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‘Short selling’ inaugura nova era do crédito privado

por: Afonso Bazolli
em: Crédito
fonte: Valor Econômico
15 de setembro de 2026 - 17:12

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Próximo passo é o desenvolvimento de instrumentos que aumentem liquidez, permitam proteção de risco e tornem os preços mais eficientes

O investidor que opera vendido em um ativo é figura conhecida no mercado de ações e de dívida pública.

No crédito privado brasileiro, porém, essa possibilidade não existia. Até o início deste ano, emprestar um título privado (como uma debênture) para venda e posterior recompra, o chamado “short selling”, esbarrava em uma exigência regulatória: era preciso uma infraestrutura de mercado assumindo o risco da negociação. Isso se traduziu em um mercado pouco dinâmico, com alto custo, escassez de operações e ausência de liquidez.

A Resolução CMN 5.266, em vigor desde janeiro, mudou esse cenário ao permitir operações bilaterais entre instituições financeiras e fundos sem a necessidade de uma infraestrutura de mercado. Essa flexibilização promete dar um novo impulso às operações e traz para este mercado um público que já toma decisões diárias sobre crédito, preço, risco e liquidez: os gestores.

Esse é mais um passo decisivo para o amadurecimento de um mercado que já atingiu quase R$ 1 trilhão em negociações anuais no secundário, segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).

Na prática, esses players passam a contar com mais uma ferramenta para administrar as carteiras. A venda a descoberto traz benefícios que vão muito além da possibilidade de se posicionar contra um emissor. Ela amplia alternativas de hedge, cria fontes de retorno para gestores, melhora a eficiência na formação de preços e favorece o desenvolvimento do mercado secundário.

O timing para o short selling é favorável. O crescimento do crédito privado somado ao atual contexto de juros reforça a demanda por instrumentos que ajudem na negociação e na gestão do risco de crédito.

Porém, para que o mercado se desenvolva, é preciso preparar o ambiente. Uma das frentes foi a padronização das práticas do mercado para dar segurança jurídica e operacional às negociações. A Anbima trabalhou na uniformização das exigências do CMN e publicou um guia com orientações sobre o fluxo dessas operações, do contrato inicial, aos mecanismos de “buy-in” (solução para falhas na entrega dos títulos) e até eventuais situações de liquidação financeira.

Outra frente é a implementação de uma infraestrutura de negociação que suporte o padrão de mercado, que está em andamento. Ainda estão pendentes as funcionalidades relacionadas à possibilidade de repactuação dos contratos antes do vencimento e aos mecanismos de buy-in – a expectativa é que saiam no segundo semestre.

Em relação à formação de preços dos ativos – fator que tem influência sobre o short selling -, a autorregulação da Anbima já conta com regras para garantir a divulgação transparente e tempestiva dos valores negociados. Os bancos, gestores e custodiantes devem registrar as operações em no máximo uma hora após o acordo. Isso contribui para que os preços de referência estejam de acordo com a variação das percepções dos players. E existe uma base de precificação madura para sustentar as operações: a Anbima publica diariamente preços de referência para cerca de 90% das debêntures, o papel mais negociado dos títulos privados.

Essa combinação de ações deve atrair mais participantes e ampliar o volume de negócios. O ganho de liquidez, contudo, dependerá do crescimento da escala e da adesão dos players.

Potencial não falta. O volume de debêntures no mercado secundário saltou de R$ 177,5 bilhões em 2020 para R$ 947,3 bilhões em 2025, consolidando-se como um dos segmentos de maior expansão nos últimos anos.

O próximo passo é o desenvolvimento de instrumentos que aumentem liquidez, permitam proteção de risco e tornem os preços mais eficientes.

O “short selling” é mais uma etapa na construção de um mercado de crédito privado mais líquido, profundo e sofisticado. Os pilares regulatórios e operacionais já estão estabelecidos. À medida que a infraestrutura evoluir e o mercado ganhar escala, o crédito privado brasileiro poderá se aproximar do nível de dinamismo compatível com sua relevância crescente.

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