
Construtoras dependem do banco para a maior parte do financiamento de obras e para clientes, incluindo no Minha Casa, Minha Vida, e sentem impacto em seus caixas
A greve dos funcionários da Caixa Econômica Federal, iniciada no dia 10, já preocupa o setor imobiliário por atrasos nos contratos de novos financiamentos e também no pagamento de recursos para as obras. Empresas e clientes do programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) são os mais afetados.
Profissionais do setor destacam que alguma greve já é esperada todos os anos, mas que a paralisação atual tem sido particularmente pesada. A duração prolongada é um fator, mas a importância do banco dentro do sistema imobiliário é o ponto principal, afirma Cyro Naufel, diretor de relações com investidores da Lopes.
A Caixa concentra praticamente todos os contratos do MCMV, que cresceu nos últimos anos. No primeiro semestre, as vendas do programa equivaleram a metade do total comercializado no país, de acordo com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic). Na cidade de São Paulo, o MCMV respondeu por 69% das unidades vendidas nos últimos 12 meses até julho, aponta o Secovi-SP.
“Independentemente da greve durar mais, o impacto vai ser maior, porque o mercado cresceu muito”, afirma Naufel. “A demanda que a iniciativa privada exige dessa instituição bancária é muito maior”.
Um empresário do ramo, que pediu anonimato, afirma haver “caos” entre pequenas e médias incorporadoras que atuam no MCMV, por atrasos no pagamento por evolução da obra. O banco libera os recursos de acordo com o progresso da construção e, para isso, faz medições mensais, prejudicadas pela greve.
“As empresas de capital aberto têm caixa para aguentar, mas quando você pega as pequenas e médias, a maioria está apertada, com esses juros altos”, diz.
José Pedro Donadon, CEO da ADN Construtora, que atua no interior de São Paulo, reforça essa percepção. “Os atrasos no recebimento das medições pressionam diretamente o fluxo de caixa da empresa”, afirma.
Na BRZ, que atua no programa habitacional, só 4 das 18 vistorias previstas para o mês foram feitas, conta o diretor comercial Anderson Morais. “Aproximadamente R$ 7 milhões referentes ao avanço das obras deixaram de entrar em nosso caixa em setembro”.
A incorporadora Open, braço de MCMV do grupo gaúcho Melnick, conseguiu fazer as medições no período, mas se preocupa com o atraso no repasse de clientes para a Caixa. A CEO Renée Garófalo estima que de 45 a 49 contratos aguardam uma resolução do banco. Há o receio de que, nesse intervalo, o cliente contraia alguma dívida que atrapalhe sua análise de crédito. “É um cliente muito sensível, que se endivida rápido”, afirma.
De 314 contratos que a BRZ esperava serem liberados neste mês, 196 estão presos na etapa final, que depende da Caixa. São cerca de R$ 17 milhões que a empresa deixa de receber, afirma Morais.
Donadon confirma que a esteira de repasses está paralisada, “o que deve afetar de forma importante os resultados deste mês”.
Em relatório publicado na terça-feira (22), analistas do BTG Pactual já previam que a greve poderia afetar o resultado de incorporadoras no terceiro trimestre, em especial a geração de caixa, por causa do atraso nos repasses dos clientes. No entanto, destacaram ser difícil estimar as perdas, já que não se sabe a duração da greve. O fim da paralisação deve jogar parte da geração de caixa para o quarto período.
Naufel afirma haver uma preocupação com o represamento dos contratos, uma vez que os pedidos continuam se avolumando: as primeiras etapas são feitas por correspondentes bancários e canais digitais, que seguem em operação. Em operação regular, o banco vinha fechando mais de 3 mil contratos de financiamento imobiliário ao dia.
Para além do Minha Casa, Minha Vida
Incorporadoras que não atuam no MCMV também podem ser afetadas, porque a Caixa é o maior banco de outras modalidades do crédito imobiliário. Neste ano, até julho, o banco respondeu por 44% das contratações de crédito imobiliário com recursos da poupança para a compra de imóvel, e por 59% das operações com recursos de poupança para financiar a construção de empreendimentos.
Garófalo acrescenta outro ponto: o uso do FGTS para a compra da casa própria depende de liberação da Caixa, o que também atrapalha financiamentos de outros bancos.
Corretores também são afetados. Naufel explica que o pagamento da taxa de corretagem é realizado, pela incorporadora, após o repasse do financiamento do cliente para a Caixa. Sem essa etapa, o profissional que fez a intermediação da venda não recebe a sua parte. A Caixa foi procurada pelo Valor, mas não retornou até a publicação da reportagem.
O Tribunal Superior do Trabalho (TST) vai julgar o pedido de dissídio coletivo proposto pela banco, após a instituição acionar a Justiça nesta quinta-feira (24).
“A Caixa é o banco que entende de habitação”, afirma Garófalo. “Nos demais bancos, é como se fosse um braço, mas na Caixa o principal produto é a habitação, e não só a habitação social”.
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