
O endividamento no cartão de crédito voltou a se aproximar do maior nível já registrado nos Estados Unidos. Entre abril e junho, o saldo chegou a US$ 1,26 trilhão.
O resultado representa uma alta de US$ 21 bilhões em relação ao primeiro trimestre, equivalente a 1,7%. Na comparação com o mesmo período de 2025, o avanço chegou a US$ 54 bilhões. Com isso, o valor ficou pouco abaixo do recorde de US$ 1,28 trilhão registrado no ano passado, segundo dados do Federal Reserve Bank de Nova York.
O movimento chama atenção porque ocorreu enquanto a dívida total das famílias americanas apresentou uma leve redução. O contraste mostra que a queda do endividamento geral não significou uma redução no uso do cartão, segundo o The Guardian.
Atrasos mostram pressão sobre consumidores
Mais do que o tamanho da dívida, o comportamento dos pagamentos ajuda a dimensionar a pressão sobre os consumidores. A parcela da dívida de cartão com mais de 90 dias de atraso passou de 7,6% no fim de 2022 para 12,8% no início de 2026.
O avanço desse indicador aumentou as preocupações sobre o nível de estresse financeiro das famílias. Ainda assim, os pesquisadores observaram que o ritmo de novas inadimplências permaneceu estável por aproximadamente dois anos.
No conjunto de todas as dívidas das famílias, a situação apresentou uma pequena melhora no segundo trimestre. A parcela dos saldos com algum pagamento atrasado caiu de 4,8% para 4,7% entre abril e junho.
Portanto, os dados não apontam para uma deterioração uniforme do crédito. O problema aparece com mais força no cartão, que combina um saldo elevado com uma parcela relevante de consumidores enfrentando atrasos prolongados.
Custo de vida influencia uso do crédito
A evolução da dívida ocorre em um cenário no qual os americanos ainda lidam com preços elevados. A inflação chegou a 3,4% em julho, enquanto o índice de preços ao consumidor registrou alta de 0,1% na comparação com junho.
Para Lucia Dunn, professora emérita de economia da Ohio State University, despesas básicas ajudam a explicar por que algumas famílias continuam recorrendo ao cartão. Alimentação, material escolar, fórmula infantil e fraldas estão entre os gastos mencionados pela economista.
Nesse cenário, o cartão pode funcionar como uma forma de lidar com despesas inesperadas ou períodos de perda de renda. O problema surge quando o consumidor não consegue quitar a fatura e passa a carregar o saldo para os meses seguintes.
A diferença é importante porque o uso pontual do crédito não produz o mesmo efeito de uma dívida que se acumula. Quanto mais tempo o saldo permanece em aberto, maior tende a ser a pressão sobre o orçamento.
Dívida total recua, mas crédito continua avançando
O relatório do Fed de Nova York mostrou que a dívida total das famílias caiu US$ 13 bilhões ( cerca de R$ 67 bilhões) no segundo trimestre, chegando a US$ 18,8 trilhões (R$ 97,94 trilhões). Hipotecas e empréstimos estudantis registraram pequenas quedas no período, enquanto outras modalidades apresentaram crescimento.
O crédito para veículos também avançou. Entre abril e junho, os consumidores americanos contrataram US$ 211 bilhões (R$ 1 trilhão) em novos empréstimos para automóveis, o maior volume nominal já registrado em um segundo trimestre.
Mesmo com esses movimentos, o cartão de crédito permanece como um dos principais pontos de atenção. O saldo de US$ 1,26 trilhão (R$ 6,58 trilhões) está próximo do recorde anterior e, ao mesmo tempo, os atrasos superiores a 90 dias continuam em patamar elevado.
Para Dunn, esse quadro pode se tornar mais preocupante caso a economia entre em uma fase de desaceleração. A economista citou a crise financeira de 2008 para explicar como a combinação de dívida e perda de renda pode ampliar as dificuldades das famílias.
Assim, o dado do segundo trimestre revela um cenário específico: a dívida total dos americanos recuou levemente, mas o cartão de crédito seguiu na direção contrária. Com US$ 1,26 trilhão (R$ 6,58 trilhões) acumulados, o saldo permanece próximo do recorde e expõe a pressão que o crédito exerce sobre parte dos consumidores dos Estados Unidos.
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