
Não está claro se o pior já passou, mas bancos veem espaço para emissões de empresas grandes e com bom rating
Depois de um hiato de mais de três meses nas emissões de crédito privado, alguns bancos começam a testar operações de olho em uma possível retomada de captações, com atenção voltada à estabilização das taxas do mercado. O movimento ocorre mesmo que ainda não esteja claro se o pior momento para as ofertas já passou. Porém, a avaliação nos bancos é a de que empresas com bom nível de crédito podem encontrar espaço para acessar investidores.
A escassez de novas emissões tem sido longa, com investidores demonstrando alta aversão ao risco e fundos de crédito sofrendo saques. Desde março, o mercado primário perdeu fôlego após grandes processos de reestruturações corporativa e problemas envolvendo companhias alavancadas. Com isso, boa parte das ofertas precisou ser encarteirada pelos bancos ou postergadas diante da deterioração das condições de captação. Desde então, o mercado permanece em compasso de espera.
“O mercado de incentivados passou por ajustes e diferença para os títulos corporativos hoje não está tão grande” Felipe Wilberg
Uma fonte que atua com emissão de títulos de crédito privado afirma que eventos de crédito de empresas como GPA e Raízen, que pediram recuperação extrajudicial, deixaram os investidores em estado de cautela, percepção ainda presente no mercado. Segundo ele, ainda é necessária uma estabilização maior para uma retomada mais consistente. Muitos fundos de crédito querem evitar elevada exposição a determinados emissores. Por isso, alguns nomes podem ainda ter dificuldade de acessar o mercado de renda fixa neste momento.
Para se ter uma dimensão, as emissões de crédito privado somaram cerca de R$ 45 bilhões em abril, queda de 25,6% ante março, conforme relatório do BTG Pactual. Considerando apenas as emissões de debêntures corporativas, atreladas ao CDI, o volume foi de R$ 12 bilhões, retração de 51,7% no comparativo mensal e de 18,1%, no anual. Já as debêntures incentivadas totalizaram cerca de R$ 9 bilhões, volume 59,5% inferior ao de março e 5% menor que o de abril de 2025.
O relatório do BTG também aponta que o estoque de CDBs cresceu mais que o de crédito privado, atingindo a cifra de R$ 2,9 trilhões em abril. Houve alta de 4,8% no comparativo mensal, indicando uma procura dos investidores por papéis de menos risco.
Com a estabilização dos níveis dos spreads após um período de abertura, bancos começam a “testar as águas” para medir o apetite dos investidores. Essas primeiras emissões são vistas como um sinal de que a janela pode estar começando a reabrir. Segundo dados da Anbima, associação das instituições que atuam nos mercados financeiro e de capitais, o índice de spread medido pelo Índice de Debêntures Anbima (IDA) chegou a 1,12% entre os dias 27 e 29 de abril, o maior registrado no ano, mas em maio caiu para 1%, o mesmo do início de abril.
Entre as ofertas anunciadas nos últimos dias, está uma da Cemig GT que deve movimentar até R$ 2 bilhões. Dado o cenário, a que empresa costuma emitir papéis incentivados, desta vez, fará uma emissão corporativa. Os títulos terão prazo de 5 anos e taxa máxima indicada de CDI mais 0,7% ao ano. A companhia pretende usar o dinheiro para o reembolso de investimentos, conforme os documentos da operação.
O responsável pela área de renda fixa local do Santander Brasil Matheus Licarião, reforça a melhora do CDI. “Nos fundos DI, os spreads já voltaram para níveis de fevereiro e começamos a ter apetite dos investidores para créditos bons e prazos mais curtos”, afirma o executivo.
Felipe Wilberg, diretor de renda fixa e produtos estruturados do Itaú BBA, tem uma leitura parecida. Para ele, há demanda especialmente para títulos com vencimentos não tão longos. Além disso, diz, “o mercado de incentivados, que sempre foi mais barato, passou por ajustes e a diferença para os títulos corporativos hoje não está tão grande”.
