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29 de outubro de 2026 - 17:12

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Provisão para perdas com inadimplência subiu 40,8% em 12 meses; créditos com atraso superior a 90 dias cresceram 62%

Os fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) foram a estrela da segunda onda da explosão dos fundos de crédito no país, de 2025 para cá. Até então vistos como exóticos e nichados, eles tiveram forte crescimento e, em julho, atingiram a emblemática marca de R$ 1,015 trilhão em patrimônio líquido, segundo levantamento feito pelo Valor Data na base de dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A expansão, no entanto, veio acompanhada de piora dos indicadores de risco, em um ambiente de juros ainda elevados e maior pressão financeira sobre famílias e empresas no país. O estudo mostra que a provisão para perdas com inadimplência subiu 40,8% em 12 meses, de R$ 46,1 bilhões para R$ 64,9 bilhões, enquanto os créditos com atraso superior a 90 dias cresceram 62%, para R$ 7,5 bilhões.

Para Ricardo Rochman, professor de finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV), com a política de concessão mais restritiva dos bancos, parte do crédito migrou para os fundos, mas se observa uma grande oferta de FIDCs com critérios menos rigorosos. “Os fundos permitem estruturação flexível de crédito, por isso alguns deles assumem conscientemente riscos mais elevados”, avalia. A alta prolongada da Selic e o aumento do endividamento são, de acordo com ele, os principais fatores que levaram à deterioração das carteiras desses fundos, que, afirma, colocaram na carteira “créditos que na realidade deveriam ter sido barrados, aumentando consideravelmente os riscos de perdas dos fundos.”

O valor provisionado passou de 7,3% para 8,3% da carteira bruta de direitos creditórios. No sistema financeiro, o total de provisões para devedores duvidosos correspondia a 7,4% da carteira de crédito em julho de 2025 e a 7,8% um ano depois, segundo dados do Banco Central. As duas proporções são apenas uma referência, já que as carteiras abrangidas e os critérios contábeis são diferentes. O percentual de provisões do levantamento excluiu integralmente fundos predominantemente dedicados à compra de créditos já vencidos – os chamados ativos não performados, ou NPLs – e o resultado se manteve o mesmo, o que indica que a deterioração não decorre desse segmento.

Samuel Garson, presidente da Associação Nacional dos Participantes em Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (Anfidc), diz não ver um cenário alarmante. Segundo ele, embora os atrasos estejam crescendo, a pulverização das carteiras compensa nos resultados. Garson afirma ainda que parte dos créditos detidos pelos FIDCs pode ter tratamento extraconcursal em processos de recuperação judicial, a depender da estrutura da operação – ou seja, não entra na fila de credores sujeitos ao plano. Ele vê melhora no último trimestre, como efeito dos programas de renegociação de dívidas, da renda maior no fim de ano e dos cortes de juros, ainda que pequenos. “O fundo do poço já chegou”, avalia.

Segundo Garson, a entrada dos bancos nos FIDCs inflou o patrimônio da classe. Os dados públicos da CVM, porém, não permitem medir esse efeito, porque não identificam todos os cedentes nem o valor total dos créditos adquiridos de bancos. “Estamos vendo em outros países esse movimento de os fundos assumirem papel de financiadores diante da restrição de bancos”, diz Diego Coelho, sócio fundador da Brave Asset, que tem R$ 6 bilhões sob gestão.

Em 12 meses, o crescimento do patrimônio líquido foi de 16,3%. Considerando só direitos creditórios – excluindo, portanto, outros ativos mantidos pelos fundos, como títulos públicos, CDBs e cotas de outros FIDCs -, a carteira bruta passou de R$ 634,4 bilhões a R$ 779,2 bilhões em 12 meses, alta de 22,8%. O aumento equivale a cerca de três vezes o avanço de 7% do crédito concedido com recursos livres dos bancos no mesmo período, proporção que se mantém mesmo excluindo os NPLs, que avançaram 22,4%.

