
Fatia representava 17% do total de devedores na metade de 2026, no quinto semestre de alta
O Brasil registrou 20,3 milhões de pessoas em situação de endividamento de risco no primeiro semestre deste ano, segundo o Banco Central (BC). O número representava 17% do total de devedores do Sistema Financeiro Nacional (SFN), de acordo com o Relatório de Estabilidade Financeira (REF), divulgado nesta terça-feira.
A proporção de pessoas que se enquadram entre os endividados de risco cresceu pelo quinto semestre consecutivo. O indicador estava em 16,5% em dezembro e 14,7% na metade de 2025.
Considera-se endividado de risco o tomador de crédito que atende a pelo menos a dois destes requisitos: ter atrasos superiores a 90 dias; comprometer mais de 50% da renda mensal com o pagamento do serviço das dívidas; contratar modalidades de crédito mais caras; ter renda disponível mensal abaixo da linha da pobreza. Entram no cálculo apenas dívidas com o SFN, e não com contas de luz, por exemplo.
Em entrevista sobre o relatório, o diretor de fiscalização do BC, Ailton de Aquino, afirmou que a capacidade de pagamento das famílias está mais difícil por causa do comprometimento de renda, que alcançou 28,7% tanto em junho quanto em julho. O indicador, que mede a relação entre o serviços da dívida e a renda mensal, está no pico da série histórica, puxado pelo crédito não consignado e pelo cartão de crédito.
O cenário atual é pior, em especial, para as famílias mais pobres. Para os tomadores de crédito de menor renda, que recebem até dois salários mínimos por mês, o equivalente a R$ 3.242 mensais, as duas modalidades são as que mais pressionam o comprometimento de renda. Fazem parte desse grupo 61,2 milhões de pessoas.
“O crédito não consignado e o cartão de crédito têm um comprometimento de renda relevante. São duas modalidades que o Banco Central vem acompanhando e, dentro do nosso ambiente de governança, avaliando medidas em relação a essas duas modalidades”, disse Aquino.
Ainda que em menor escala, o cartão de crédito também é a modalidade que mais afeta as famílias que recebem de dois a dez salários mínimos, um público de 29,8 milhões de brasileiros, o que ajuda a explicar o aumento das taxas de inadimplência das operações de crédito no Brasil.
O BC estuda novas medidas a ser adotadas ainda em 2026 com intenção de reduzir o superendividamento, conceito no qual entram também dívidas como contas de luz. Na sexta-feira, a autoridade monetária anunciou ações direcionadas à população de menor renda. Por exemplo: as instituições financeiras precisarão, a partir de março de 2027, levar em consideração o perfil do consumidor antes de fazer anúncios ativos e personalizados de produtos financeiros
“Há uma preocupação ali especificamente com as pessoas que já entraram no rotativo [do cartão e crédito] e que estão pagando juros [elevados] e com pessoas que já tem nível de atraso significativo, seguindo o que são as práticas internacionais de não fazer mais oferta, especialmente as mais agressivas, voltadas a esse público”, disse o presidente do BC, Gabriel Galípolo.
Além disso, a digitalização dos serviços financeiros ampliou a exposição a fraudes, golpes, ataques cibernéticos e modelos de negócios que podem explorar comportamentos impulsivos dos consumidores. “Esses riscos, combinados com vulnerabilidades individuais, baixos níveis de educação financeira e digital e elevado endividamento, reforçam a preocupação regulatória com o superendividamento”, disse o BC no relatório. Para o regulador, os impactos dos riscos extrapolam a esfera financeira, alcançando a saúde física e mental, a empregabilidade e a produtividade das pessoas.
O endividamento das famílias foi um dos principais temas da campanha presidencial. Às vésperas do primeiro turno da eleição, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lançou a terceira versão do Desenrola, programa voltado à renegociação de dívidas das pessoas físicas, que contará com um leilão de recompra das operações.
CADASTRE-SE no Blog Televendas & Cobrança e receba semanalmente por e-mail nosso Newsletter com os principais artigos, vagas, notícias do mercado, além de concorrer a prêmios mensais.