.”
Com muitas empresas grandes enfrentando dificuldades para lidar com suas dívidas, o executivo diz que o cenário é desafiador, motivado pelo contexto de juros altos por muito tempo e baixo crescimento da produtividade. “É um ano de cautela, sem sombra de dúvida. O juro alto por muito tempo vai tendo um efeito cumulativo no balanço das empresas. Uma vantagem que tem desta vez em relação a outros momentos é que o perfil das dívidas estava muito alongado. Não estou vendo nenhuma crise de crédito mais contundente, mas é um cenário de cautela.”
No agro, o ABC iniciou nos últimos anos um projeto para trabalhar com produtores menores – acima de 10 mil hectares – inicialmente no Centro-Oeste. O segmento sofreu muito no ano passado, especialmente em culturas como a soja, mas Lulia diz que isso não quer dizer necessariamente que seja uma fase ruim para expansão. “É melhor entrar num momento onde está todo mundo com os olhos bem abertos, com atenção, porque daí você consegue negociar condições de preço corretas. Se você entrar no momento em que há aquela euforia, entra com preço errado, com prazo errado e com garantia errada.”
O banco criou no ano passado uma vertical específica para o agro, que coordena o trabalho das equipes regionais pelo país. O mesmo foi feito para o setor imobiliário, que se mostrou resiliente nos últimos trimestres e tem perspectivas melhores com a esperada queda de juros. “A gente vê algumas incorporadoras com dificuldade de ter as margens que tinham antes, mas no geral é um segmento que está muito saudável. Com essa verticalização, você atende melhor os clientes, pois são produtos muito específicos”, afirma.
As novas verticais também ajudam na estratégia do ABC de ampliar as receitas de tarifas. No imobiliário, por exemplo, para todas as obras a construtora tem de apresentar um contrato de seguros, oferecido pela corretora do grupo. “A gente tem hoje um relacionamento com mais de 20 seguradoras. Consigo fazer grandes riscos, seguro performance, seguro de crédito, toda a família de seguros.”
Lulia afirma que a corretora já é um resultado importante para o banco, assim como outras iniciativas, que agora estão maduras. “O banco de investimento triplicou de tamanho. Temos a comercializadora de energia elétrica e mesmo outros produtos como a parte de derivativos. A gente montou uma mesa de carbono, que não é um mercado que vai ser gigante da noite para o dia, mas terá um crescimento constante. Então, hoje tem iniciativas que a gente nem encara mais como uma diversificação porque já fazem parte do negócio e foram conquistando esse espaço aos pouquinhos”, diz.
Com o crescimento do banco, o ABC deve mudar de sede em meados do ano. Vai para um prédio novo, na região da Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, com 11 mil metros quadrados, para comportar seus 1,3 mil funcionários.
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