“Os passos subsequentes dessa indústria passam por aumentar a transparência”

— Eduardo Solamone

Rochman explica que a forma como se calcula as provisões e perdas esperadas tem diferença para os FIDCs. “Os bancos formam provisões considerando a carteira diversificada que possuem, enquanto fundos podem ser específicos para um segmento ou empresa – logo, são menos diversificados, e por isso deveriam ter maior provisão em função do risco”, ressalta. Já Marcelo Michaluá, sócio fundador e co-CEO da RB Asset, que tem cinco FIDCs, tem uma visão mais positiva. Diz que esse é um instrumento de desintermediação financeira versátil, que se provou vencedor. “Eu não diria que existe deterioração, que os fundos estão mais arriscados, e sim que perdas eventuais podem se concretizar, mas o nível de subordinação dos FIDCs é robusto e deve absorvê-las”, afirma.

A subordinação à qual Michaluá se refere funciona assim: os FIDCs são divididos em subclasses de cotas. A sênior, mais segura e com prioridade no recebimento dos rendimentos; a mezanino, uma camada intermediária; e a subordinada, que vai arcar com eventuais atrasos e garantir a remuneração dos investidores da sênior. Ao público de varejo, por exemplo, desde 2023, é permitido oferecer somente a sênior; as demais, para institucionais ou profissionais, que são a maior parte dos clientes de FIDCs.

O sócio da RB Asset explica que a subordinada corresponde a um múltiplo da perda esperada. Se a previsão é que 2% da carteira entre em default, a cota subordinada pode ser quatro vezes isso, ou 8% da estrutura de capital do fundo. Geralmente, a gestora e/ou a empresa dona dos créditos compra essa cota para mostrar alinhamento de interesses. Não há padronização de critérios de avaliação do risco de crédito na maior parte dos fundos. Poucos têm nota de agências de classificação de risco. Por isso, é um veículo com baixa entrada no varejo.

As carteiras são extremamente diversas. Podem ter desde créditos a receber de empréstimos consignados do setor público, bastante seguros, até financiamentos concedidos a clientes mais arriscados, além dos créditos em atraso, que entram na categoria de ativos estressados. “Do ponto de vista de disponibilidade de crédito é um instrumento excelente, porque aumenta a concorrência, mas por outro lado gera desafios”, diz Eduardo Solamone, diretor de relações com investidores da Sol Agora, fintech de soluções de crédito para o setor de energia solar investida da canadense Brookfield e que recebeu aporte de US$ 20 milhões da IFC, parte do Banco Mundial.

“Perdas podem se concretizar, mas o nível de subordinação dos FIDCs é robusto e deve absorvê-las”

— Marcelo Michaluá

Ele concorda que as estruturas são pouco transparentes atualmente. “Onde há opacidade, não há segurança. Portanto, os passos subsequentes dessa indústria passam exatamente por aumentar a transparência dessas estruturas, em especial no que diz respeito às regras de provisionamento”, avalia Solamone. Ele compara com o mercado americano, em relação ao qual ele avalia que o Brasil está dez anos atrasado. De acordo com o executivo, o grau de confiança nos EUA se equipara à compra de um título de dívida de uma grande empresa.

Para Solamone, há um movimento estrutural da indústria ganhando mais profundidade, e o passo seguinte é melhorar as regras de provisionamento, harmonização e padronização entre diferentes veículos, tirando subjetividade. “Isso tende a comprimir e uniformizar os retornos que são pagos a essas cotas seniores.” Na Sol Agora, por exemplo, o spread da sênior saiu do patamar de 2,85 ponto percentual acima do CDI no início para 1,85 agora, já consolidada.

Com o forte crescimento de 2025 para cá, a classe atraiu holofotes e entrou na agenda regulatória da CVM neste ano. A Anbima, associação que representa os mercados financeiro e de capitais, criou um grupo de trabalho para discutir mudanças na autorregulação e publicou um guia sobre metodologia de provisão de devedores duvidosos. E, na quinta-feira, o Conselho Monetário Nacional (CMN) endureceu as regras para a aquisição, por FIDCs, de créditos e expectativas de direitos originados de processos judiciais e arbitrais, em resposta às fraudes identificadas em fundos no esquema do Banco Master.

“O investidor precisa ter cautela”, diz Christopher Galvão, sócio e analista de fundos na Nord Investimentos. “Vejo casos de assessores que vendem como investimentos seguros, mas cada FIDC é diferente e é importante inserir na parcela da carteira de crédito alternativo, com risco mais elevado”, explica. Ele frisa ainda que é uma aplicação de saída difícil, já que o mercado secundário não tem muita liquidez. “É interessante ter na carteira, mas não fazemos recomendação ativa.”

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