Uma fonte que pediu para não ser identificada afirma que, para a retomada dos papéis incentivados, o mercado ainda precisa se estabilizar. Além disso, as pessoas físicas, típicas compradoras desses papéis, estão “machucadas” pelos últimos problemas corporativos. Outro executivo da área de renda fixa disse que “os papéis incentivados seguem fracos, mas ao menos pararam de piorar.”
O mercado já esperava um ano mais fraco para o crédito privado, considerando que muitas companhias anteciparam operações em 2025 diante da perspectiva de maior volatilidade. A guerra no Irã, o aumento dos juros futuros e a ampliação das preocupações com a situação fiscal, no entanto, pioraram ainda mais as condições de captação neste ano, segundo Fabio Jacob, diretor responsável pela área de mercado de capitais local do Scotiabank. “Em meados de março, quando a NTN-B abriu [subiu] demais, as empresas chegaram a uma situação onde a pergunta não era mais se haveria demanda, mas se fazia sentido emitir papéis naquele nível de ‘yield’ [rendimento]”, diz.
Mesmo assim, o volume de emissões de debêntures em março somou R$ 45,4 bilhões, 2,4% acima do registrado um ano antes. Em abril, porém, houve forte desaceleração. As ofertas somaram R$ 20,3 bilhões, abaixo da média de R$ 33,1 bi do primeiro trimestre, segundo a Anbima.
Agora, o mercado tem buscado ficar funcional de novo. “Não dá para garantir que o pior já passou e que o mercado não vai piorar mais. A princípio, a sensação é que houve correção e que agora o mercado caminha para uma melhora. A realidade, porém, é que é tudo muito dependente de fatores exógenos ao mercado de crédito, como o desenrolar da guerra e o cenário eleitoral”, afirma Jacob.
Henrique Filizzola, sócio da área de mercado de capitais do escritório Stocche Forbes, diz que ainda não enxerga um cenário de retomada. Segundo ele, as operações que começam a ir para a rua são de empresas que não conseguem esperar ou de grandes companhias, que também tiveram de ajustar taxas para acessar o mercado.
A demanda das emissoras por dinheiro continua existindo, com as taxas de retorno dos projetos sendo recalculadas diante da nova realidade de custos de financiamento, diz Jacob, do Scotiabank. “O ponto agora é que o alocador está um pouco mais reticente e quer entender se o fundo do poço em termos de saques já foi alcançado.”
Em termos de taxas, houve uma certa acomodação nas últimas semanas, após uma onda de aumento e até algumas reduções pontuais, de cerca 0,3 a 0,4 ponto percentual em relação ao pico, em casos específicos, como nota Jacob. “Algumas incertezas sobre setores foram redimidas e em outros casos os acionistas reafirmaram o compromisso com a empresa, reduzindo as dúvidas”, diz.
Como muitas companhias aproveitaram os spreads baixos nos últimos dois anos para alongar dívidas, hoje a necessidade de refinanciamento é muito menor, segundo Felipe Thut, responsável pela área de renda fixa do Bradesco BBI. O banco calcula que as empresas têm R$ 29 bilhões em debêntures vencendo neste ano. Em 2027, esse número aumenta para R$ 51 bilhões e, em 2029, para R$ 140 bilhões.
O interesse por emissões, dessa forma, deve ser pautado nos próximos meses pelo aparecimento de oportunidades de investimento ou pela necessidade de execução de projetos contratados, segundo Thut.
Guilherme Maranhão, presidente do fórum de estruturação de mercado de capitais da Anbima, diz que houve uma redução na destinação dos recursos para o pagamento de dívidas, com as empresas acessando o mercado não apenas para gerir passivos, mas para sustentar planos de crescimento. “A queda na destinação de pagamento de dívidas é parcialmente explicada pelo fato de isso acontecer quando o mercado oferece condições melhores. Como estamos vindo de anos fortes e bons e neste ano o mercado foi mais volátil, é natural que haja uma queda nessa destinação”, afirma.
Por outro lado, diz Maranhão, os investimentos em infraestrutura continuam sendo o principal uso dos recursos, chegando à quase metade do total, (47% no primeiro quadrimestre), o que reforça o papel do mercado de capitais como fonte de financiamento para expansão.
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